Uma poltrona confortável para sentar

Descrição da imagem #pracegover: Desenho de Millôr Fernandes da poltrona Mole. Trata-se da ilustração de uma mulher sentada em uma confortável poltrona marrom. Ao seu lado está um cachorrinho. A imagem tem uma macra d'água onde está escrito: Instituto Sérgio Rodrigues. Fim da descrição.
Desenho de Millôr Fernandes da poltrona Mole para o catálogo da Oca, 1965 (Fonte: Acervo do Instituto Sérgio Rodrigues)

Dentre as mudanças ocorridas ao longo da pandemia, novos hábitos foram adquiridos: os almoços de domingo são digitais, síncronos e divertidos. Aliás, o happy hour também.

Se por um lado o medo do contágio levou ao distanciamento físico e social, por outro lado os encontros ainda ocorrem entre os membros da família, só que de outro jeito. A essa situação de ‘dar a volta por cima’ e ainda assim manter-se otimista, eu chamo de resiliência: que nada mais é do que a habilidade que permite ao ser humano responder de forma intuitiva à adversidade e ao estresse cotidiano, em especial, durante essa longa pandemia. Hora do escolher o aplicativo para o encontro…

Descrição da imagem #pracegover: Ícones de algumas das principais redes sociais. Fim da descrição.

– Quero o Skype!
– Prefiro o google teams!
– De jeito nenhum: vai de google meet.
– E que tal pelo facetime?
– Talvez pelo whatsapp?

Para acabar com a polêmica, liguei para minha mãe:
– Só tenho o Zoom instalado. Vai de Zoom mesmo: senão, não vou. Apoio meu tablet sobre a mesa de jantar e vejo todos os meus netos.

Ok. Fechado. Acabou a polêmica. Todos quietos. Ordem é para ser cumprida.

Mesa posta, todos em seus lugares.

Os convidados começam a entrar. 

Chegam também alguns amigos que, para além da família construída pelos laços de sangue, são nossa família social. 

Comida e bebida à vontade. De todos os tipos. Desde aqueles que pediram comida tailandesa com entrega por aplicativo até a tia de um dos convidados que abriu a massa do macarrão em casa, cozinhou e serviu com molho de tomates caseiro.  Quase morri de tanta vontade de provar. Mulher à moda antiga. Cozinha todos os dias para o marido. Café da manhã, lanche, almoço, chá com bolo, janta e eventualmente ceia. Casal simpático. Por volta do seus oitenta e poucos anos. Envelhecendo tranquilamente. Independentes até o momento.

Impressionante o encontro. Rimos muito, contamos piadas sobre nossos comportamentos durante o isolamento, as discussões básicas e tradicionais e elogiamos todas as comidas: desde aquelas de aplicativo até aquela feita em casa pela dona Antonieta para o nosso encontro digital – um primor! 

Terminada a sobremesa, dona Antonieta pede afetuosamente ao marido que já estava quase fazendo a sesta na poltrona:
– “Pombinho” (apelido afetuoso), traz o café?
– Já vou minha “pombinha”. 
– Você não vai pegar?
– Um instante… estou dando um jeito aqui…
– Jeito no quê?
– Em mim, pombinha… está difícil sair daqui… acho que nem com guindaste levanto hoje…

A cadeira, recém presenteada pelo neto próspero, era linda. Couro costurado à mão, detalhamento em madeira, muito macia, amolda-se ao corpo de quem se senta como num perfeito abraço, literalmente te engole, estilosa. Decidiram inaugurar no dia do almoço para mostrar a todos.

Senhor Hélio, o pombinho, não saía do lugar.  Virou de um lado, virou do outro e nada. Sentou-se e não se levantou mais. Só se desvinculou do abraço dado pela cadeira com o auxílio da dona Antonieta que, por pouco, não desaba junto com ele no chão.

Além do susto e do visível constrangimento do neto, a situação mostrou que vários são os critérios para a seleção de uma cadeira confortável, gostosa de se sentar.

A situação ilustra a necessidade de tomar alguns cuidados para adquirir mobiliários para uso de pessoas idosas. O fato me chamou a atenção. Fiquei bem assustada. Sou fã da tal poltrona, do design do autor e gostaria de um dia poder adquiri-la. De preferência, enquanto ainda tiver condições físicas para usá-la com propriedade. Vários são os critérios para aquisição. Dependem de cada pessoa. Para além do design e do conforto, a usabilidade da tal poltrona deve se adequar às condições de peso, altura, condições físicas associadas à idade, estética além do tipo de uso (repouso, leitura etc.) e tempo de permanência.

Algumas perguntas ao adquirir uma peça de mobiliário para sentar-se, por exemplo, é definir o tipo de uso.

Para que a vida do senhor Hélio e da dona Antonieta seja mais tranquila, deixo algumas orientações para a aquisição de poltronas para pessoas idosas e independentes:

1. Considere a altura, o peso e força que o usuário tem para conseguir levantar-se sozinho pois, nem todas as pessoas idosas, necessitam de apoio ou ajuda extra.  

2. A profundidade do assento precisa acomodar corretamente o comprimento das pernas do usuário. Minha sugestão é que a profundidade termine entre 3 e 5 cm antes do joelho. Na do Sr. Hélio, a profundidade era maior; com isso, seus pés não alcançaram o chão para permitir o apoio para levantar-se. Afundou literalmente na poltrona.

3. A altura da cadeira do chão ao assento: sempre sugiro que o assento esteja cerca de 4 cm mais alto do que a altura do joelho até o chão. O importante é que os pés estejam encostados no chão para servir de apoio ao se levantar. Esse cuidado teria permitido ao Sr. Hélio levantar-se sozinho…

4. A estética também é importante no processo de seleção. Muitas vezes a poltrona será utilizada com frequência e pode tornar-se “a cadeira favorita”. Hoje, várias cadeiras encontradas em lojas de departamentos têm preços que cabem no seu bolso, são bem bonitas e seguem algumas das orientações que estou recomendando agora. O importante é ler o manual técnico de especificações. 

5. Poltronas reclináveis: Existem várias destas poltronas reclináveis no mercado. As poltronas reclináveis ​​são ideais para idosos ou para quem apresenta algum tipo de limitação física leve. O controle remoto não apenas ajudará a reclinar a cadeira e colocá-la novamente na posição sentada original, mas também ajuda o usuário a se levantar de forma independente.

6. Cuidado com o estofamento e a densidade: embora à primeira vista o estofamento não pareça um item importante, os apoios de braço precisam ser robustos e os contornos para as costas são fundamentais para evitar eventuais dores associadas ao tempo de uso. A densidade deve ser firme o bastante para não deformar-se com o uso e para facilitar a independência nos movimentos: levantar-se e sentar-se de forma autônoma.

7. Adicione um banquinho em frente à poltrona para aqueles que desejarem levantar os pés. É bom para a circulação e descansa;

8. O encosto da poltrona é um suporte para as costas. Deve ser alto pois além do conforto, permite que a cabeça fique apoiada para aquela soneca pós-almoço. Se eventualmente a poltrona não for reclinável por controle remoto, observe o ângulo de inclinação. Se a poltrona for para leitura, o ângulo mais confortável é o que fica entre 100° e 105°. Se for uma poltrona para descanso, o ângulo pode ficar entre 105° e 110°.

Espero que essas dicas possam ter ajudado de alguma forma a todos. Cuidem-se nesse período de pandemia e cuidem, em especial, de seus parentes mais idosos. O isolamento espacial e social, não precisa levar ao isolamento afetivo.  Independentemente do tipo de aplicativo escolhido, falem mais sobre o seu dia a dia, conversem mais, demonstrem os seus sentimentos para com seus familiares. Cuidem-se. Vai passar.

Leia também: Uma casa segura para meus avós

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