Somos todos vulneráveis

Descrição da imagem #pracegover: Foto de duas mãos se tocando. A mão de um adulto está em baixo e, sobre ela, está a mão de uma criança. Fim da descrição.

Existem pessoas que por algum motivo, seja ele qual for, imaginam que por morarem em seus castelos isolados e cercados de segurança ou perambularem pelas ruas em seus automóveis blindados, estão imunes à maldade humana.

Outras tantas, senão a maioria, seguem pela vida certas de que em suas casas, por mais luxuosas ou modestas que sejam, jamais entrará alguém que lhes possa violar a integridade, seus valores e princípios mais sagrados. Somos todos vulneráveis!

Afinal, o seio familiar é, ou pelo menos deveria ser, o lugar mais seguro, tranquilo, acolhedor e bom para qualquer um. Mas nem sempre é assim!

É preciso enxergar isso!

Creio que este seja um pensamento natural das pessoas sãs e minimamente equilibradas, afinal vimos o mundo a partir de nossas perspectivas e sentimentos mais profundos. Então, quando somos bons, gentis, empáticos, respeitosos, cooperativos, somos gratos, amamos as pessoas e a vida, costumamos ver com beleza e otimismo o mundo que nos cerca. E claro, esse mundo é real!

É reconfortante saber que existem muito mais pessoas boas do que o contrário por aí!

No entanto, na contramão desse caminho, é necessário compreender definitivamente, que ainda que a beleza humana e todo o seu potencial seja nosso foco de atenção, há de se perceber o paradoxo existencial nos seres humanos. Somos complexos, ambíguos e sim, carregamos em nós o bem e o mal. Mas será que estamos prontos ou fomos preparados para lidar com isso?

A existência humana, por si só, seja singular ou coletiva, é caracterizada pela luta constante entre um caminho e outro, luz e escuridão, alegrias e tristezas, conquistas e perdas, equilíbrio e ‘loucura’. E por mais que nos neguemos a enxergar, muitas vezes o mal está diante dos nossos olhos, bem embaixo do nariz, dentro das nossas casas.  Mas, de algum modo, negamos isso!

É um grande equívoco empinarmos nossas cabeças na esperança de que as situações desafiadoras estão somente do lado de fora, quando “muitas coisas” acontecem diante de nós e não vemos com olhos de ver!!!

Falamos frequentemente sobre a importância do acolhimento, da conexão, do afeto, da gentileza, da empatia, do respeito, da firmeza e do diálogo na relação com nossos filhos e alunos. Mas afinal, o que quer dizer tudo isso quando pensamos no dia a dia, na relação íntima e contínua com as nossas crianças e adolescentes?

Veja, se busco de verdade esse caminho e me entrego de corpo e alma para essa construção e fortalecimento de vínculos; e vivo essa ligação e união profunda com as pessoas que amo. Seria possível não perceber ou enxergar as mudanças comportamentais, a tristeza instalada e o desespero explícitos no fundo dos olhos da minha criança ou adolescente, quando algo não está bem?

Entendo que todos estamos num processo contínuo de transformação e evolução. E compreendo que o caminho adequado para isso seja encontrar a coerência entre aquilo que acredito, estudo, defendo e vivo com o modelo comportamental que entrego para o mundo, especialmente no seio familiar.

Pode parecer fácil falando aqui, mas esse é um dos maiores desafios  para pais e educadores: ser coerente entre o que se fala e o que faz! Trata-se de um exercício diário e contínuo. É necessário e altamente relevante quando queremos ser o mais assertivos possível na formação e educação da criança.

E claro que não se trata de apontar o dedo ou encontrar culpados para comportamentos maléficos distantes e inconcebíveis pela nossa essência. Mas é fato que existem, e portanto, precisam ser enfrentados para que possamos resguardar, de alguma forma, a integridade das pessoas que mais amamos.

Todos somos vulneráveis, suscetíveis a enfrentar ou nos deparar com negligências, abusos, agressões e invasões perniciosas da pureza e naturalidade da criança. Talvez muitos de nós tenha até passado por inúmeras situações em sua história de vida que nos colocaram numa situação vexatória ou constrangedora.

Alguns podem ter trabalhado isso em terapia, buscado algum tipo de ajuda nos estudos, nos relacionamentos sociais, em terapias alternativas para dissipar a dor no tempo, pois afinal é preciso olhar para essa dor e tratá-la.

Mas, quantos ainda sofrem pelos abusos sofridos, sejam de que natureza forem, e pior, respingam suas lágrimas de sangue por aí, tamanho o seu sofrimento, por não saberem lidar com essa dor e não serem descobertos, a não ser por pessoas inocentes e desprotegidas?

Houve um tempo em que ser criança não representava nada de tão especial, pois eram vistas como “adultos em miniatura” e tinham que se enquadrar às rotinas e padrões estabelecidos pelo universo adulto e pela sociedade da época.

Claro que em países mais desenvolvidos e evoluídos que o nosso, iniciou-se um movimento de “olhar” para as necessidades da infância e juventude muito antes que aqui. Felizmente, alguns avanços nos alcançaram e esse tempo ficou esquecido no passado, não tão distante, pois no Brasil, a implementação da Constituição Federal de 1988, passou a defender e incorporar os direitos da criança e do adolescente, e adiante, em 1990, foram fortalecidos e resguardados pelo Estatuto da Criança e Adolescente.

Portanto, falamos aqui de uma mudança concreta de pouco mais de 30 anos atrás, ou seja, a grande maioria de nós viveu ou é memória desses tempos altamente negligentes e de total abandono de direitos.

Tempos em que o formato tradicional de sociedade ignorava os anseios e necessidades primordiais de desenvolvimento saudável da criança, assim como suas emoções, sonhos, interesses, sensibilidade e esperanças…

Tempos em que os pais eram soberanos e incontestáveis o suficiente para agredirem física e verbalmente seus filhos sem sofrerem quaisquer contestações. Tempos em que professores e escolas eram poderosos em seus postos e podiam o que quisessem, pois não havia quem os contestasse, salvo raríssimos posicionamentos de pais mais esclarecidos, evoluídos e regulados em sua formação humana.

E de repente evidenciam-se algumas responsabilidades previstas e asseguradas na Lei, ainda que nos pareçam obvias para a condução da vida em si, me questiono de que valem, se a sociedade não as vê:

Art. 227 – É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.” (Constituição Federal/ 1988)

Ou ainda:

“Art. 5º- Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.” (ECA/ 1990)

Quem afinal defende e assegura a proteção das crianças e adolescentes? Os pais, irmãos mais velhos, cuidadores, professores e outros funcionários da escola, tios, tias, avós, primos, sociedade? Quem olha de verdade nos olhos dessas crianças e se conecta a tal ponto de perceber sequer, alguma nuance de que algo está errado para acolhê-la?

Onde estão seus super heróis? Eles existem?

“Todos temos uma história, não existe melhor ou pior. É uma realidade absolutamente única!

Porém, existe o que fazemos com o que fizeram de nós. Existe busca, desejo de ser uma versão melhor do que foram conosco. Existe estudo, dedicação, entrega, transcendência de perspectivas. Existe respeitar e aceitar a condição do outro e buscar todos os recursos possíveis para que ele se desenvolva feliz. Então, que a empatia nos norteie e seja inspiração para construirmos um mundo melhor.

Desejo que o foco seja a pessoa que queremos formar, os caminhos que desejamos que trilhem com liberdade, inteligência emocional, valorizados nas suas potencialidades, compreendidos nas suas limitações, resguardados nas suas vulnerabilidades, garantidos e protegidos em sua intimidade e dignidade, cientes dos seus deveres, fortalecidos em sua VOZ.

Sonho com um futuro que permita às novas gerações criticidade com empatia, sem bandeiras vazias de acolhimento e respeito. Que sejam gente que tem direito de ir e vir, a qualquer lugar, em qualquer situação, circunstância ou tempo, simplesmente porque pensam e sentem, e se é assim, como diria Sócrates, existem.

Permita que seus filhos pensem, sintam e existam! Eles podem transformar o mundo, mas para isso, é preciso “olhar” para eles! Por favor, não seja um “cego emocional”! Perceba quem é a sua criança ou o seu adolescente e cuide dele, entregue-se, de verdade, a essa relação do mais puro, glorioso e potente amor que você e ele podem ter e viver. Nada pode ser mais importante do que isso!

Com amor, Roberta Borges

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