Irene Maluf: a psicopedagogia e a deficiência

Descrição da imagem #pratodosverem: Um menino com síndrome de Down está sentado em sua carteira, na escola, ao lado de uma educadora. Eles estão batendo palmas. Fim da descrição.
Inclusão educacional exige conhecimento (Foto: Divulgação)

Por: Irene Maluf*

Revisitar os caminhos percorridos na vida profissional, tem um lado muito bom: constatar que alguns de nossos maiores objetivos foram atingidos e que de alguma forma tivemos oportunidade de partilhar positivamente a vida de muitas pessoas.

Tem é claro um outro lado, aonde ficaram as coisas por fazer e quanto a isso, pensamos que no futuro haverá um momento em que as novas circunstâncias nos favorecerão. O importante é sempre ter como foco o objetivo de nosso trabalho e sobre ele ir recriando, atualizando e com humildade reconhecer as vitórias e as compartilhar com quem esteve ao nosso lado.

Sou da turma de (19)75 da Pedagogia da Universidade Mackenzie, de onde sai também com a habilitação para trabalhar com ‘crianças portadoras de’ Deficiência Intelectual – DI. Mudaram as nomenclaturas, a área tornou-se multidisciplinar, o trabalho se tornou mais complexo exigindo estudo e trabalho constante. 

Estive em classe especial, em escola especial e em 1976 ingressei na clínica da doutora Maria de Lourdes Costa Pinto, que me introduziu nos estudos da Psicopedagogia, juntamente com a supervisão do doutor Oswaldo Diloreto, um dos pioneiros em psiquiatria infantil em nosso país.

Muitos cursos se seguiram, leituras, estudos, supervisões, vida profissional sempre voltada às crianças com DI e com transtornos de aprendizagem e o curso de Psicopedagogia na PUC-SP, no qual conheci professoras queridas que muito me influenciaram, como a doutora Anete Busin Fernandes, cujo incentivo foi primordial para mim.

A clínica já era parte de minha vida, desde 1976, em um tempo em que até mesmo a palavra psicopedagogia soava de modo estranho e desconhecido na maioria dos meios e onde o especialista ainda não tinha um perfil delineado.

Mas, com a nascimento da Associação Brasileira de Psicopedagogia (ABPp), em 1980, começaram a se reunir  profissionais de mesmo objetivo: fazer da psicopedagogia e do psicopedagogo, um saber e um profissional reconhecidos não apenas academicamente e esse movimento juntou muitos profissionais da área e seus esforços para atender as demandas advindas das famílias de crianças e jovens com problemas de aprendizagem, em uma época onde não se falava em inclusão escolar.

Certamente meus conhecimentos vindos da neurologia e  dos estudos sobre a Deficiência Intelectual, me ajudaram a criar um perfil como psicopedagoga que me proporcionou várias oportunidades importantes: trabalhei com profissionais de reconhecimento nacional e tive a oportunidade de estudar no Brasil e no exterior, em cursos diversos que impulsionaram minha curiosidade e motivação pela área. E claro, ampliaram meus conhecimentos, alargando fronteiras através da ciência.

As deficiências intelectuais e as físicas não são sempre separadas, mas exigem formação especial dentro da psicopedagogia para lidar com pessoas que sofrem com comorbidades nessas áreas. Avaliar até que ponto o psicopedagogo pode trabalhar com cada criança, é lembrar que sua especialidade é trabalhar as questões da aprendizagem, sejam dificuldades ou transtornos e cuidar pelo respeito ao indivíduo, sua família e suas diversas necessidades, dentro de um quadro de multidisciplinaridade profissional.

Não se admite hoje, frente a tantos recursos da ciência, que se deixe de lado os conhecimentos das  neurociências, dado que dela advém os pilares que são a  base da maioria dos problemas ligados ao aprender, ao lado das questões relacionadas à motivação, ao perfil afetivo social, a qualidade do ensino recebido, a configuração das relações familiares, a genética, a saúde física e mental… Lidar com esses aspectos como um todo, exige uma aproximação cuidadosa do profissional que começa sempre com uma boa anamnese onde se pontua o desenvolvimento da criança desde seu nascimento com a família e os demais profissionais que trabalham com ela.

A avaliação psicopedagógica se desenvolve basicamente em quatro momentos, ou seja: avaliação psicomotora, pedagógica, cognitiva e sócio emocional, sempre acompanhado pela observação clínica, mas igualmente de testes cientificamente validados que podem e devem ser usados por este profissional e que garantem a fidedignidade avaliativa. 

Em caso de suspeita de transtornos de aprendizagem ou de outra ordem, a troca de informações com profissionais que atendam a criança, é indispensável para poder passar à família um diagnóstico mais concreto e ter também oportunizar a possibilidade de um planejamento psicopedagógico eficaz na prática.

A importância da avaliação e intervenção psicopedagógica, ultrapassa em muito a aquisição ou recuperação da capacidade plena de aprender, mesmo nos casos mais complexos, pois a melhoria no comportamento e na aprendizagem, é usualmente percebida pela família e escola em poucos meses.

Consequentemente, a autoestima infantil melhora, o acolhimento da escola se aprimora pela motivação que surge em trabalhar com a criança com dificuldades escolares que se mostra capaz de progredir. Pais reconhecem o esforço do filho e ampliam o cuidado afetivo e ao mesmo tempo a criança desenvolve contato social mais satisfatório. A autoestima melhorada trazida pelo sucesso escolar repercute nos demais acompanhamentos que a criança tenha e todos se beneficiam.

Um aspecto importante do trabalhado psicopedagógico diz respeito às orientações à família e à escola, durante a avaliação e intervenção. A família muitas vezes atribui à criança o próprio fracasso, sendo que em geral ela é na verdade uma vítima da desinformação dos pais quanto a origem de seus transtornos no aprender. Conversar frequentemente com a família, explicar as dificuldades reais da criança, traz nova perspectiva no seu acolhimento e anima a família a continuar motivada, principalmente no caso de crianças com múltiplas necessidades.

A escola inclusiva também precisa das orientações do psicopedagogo, pois além da diversidade natural entre as crianças, seus atendidos possuem dificuldades mais complexas que exigem conhecimento mais pormenorizado e especializado para otimizar o aprendizado acadêmico.

Para aprimorar o conhecimento dos profissionais da educação e facilitar seu desempenho na escola, assim como pensando na formação atualizada do profissional clínico da Psicopedagogia pela vertente da neurociência, criamos os cursos de especialização em Neuroaprendizagem, Neuropsicologia da aprendizagem e também Psicopedagogia. Uma maneira de dar continuidade ao nosso trabalho de tantos anos em clínica psicopedagógica. Acontecem há 12 anos em São Paulo, em um final de semana por mês e são regulamentados pelo MEC. 

Assim também estamos abrindo a terceira turma do curso de Mestrado em Ciências da Educação, um curso internacional de 24 meses, que devido ao seu formato, permite que os interessados se mantenham em seu trabalho diário, já que a grande maioria dos seminários são on-line e por EAD.

Para ter maiores informações, acesse o site Neuroaprendizagem

Um abraço, 

Descrição da imagem #pratodosverem: A foto de Irene Maluf. Ela é uma mulher morena de cabelos castanhos. Está segurando um microfone. Fim da descrição.

*Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem. Dr.h.c. em Educação e membro do Conselho Vitalício da Associação Brasileira de Psicopedagogia Nacional ABPp. Coordenadora dos cursos de Especialização em Neuroaprendizagem, Psicopedagogia, do Grupo saber Cultura / FTP/ FIP e co coordenadora do curso de Mestrado em Ciências da Educação/ FICs Py. Perita Judicial.

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