O que há por trás dos muros?

Descrição da imagem #pracegover: Seis mãos que estão segurando braços, formando uma espécie de corrente humana. Fim da descrição.
Rede de apoio é fundamental para o bem-estar das famílias (Foto: Pixabay)

Quando escolhemos constituir uma família, todos temos planos fantásticos para o que está por vir, pelo menos em muitos casos é assim. A idealização do futuro e toda a carga de possibilidades, sonhos, expectativas, realizações e amparo que se abre sempre que pensamos na estrutura familiar é linda quando seus personagens mergulham de corpo e alma nessa aventura que, tirando o romantismo de lado,  é altamente desafiadora e pode muitas vezes, trazer frustrações severas quando as partes envolvidas não possuem um alinhamento de valores, objetivos, planejamento estratégico e sinergia nos aspectos emocionais e afetivos.

Pensar sobre esse assunto é instigante porque existem muitos espectros a serem considerados. No entanto aqui, quero abordar a importância da rede de apoio às famílias; especialmente às mães, não porque sejam mais importantes na relação com os filhos, mas porque é difícil ver um pai abrir mão da vida profissional ou dos seus interesses pessoais para cuidar das crianças. 

É claro que evoluímos muito nesse sentido e existem, nos tempos modernos, homens incríveis assumindo com maestria essa responsabilidade, e talvez uns poucos, senão raros, ao longo da história da humanidade. O fato é que por esses homens, não importam quais as motivações que os levaram a assumir o desafio de formar e educar seus filhos, tenho profundo respeito e admiração.

Porém, é a mulher quem na maioria das vezes, assume toda a carga de responsabilidade no que diz respeito à formação e cuidados essenciais das crianças e adolescentes. 

As estatísticas mostram que mais de 80% das crianças têm como primeiro responsável uma mulher e 5,5 milhões não têm o nome do pai no registro de nascimento. Os dados são de pesquisas publicadas nos últimos anos pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e demonstram a força da presença feminina e da ausência paterna na educação dos filhos.

Porém, é limitante, ao meu ver, entendermos que a formação dos filhos deve-se exclusivamente a uma questão de competência feminina, pois tenho uma visão muito crítica a esse respeito e sim, vejo pais ou até mesmo avós e tios, serem muito mais presentes e potentes no acolhimento das necessidades formativas e educacionais de algumas famílias, do que a própria mãe. E neste momento, não pretendo discutir esses motivos, já que isso abriria muitos parágrafos de debate e reflexão, mas é um fato que também precisa ser considerado, observado e compreendido. 

Por que será que algumas mães simplesmente abandonam ou abrem mão de conduzir a formação dos filhos? E por que esses índices têm crescido ao longo dos tempos?

Por outro lado, existem mães que assumem com todas as suas forças, empenho e dedicação a responsabilidade de amar, educar, proteger, formar, orientar, guiar e preparar seus filhos e filhas para a vida. Buscam incansavelmente, as mais diversas formas de conexão que essa linda relação com a criança lhes reserva. 

A busca começa quando descobrimos que existe uma criança a caminho e perdura pela vida toda, já que o tempo transforma tudo e precisamos nos preparar para lidar com o desconhecido, muitas vezes o inesperado, nos mais diversos aspectos da existência. Afinal não existe um manual que nos ensine a sentir, agir e compreender como se forma e educa uma criança! E ainda que felizmente tenhamos diferentes e assertivos recursos, teorias, caminhos e profissionais geniais que nos ajudem a lidar com as adversidades da educação, cada realidade pedirá uma interface específica e nem sempre o que funciona para um, atenderá as demandas do outro. Então, essa é uma busca solitária e intransferível de cada um!

Considerando a orientação para o isolamento social, a grande maioria dos serviços de apoio terapêutico e escolar, entre outros fundamentais foram suspensos, e embora todos tenhamos sido pegos de surpresa, questiono como e se, a maioria das entidades e instituições assistenciais, pensaram e desenvolveram estratégias e canais efetivos de apoio às famílias, mesmo que a distância, ainda que numa intervenção de escuta, levantamento de necessidades e/ ou orientações on-line. 

E aqui o olhar e a ação da assistência social são vitais, pois existem milhares de pais, mães e cuidadores negligenciados nesse momento. Óbvio que o olhar deve ser também para a pessoa com deficiência, mas quem cuida dela, também merece e necessita de apoio e acolhimento para dar conta da sua missão. 

 Me alegra ver um movimento solidário de muitos profissionais autônomos colocando-se à disposição para colaborar graciosamente no apoio às famílias. Mas claro que não é suficiente, pois a demanda de necessidade é muito maior!

“Precisamos uns dos outros…E uma rede de apoio é fundamental nesse momento!

Tornou-se comum vermos mães sofrendo, angustiadas e solitárias nessa busca, sedentas pelo acalanto de saberem como lidar com as situações pontuais que a relação com a sua criança exigem ou pela ânsia de serem melhores no respaldo dessas necessidades, já que  muitas vezes, não enxergam os resultados esperados no tempo desejado.

Vemos frequentemente mães, especialmente de filhos atípicos, desesperadas e adoecendo mental e fisicamente pelo abandono no que diz respeito ao suporte afetivo,  seja dos companheiros, familiares e amigos, aliado ao descaso de uma sociedade frágil quanto a fazer valer direitos e a aplicabilidade das políticas públicas em suas múltiplas esferas. 

Talvez esse abandono seja reflexo de uma sociedade culturalmente arraigada a valores, condutas, conceitos e modelos comportamentais ultrapassados, que ainda distanciam as pessoas, desconsideram a riqueza da diversidade, inibem o ir e vir, impedem, limitam ou camuflam o acesso real à educação escolar, enfim, diversos fatores que constrangem essa relação que para mim é indescritível, mas para muitas mulheres é traumatizante pois de certa forma, as afasta da vida, do direito de serem mulheres. E pensar nisso dói nas minhas entranhas! Nós precisamos nos unir e cuidar uns dos outros!

É inacreditável que em pleno século 21 ainda existam homens, pais e pessoas que enxerguem apenas na mulher a responsabilidade de formar seus filhos, alimentar, dar banho, trocar fraldas, brincar, cantar para dormir, dar colo e cuidar das demais necessidades básicas que qualquer criança precisa para crescer e interagir com o meio ambiente de forma saudável, divertida e sustentável… 

Quase todas as pessoas sabem que educar vai muito além disso, pois trata-se de uma construção diária, de entrega, tempo, fortalecimento de vínculos, conexões socioemocionais profundas, significância nos padrões comportamentais aprendidos, dedicação, paciência, entre milhares de outras coisas. 

Então, diante de um universo repleto de idealizações quanto ao modelo de mãe e mulher que a sociedade e as tão valorizadas mídias sociais do mundo moderno esperam, ainda que caminhem muito distante da realidade, quem ousaria pensar que ser mãe poderia se tornar algo absolutamente solitário, triste ou frustrante? 

Vejo muitos obstáculos a serem ultrapassados, especialmente num momento em que somos impedidos de nos relacionarmos e contarmos com os recursos externos e materiais que o mundo moderno nos permite utilizar para dar suporte a todo esse processo, a escola ou os núcleos sociais de amigos ou atividades extracurriculares, por exemplo. 

Quando escolhemos ser pais, nunca sabemos o que está por vir. Todos passamos pelas expectativas e idealizações do que e quem virá para nós!!!! As pessoas são únicas, singulares em suas necessidades pessoais, desejos, interesses, constituições fisiológicas, psicológicas, emocionais… Então, quando nossos bebês abrem seus olhinhos para o mundo pela primeira vez, imagino que esperem apenas ser aceitos, amados e protegidos. E as mulheres e homens talvez esperem o mesmo, já que ninguém nasce pai ou mãe. Aprendemos a sê-los, vivenciando as aventuras, alegrias e desafios que essa responsabilidade traz consigo!

E por mais que tenhamos referenciais desses papéis a partir da nossa história familiar, sabemos que geralmente a situação natural da vida é progredirmos, refinarmos nossa leitura sobre a realidade e a forma como nos conectamos a ela. Procurando, sobremaneira, evitar os mesmos erros que vimos em nossos pais ou cuidadores.

Ocorre que educar e cuidar das nossas crianças exige amor incondicional, entrega, confiança em dias melhores, compreensão e aceitação das suas potencialidades e limitações, tanto quanto do fato de que cada fase do desenvolvimento vem carregada de demandas. Existem extraordinárias possibilidades e somos nós, enquanto mediadores nesse processo, que abriremos as fronteiras para as descobertas, o fazer, o experimentar e superar-se a cada dia. Todos estamos num barco no meio da tempestade. É uma relação recíproca!

Portanto, a rede de apoio faz-se extremamente necessária para que se cumpra o ciclo natural do processo de educar nas melhores condições possíveis. Todos precisamos de ajuda e compreensão! Somos seres sociáveis e precisamos do outro para seguir! É preciso olhar para essas mães e famílias que clamam por ajuda, acolhimento e suporte emocional, diálogo e cuidados para que possam seguir firmes nos seus desafios e nessa incrível aventura que é educar. Que nos torna pessoas melhores e fortalecidas!

Entendo que ser mãe ou pai deveria empoderar qualquer adulto que se aventure nesse caminho tão nobre e transformador. Jamais diminuir, aprisionar ou excluir! Precisamos olhar com clareza, profundidade e compaixão para as vulnerabilidades presentes na grande maioria das famílias nesse momento. Essa é uma realidade e muitas coisas tristes acontecem enquanto as portas das casas estão trancadas. Existem milhares de pessoas sofrendo e desamparadas em seus lares, sem saber como agir sem o apoio terapêutico, nem amigos, nem companheiros, sequer elas mesmas para se cuidar. E esse pode ser um caminho sem volta em muitos aspectos!

Portanto, se você está numa situação mais privilegiada, por favor, olhe além do que os olhos podem ver, preste atenção no que acontece à sua volta! Olhe, ouça, sinta o que de fato está por trás dos muros… Você pode salvar uma família inteira que só precisa ser acolhida e amada para ter coragem de seguir!

É preciso cuidar das pessoas para transformar o mundo! 

Leia também: Disciplina Positiva para crianças com deficiência

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