Ciclovias: pedalando por aí

Descrição da imagem #pracegover: Foto de uma ciclofaixa. Fim da descrição.
Ciclofaixa na Avenida Rebouças. Percebe-se que a pista não tem a dimensão mínima necessária para uma pista ciclável. O símbolo da bicicleta no asfalto parece ter sido 'estreitado' para poder caber na ciclovia. Coube: mas sobre a sarjeta novamente

A quem se destinam as ciclovias? Resposta: adultos jovens, saudáveis e sem deficiências.

Ganhei uma bicicleta da minha filha há bastante tempo… Estava animada com a possibilidade de pedalar. Pertenço a uma época em que brincar na rua e andar de bicicleta era comum entre crianças e jovens. Tenho cicatrizes nos joelhos e cotovelos que estão lá para me lembrar de todas as quedas. Foram várias. Foi numa delas que acabei com um dos dentes da frente… 

Pensei em retomar o ciclismo como meio de recreação. Vento no cabelo: tudo de bom!

Peguei a bicicleta, luvas e capacete. Pneus murchos. Posto de gasolina bem pertinho. Fui até lá. Calibrei corretamente e… sozinha!!! De maneira pouco discreta, os frentistas apostavam entre si o tempo que eu levaria para pedir socorro. Erraram. Vinguei-me. Mandei um tchau para eles e saí de lá pedalando…

Paralisei com o primeiro automóvel que passou em alta velocidade ao meu lado. Estava pedalando no lugar correto, sinalizando corretamente e exercendo o meu direito de locomoção. Por que me assustei? Pensei: “ah! Deve ser porque a pista é compartilhada e não há sinalização separando ciclista do carro…”

Desmontei da bicicleta e me dirigi para a ciclovia mais próxima. Separada fisicamente, talvez eu me sinta mais segura. Avenida Rebouças. Para quem não é de São Paulo, deixo um detalhe do local.

Detalhe da ciclovia localizada na Avenida Rebouças, em São Paulo. A largura está correta pois tem 1.20 m. Mas tanto a sarjeta quanto a grelha não poderiam ser incluídos no espaço destinado ao ciclista

Eu não me senti segura.

A sensação foi muito, mas muito ruim. O som do motor do carro passando a poucos centímetros do meu corpo, associado ao vento lateral que me empurrou para o lado, me fez desacelerar e subir para a calçada. 

A avenida à qual me referi permite que um automóvel trafegue à velocidade de 50km/h. Pela legislação brasileira, está correto. Significa que a cada carro que passa ao lado de um ciclista, um “empurrão” provocado pelo deslocamento de ar provocado pelo carro seja sentido. A pista à qual me refiro tem cerca de 120 cm de largura: entre o meio-fio e o final da pista ciclável.

Desmontei da bicicleta e refleti sobre o desenho do sistema viário e para quem é destinada essa pista ciclável. É correta e louvável a decisão da prefeitura de ampliar as ciclovias como pistas segregadas dos automóveis na cidade, mas questões associadas à segurança do usuário bem como à diversidade dos grupos que, como eu, desejam “pedalar por aí”, é fundamental. 

Ciclovias e ciclofaixas unidirecionais devem ter largura mínima de 1,20 m exclusivamente, ou seja, sarjeta da via, grelhas, bocas de lobo e tachões não são parte da pista ciclável. As sarjetas são responsáveis pelo correto escoamento das águas da chuva e, portanto, têm inclinações variadas: de 0,5% a 10% em alguns casos. (Fonte: Caderno Técnico para Projetos de Mobilidade Urbana)

Outra questão trata da segurança viária e da equidade nas condições de uso das pistas cicláveis. Poucos discutem essa questão. Para quem se destinam essas pistas? Jovens adultos saudáveis e sem deficiências? Eventualmente crianças? Para qual tipo e modelo de bicicleta ciclovias, ciclorrotas e ciclofaixas foram planejadas e executadas? E os demais cidadãos que têm mobilidade reduzida, nenhuma mobilidade ou são idosos? Estão sendo atendidos? 

Minha resposta: não estão. Eventualmente quando a prefeitura fecha uma rua ou avenida impedindo a circulação de veículos motorizados. Mas e no dia a dia? 

Questões associadas à inclusão dos diversos grupos de ciclistas (crianças, idosos, pessoas com nenhuma mobilidade ou mobilidade reduzida) deveriam ser incorporadas aos Manuais de desenho viário das cidades brasileiras. (Foto: Sunrisemedical.de)

Uma handbike, uma bicicleta dupla, bicicleta com cadeira acoplada, triciclos e tantas outras formas de “pedalar por aí” também devem poder circular nos mesmos espaços. Qualquer bicicleta em movimento requer uma largura média de 1 m com cerca de 0,10 m de cada lado. As demais bicicletas apontadas por mim têm larguras máximas de 0.80 m. Considerando que dificilmente um ciclista pedala de forma linear em especial, numa cidade em que existem pistas apenas pintadas no chão, a largura precisará ser repensada. Entendo que desde a obrigatoriedade de implantação do plano de mobilidade, o urbanismo tático – conceito que gerou estes espaços cicláveis de forma barata com tinta pintada no chão, os resultados espaciais possam ser gradualmente substituídos por projetos de ciclovias que ofereçam possibilidade de uso para todos os cidadãos de forma ampla. É necessário reconhecer que algumas avenidas tiveram seus canteiros centrais reconfigurados para a implantação de novos espaços cicláveis que são mais bem construídos, sem tantas barreiras. Infelizmente, não são a maioria.

Fica o alerta aos gestores públicos, prefeitos reeleitos e aos novos prefeitos eleitos: todos os cidadãos, independentemente da idade, da mobilidade e do meio selecionado para a locomoção são pessoas que desejam usufruir da liberdade de serem acolhidos pelos espaços públicos da cidade.

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