Sobre perder alguém que amamos

Descrição da imagem #pracegover: Pai segura a filha no alto em meio a uma plantação de girassóis. Fim da descrição.
(Foto: Freepik)

Ontem me despedi do meu pai. Olhei para ele pela última vez aqui na Terra. Vi estampado em seu rosto as marcas claras de quem lutou incansavelmente pela sobrevivência por 44 dias numa UTI de primeira linha, com médicos, enfermeiros e tantos outros profissionais bem preparados que fazem parte desse time de pessoas que diariamente saem das suas casas, deixando seus amores e suas histórias para trás, para dedicarem tempo e energia para ‘tentar’ salvar a vida de alguém.

Refleti sobre a dura realidade do mundo atual, ou pelo menos a maioria das pessoas que nesse momento de caos, estão desamparadas emocionalmente, mental e fisicamente doentes, abandonadas em suas necessidades básicas… Empresários fecharam seus negócios, trabalhadores perderam seus empregos, crianças e adolescentes foram afastadas da escola, submetidas às aulas on-line, perderam a riqueza do convívio social, das interações com o meio ambiente tão necessárias para um desenvolvimento saudável e pleno.

Quantos casais desistiram de suas famílias, o índice de divórcios aumentou mais de 60% durante a pandemia! Quantas mães ou pais entregues à própria sorte para dar conta de cuidar dos filhos e tentar sobreviver de algum modo, para lhes oferecer o mínimo de dignidade! Quantas pessoas com deficiência ficaram impedidas de dar continuidade às intervenções terapêuticas fundamentais para que evoluam em suas potencialidades. Quantas entidades assistenciais fecharam suas portas!

“Afinal, o que podemos aprender com tudo isso?

Naquele dia nublado em que meu pai partiu, me chamou muita atenção o semblante triste, derrotado e esgotado daquele médico que veio até nós, dizer que tinham feito todo o possível para salvá-lo, mas não havia mais como fazê-lo lutar após tantos dias de batalha. As suas forças se esgotaram… Enfim, ele escolheu descansar.

Naquele momento passaram muitas coisas pela minha mente… Vivi um misto de fortes emoções. Respirei fundo e imediatamente busquei na meditação a paz e o equilíbrio necessários para viver o que estava por vir.

“Quanto nos deparamos com a maior certeza que temos ao nascer, algo indescritível acontece dentro da gente e nos faz pensar quão rápida e passageira é a vida. O tempo voa, portanto, tudo o que temos é o AGORA. 

O momento era de acolher as pessoas que amo que naquele instante precisavam de mim. Talvez um chá, um abraço, a presença, uma mão estendida e o apoio para digerir, de algum modo, a dor. 

Em meio a pandemia não há muito o que fazer e esperar… Filhos, netos, irmãos, cunhadas, sobrinhos e amigos que estão em diferentes partes do país e do mundo permaneceram lá… Até mesmo quem está aqui por perto continuou exatamente onde estava. Inerte. Expectador dos desígnios da existência. Ninguém pôde sair de onde estava para acessá-lo sequer para um último momento e a despedida. 

É isso o que essa terrível doença faz com as pessoas… Impede de conviver, acessar, partilhar, contemplar, trocar, experimentar. Então, por favor, repense seu posicionamento e as regras do jogo! 

É preciso deixar a criança vivenciar e compreender a dor da ausência e da morte para acessar e maturar finalmente o verdadeiro sentido do amor, do cuidar e da proteção. 

Ontem percebi quão poderosa é a PRESENÇA e o sentimento de PERTENCIMENTO na vida de uma criança. E o quanto vale a pena investir no tempo de qualidade e na construção de memórias afetivas, porque no final, não são as nossas diferenças que importam, nem tampouco as brigas, desencontros e devaneios naturais da imperfeição humana. É a presença e o amor que seguram as pontas na hora da despedida.

Experimentei num momento de dor a bondade, a generosidade, o respeito e a empatia presente no comportamento de quem acolhe em seu colo sem pedir qualquer explicação. Vi os olhinhos profundos e os braços abertos  das minhas filhas me acolherem no abraço apertado, repleto de emoções, enquanto acariciavam meus cabelos no silêncio.

De repente uma delas disse: _ Mamãe, você sempre diz que o que importa no final das contas são as coisas boas que vivemos juntos (memórias afetivas) e que guardamos das pessoas que amamos. Eu também penso assim! Coloca esse fone de ouvido e lembra do tempo que o vovô cuidava de você e cantava a sua música.

O meu mundo parou!!! É verdade, eu tenho uma música que ganhei ainda menina do meu pai!!! Rsrsrsrs

Então um turbilhão de recordações, afeto, amor e paz se abriu diante de mim… Ouvi Gatinha Manhosa e chorei, muito mesmo! Revivi emoções e coisas incríveis da minha infância… Lembrei das infinitas vezes que meu pai, com seu violão, eterno companheiro, tocava e cantava a música que dizia ser minha, toda minha… a sua gatinha manhosa. 

A vida não é fácil para ninguém. Todos carregamos em nossa trajetória dores emocionais que muitas vezes nos impedem de perdoar, acreditar em nossos talentos, sonhos, objetivos… Algumas vezes nos paralisam de tal maneira que simplesmente perdemos o prazer, a paixão e o entusiasmo pela vida. Blinde a sua mente!!!! Estude, acesse saberes poderosos que lhe permitirão conhecer recursos transformadores da sua realidade. Valorize a janela correta da sua memória emocional e afetiva para que tudo aquilo que for bom permaneça em você para sempre… E que as coisas ruins, a maldade, as más palavras, tudo aquilo que lhe feriu, se dissolva no tempo e no espaço.

O que importa no final das contas é QUEM VOCÊ É e o que fez com o que fizeram com você. É apenas sobre essa escolha e conduta que terá que prestar contas quando for chegada a sua hora de partir.

Faz sentido para você? 

Cante, ame, acolha, aceite, respeite, ria e divirta-se com a sua criança. Pais geniais escolhem as SEMENTES e valorizam o tempo com seus filhos.

É preciso cuidar das pessoas para transformar o mundo.

Com amor e gratidão,

Roberta Borges

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