Por que gritamos para educar?

Descrição da imagem #pracegover: Foto de um casal lendo para uma criança. Fim da descrição.
Afeto é fundamental na educação das crianças (Foto: Andrea Piacquadio Scaled / Pexels)

Aprendi, desde muito pequenina, que o grito é um dos recursos menos nobres quando pensamos em educar uma criança ou adolescente. Pelo menos nos casos em que se almeja um modelo de educação afetiva, libertadora e encorajadora de pessoas emocionalmente reguladas, seguras, críticas e felizes em suas escolhas.

Obviamente, quando digo isso, não é impossibilitando que a criança ferida nos seus anseios existenciais não possa transcender e ser muitíssimo melhor do que foram com ela. Pelo contrário! Tenho certeza que somos seres ÚNICOS e isso nos torna potentes o suficiente para escrevermos histórias fantásticas, independente dos recursos e métodos educacionais aos quais tenhamos sido submetidos.

Embora seja coerente pensar que quanto mais acolhida, aceita e respeitada a criança é, maiores as chances de se desenvolver com plenitude e atingir os mais altos níveis de realização e sucesso nas suas escolhas pessoais e profissionais, dentro das suas possibilidades. Mas, quando se trata de gente, as regras são flexíveis e singulares, pois cada um reage e existe dentro de um espectro. 

Porém, existem alguns fatos para os quais não há como fecharmos os olhos, considerando que os índices de depressão, transtornos de ansiedade como pânico, fobia social, distúrbios alimentares e tantas outras intercorrências socioemocionais têm aumentado exponencialmente no universo adulto, tanto como entre as crianças e adolescentes, portanto, deve haver uma razão plausível para compreendermos de onde vem esses históricos. Concordam?

Quando um adulto grita para educar, obviamente demonstra ter perdido o controle da situação instalada ou reproduz o padrão comportamental aprendido ao longo da sua infância e adolescência. 

Sabe aquele momento em que se ‘entrega os pontos’? E, claramente, aquela situação desafiadora torna-se perturbadora a tal ponto, que inviabiliza regularmos as emoções à flor da pele, respirarmos com sabedoria, buscarmos recursos nobres que colaborem com a gestão do conflito, e simplesmente, explodimos libertando todos os ‘monstros devastadores’ do amor, da amizade, do respeito, do exemplo, da admiração e da confiança que existe entre nós e nossos filhos ou educandos?

Aquele momento em que nos vemos totalmente encurralados e no auge do desespero e estresse emocional nos deixando ser tomados pela raiva profunda e severa com a qual, provavelmente, tenhamos sido educados na nossa infância?

Observe a um adulto interagindo com uma criança num ataque
de raiva ou birra. Perceba os sinais que seu corpo expressa, os
gestos, palavras, impostação da voz… Afinal, quem precisa de
apoio afetivo aqui?

Pois sim! É exatamente a esse sentimento impotente, desencorajador da autoestima, do autocontrole, da construção e fortalecimento de vínculos afetivos sólidos e sinceros, da regulação emocional e de baixos padrões comportamentais a que me refiro aqui. E por que será esse um tema importante para refletirmos quando o tema é a formação humana?

Ora, somos frutos de uma geração altamente tradicional e autoritária no seu modelo educativo, no qual o padrão adotado frequentemente, era o da relação verticalizada, rígida, embasada no controle excessivo, na ordem sem liberdade de escolha e respeito às diferenças individuais.

Eram raríssimos e altamente inovadores para a sociedade da época, os pais ou educadores que adotavam relações afetivas, baseadas em diálogo, ajuda mútua e respeito pelos interesses e necessidades das crianças. E olha que não estou falando de 100 anos atrás, nem tampouco 50, talvez um pouco menos que isso…

A maioria de nós, pais, educadores e profissionais do século 21, apanhou, ficou horas e até dias de castigo, lidou com privações materiais ou afetivas, teve alguns sonhos, desejos e expectativas comuns à infância e adolescência reduzidos a pó pela repressão e autoritarismo. Alguns, possivelmente sofreram humilhações e assédio moral ou físico num tempo em que a palavra e a decisão dos pais /ou educadores era lei, logo, praticamente incontestável.

Quantos de nós ouviu um dia: “Você vai fazer, porque a casa é minha e quem manda sou eu!” ou “Eu não me importo com o que você pensa ou sente. Criança não tem querer. Eu mando e você obedece!”, ou ainda, “Quando você tiver a sua casa, faça o que bem quiser. Até lá, que manda aqui sou eu. É assim ou a porta da rua está bem ali.”

Existem perturbações profundas nessas frases, não é mesmo? 

“Que coisas tristes e ultrajantes para se dizer e impor a alguém,
seja quem for, especialmente, uma criança indefesa, pura e
leal a sua família!” 

Quantos amigos tivemos que por terem em seus núcleos familiares irmãos ou parentes com deficiência, com síndromes ou transtornos comportamentais ainda não descobertos ou estudados na época, não nos convidavam a visitar suas casas, já que essas pessoas eram escondidas da sociedade?  E claro, se de alguma forma tínhamos acesso a esses ‘segredos’, é porque nos confidenciavam coisas que aconteciam por lá, ainda que às escondidas, porque as crianças são profundamente fiéis umas às outras, especialmente aos amigos verdadeiros e queridos. Então, compartilhar suas angústias, inseguranças, medos, alegrias, descobertas, vulnerabilidades, desejos e interesses faz parte desse ciclo de aprendizagens. Ainda bem!

Penso quantas pessoas foram salvas dos terrores presentes na história das suas famílias (e aqui não se trata de apontar o dedo ou abrir espaço para debate de quem são os culpados, mas simplesmente, ‘olhar’ para um fato real da sociedade do final do século 20), por conta dessas lindas amizades que sim, traziam novos referenciais, perspectivas, valores, sentimentos, interesses, sonhos e possibilidades. 

Somos seres humanos. Nascemos para nos relacionar e conviver em sociedade. Limitar esse direito é como prender os pássaros em gaiolas. É cruel e inadmissível!

Quantas lágrimas, medo, angústias e culpa existiam por coisas que hoje são tão banais e comuns para as nossas crianças! E que coisa extraordinária é ver o mundo e as pessoas evoluírem!

Naquele tempo, ainda que logo ali, não havia muitas saídas, alternativas ou portas que pudessem ser abertas para as relações autoritárias, inflexíveis e destruidoras de sonhos  e pessoas, se dissiparem. Era um outro modelo que pouco a pouco, moldava os milhares de adultos preconceituosos, limitados e hipócritas que hoje são incapazes de compreender os benefícios e a importância da inclusão na construção de uma sociedade melhor. 

E o que o grito tem a ver com tudo isso?

Quando eu grito para educar, talvez esteja mesmo é gritando as dores da minha criança interior, profundamente ferida e despedaçada no seu direito de existir!

Percebo e vejo que a maioria dos pais e educadores que ainda se prende ao grito para educar, não amadureceu o suficiente para confrontar e lidar com as suas próprias dores. 

No entanto, existem maravilhas que a Psicologia e a Pedagogia de mãos dadas com as Neurociências e a Programação Neurolinguística, nos apontam como recursos estratégicos de ressignificação de valores, princípios, emoções e teorias gloriosas, altamente inteligentes para nortear os caminhos, buscas, evoluções e escolhas para nos tornarmos pessoas, cada dia melhores.

E é a partir disso, que trilharemos por estradas de luz, repletas de aprendizados e significância para formarmos nossos filhos e alunos com o amor potente que merecem receber de nós.  

Que tal trocar o grito por um abraço acolhedor e sincero? Experimente!

Vamos juntos? É preciso cuidar das pessoas para transformar o mundo!

Com amor,

Roberta Borges

Portal Acesse

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