Quanto vale o seu tempo?

Descrição da imagem #pracegover: Foto de um homem abraçado a duas crianças. Eles estão deitados na grama. Fim da descrição.
A importância de respeitar as individualidades das crianças (Foto: Pexels)

Apesar de ter uma história de vida repleta de intercorrências desafiadoras e ter carregado dores profundas durante muitos anos, sempre cultivei em meu coração o amor.

Talvez pelos momentos de paz, alegria, aventuras, trocas e descobertas que a criança estabelece com o mundo e as pessoas que a cercam, construí no meu universo imaginário, desejos e sonhos de relações respeitosas, afetivas, gentis e alimentei minha alma de emoções que desejava experimentar. 

E de algum modo, ao longo da minha trajetória, fui agraciada pela oportunidade de conviver com famílias que, diferente da minha, tinham estruturas e referenciais emocionais e comportamentais que colaboravam para eu ampliar meu repertório, possibilitando que eu refinasse o olhar, o interesse para outras realidades, pessoas, situações inclusivas, modelos parentais e portanto, construísse vínculos saudáveis, permitindo conhecer a essência do outro, desconectada dos prazeres materiais (pelo menos àqueles que a sociedade geralmente nos aponta como referenciais) e focada especialmente, naquilo que tinham a oferecer enquanto seres humanos, pessoas em construção, identidades que pouco a pouco se constituíam de maneira singular.

“É tão lindo quando respeitamos o fato de que cada pessoa é única. E que dentro do seu ego, que é só seu, existe um universo de emoções que a faz sentir, ver, se expressar, reagir e se conectar de maneira peculiar.”

Desde muito pequenina meu centro de interesse foi o ser humano. Enxergava cada pessoa como um indivíduo pleno e complexo, repleto de peculiaridades e história. Talvez por isso tenha logo na adolescência me descoberto uma educadora, cientista da alma e do saber. Era isso o que mexia comigo!

E talvez esse sentimento que existia em meu coração, tenha me aberto os olhos para ver e compreender que uma das maiores riquezas da existência é a diversidade,  pois é na convivência e aceitação incondicional do outro que encontramos a plenitude de quem realmente somos.

Acredito que se mais pessoas tivessem a sorte de conhecer alguém na vida que as despertasse para essa compreensão, o mundo seria bem melhor! Que coisa indescritível e gloriosa seria ver as famílias encorajarem seus filhos a serem quem realmente são, compreendendo seus temperamentos, acolhendo suas dores e limitações, valorizando seus potenciais, respeitando suas aptidões e talentos. 

E melhor ainda, seria ver a escola reproduzir esse comportamento e valorizar tais singularidades. Ter uma estrutura inteligente e democrática o suficiente para permitir às crianças e adolescentes se expressarem com liberdade, diálogo, alegria, interesse, pautadas no respeito às diferenças individuais, na equidade e nas relações interpessoais humanizadas. Menos competição, mais amor, cooperação, diversão, alegria e aventuras.

Simmmm, a escola deveria ser alegre e divertida! Um espaço de acolhimento, integração, investigação, empatia, respeito mútuo e infinitas possibilidades.

Mas claro, todos sabemos que uma educação voltada para a formação humana, contextualizada nos aspectos socioemocionais e sensível às particularidades, exige algo que na era moderna, está cada vez mais escasso: o tempo! Afinal, hão de se cumprirem os currículos, não é mesmo?

Pensar numa escola que contempla em seus currículos conteúdos e reflexões voltadas ao desenvolvimento da pessoa é abrir-se para a escuta ativa e para as transformações do mundo. Observar os diferentes contextos e compreendê-los distanciando-se dos rótulos, das famosas ‘caixinhas padronizadas de saberes’ em que os alunos são classificados e nada podem fazer para se distanciar daquilo, sem que sejam penalizados com notas baixas e reprovações, colocando suas ideias, currículo oculto, experiências, interesses e valores numa peneira de mesmice. Ou seja, perceber que a escola como um todo contempla oportunidades extraordinárias para libertar as pessoas dos padrões limitantes e respeitá-las como seres maravilhosos, criativos, investigativos, interativos e curiosos que são.

Entendo que a escola que propõe um comportamento e compromisso inclusivos, seja qual for a esfera de necessidade, está muito além do que o sistema educacional oferece na sua versão regular. 

Por outro lado, compreendo que a família é o berço, a raiz de todo o processo de desenvolvimento humano e por isso, é adequado que caminhe de ‘mãos dadas’ com a escola que escolheu para ajudá-la na formação dos filhos. É em casa que vivenciamos as primeiras experiências emocionais, psíquicas, comportamentais, afetivas e intelectuais, de onde trazemos o repertório para nossas aspirações e escolhas futuras. E muitas vezes, é na dor que encontramos nosso maior potencial. Mas será que a escola é sensível a isso?

Quando estava no magistério, ainda menina, li um livro muitíssimo especial, de Leo Buscaglia, um escritor e educador norte americano que dissertava sobre o amor. Nos seus livros, encontrei as explicações mais lindas e coerentes para muitas coisas que guardava em meu coração, e um dia, li algo que transformou a minha caminhada:

“Minha felicidade sou eu, não você. Não só porque você pode ser temporário, mas também porque você quer que eu seja o que não sou.”

Agora, transfira isso para o olhar de pai, mãe ou educador! A família e a escola devem conversar e caminhar alinhadas. Existe uma infinidade de situações as quais as crianças e adolescentes estão expostos em suas casas, comunidades e núcleos sociais que as tornam vulneráveis e, muitas vezes, negligenciadas. E a escola, pelo menos às que têm profissionais refinados ‘com olhos de ver’, pode perceber e acolher, compreender e interferir nessas situações para dar o suporte emocional necessário para o educando evoluir e transcender a partir das suas perspectivas e potencialidades, mas para isso, é imprescindível enxergar, aceitar e lidar com as diferenças individuais. Perceber quem está diante de nós e qual a sua história!

Quanto vale o seu tempo? Repito frequentemente que este é o maior e mais incrível tesouro que podemos oferecer às crianças e adolescentes. Abraçar, acolher, olhar nos olhos, rir, chorar, orientar, brincar, se fantasiar, guiar, conectar, ler, questionar, embarcar no mundo da fantasia, investigar, cheirar, sentir… tudo aquilo que dinheiro nenhum pode comprar, mas que tornam-se as nossas memórias afetivas, os valores e emoções que no futuro, serão os recursos nobres aos quais teremos acesso para nos empoderar e seguir adiante. 

Que bom seria se mais pais e educadores se comportassem como Carl Rogers:

“Sinto-me mais feliz simplesmente por ser eu mesmo e deixar os outros serem eles mesmos.” 

É na diversidade que estão as coisas mais encantadoras da vida!

Com amor,

Roberta Borges

Portal Acesse

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