Afinal, onde foi mesmo que aprendi a ser tímido?

Quando a timidez pode ser sinal de problema? (Foto: Pixabay)

Andei pensando sobre o comportamento humano e quais os motivos ou explicações plausíveis para explicarmos esse padrão de comportamento social que recebeu o rótulo de ti-mi-dez, e que na verdade, trata-se de um terrível vilão, senão “ladrão” da natureza pura, empática, espontânea e feliz da criança.

Ora, se observarmos a história pessoal das pessoas ‘tímidas’, imediatamente depararemos com uma série de circunstâncias e vivências emocionais que, de algum modo, desde o ventre materno colocou-nas em ‘cheque’ em quaisquer momentos da vida. E provavelmente, foram experiências negativas, nas quais a criança ou adolescente foi humilhada ou envergonhada.

Quem de nós nunca foi reduzido a uma ínfima bactéria, ao chegar num ambiente com adultos animada e sorridente para mostrar ou dizer algo ‘fantástico’, naquele momento, porque tinha que ser ali e agora. E de repente, deparou-se um olhar severo ou de desprezo, senão uma voz aguda, estridente e autoritária dizendo coisas do tipo: _Vá para o seu quarto! Agora estou ocupado ou… Você está atrapalhando… Isso é ridículo, nunca conseguirá, vão rir de você, jamais será bom nisso ou naquilo…

É na infância que nos constituímos enquanto pessoas e construímos identidade, sonhos, aspirações, interesses, temperamento potente, repletas de peculiaridades e complexidades que nos tornam ÚNICOS e claro, com uma história emocional e valores que moldarão a forma ser, ver e viver a vida. Empoderamento de quem somos!

A criança, num primeiro momento, interage com o mundo a partir da sua ótica, norteada pelos seus princípios, sentimentos, inúmeras e puras conexões que estabelece com o ambiente e as pessoas com as quais convive. É quase que intuitivo. Entretanto, nem sempre é valorizada, aceita e empoderada nas suas percepções mais naturais e espontâneas. Então, quando não existem recursos nobres que lhe ‘blindem’ afetivamente contra a opressão, a indiferença ou falta de tempo, a arrogância do autoritarismo, e tantos outros comportamentos inadequados do universo adulto, fecha-se para o mundo, interações sociais, novas experiências e muitas vezes até pessoas. 

“A criança passa a ter medo de mostrar quem é, dizer o que sente e pensa, arriscar-se a dar palpites ou interagir ampla e despreocupadamente.

Aprende, desde muito cedo, que só será aceita se fizer concessões, barganhar sentimentos e condutas, diminuir o tom de voz, sentar de acordo com os padrões estabelecidos pela sociedade dos ‘adultos’, andar devagar e pausadamente, ainda que esteja eufórica ou apressada, ouvir mais e falar menos, dentre tantas outras regras, a meu ver questionáveis, e que fazem com que a criança molde-se para caber na “caixinha” do que é tido como certo. 

Caso contrário, será rejeitada pelos seus ‘defeitos e vulnerabilidades’, exposta a situações vexatórias e até cruéis, limitada no fundo do seu ‘EU’, nas entranhas da sua essência a ser quem realmente é. E o que faz essa criança? Se fecha para o mundo. 

E por tudo isso, questiono se de fato ela é tímida ou na verdade, vítima dessa doutrina de padrões arcaicos e autoritários da sociedade hipócrita que vivemos. É, aquela em que não podemos dar uma gargalhada expressiva e cheia de vida porque somos debochados. Aquela onde não sabemos lidar com o diferente. E nem tampouco esparramar-se de pés no chão e sentar de pernas abertas, mexer na terra, experimentar as texturas, os aromas, os sons, as sensações  e gritar, chorar, rir, cantar ou até mesmo tagarelar à mesa de refeições, porque afinal, para que serve reunir a família se não há diálogo, trocas e diversão?

A verdade é que estamos sempre correndo, não é mesmo? E o tempo dos adultos vale ouro, eles precisam  de silêncio para consultar seus celulares ou seguirem seus protocolos pessoais e profissionais, enquanto a criança, tolhida nos seus talentos, curiosidades, capacidade imaginativa e sonhos, permanece inerte, de olhos baixos, coração apertado, confusa sobre o que, como, quando falar e ser.

Quantos lares experimentam essa frieza nas relações humanas? Quantos lares ainda abrigam modelos educacionais verticalizados, punitivos, degradantes da beleza e riqueza humana? Quantos pais não olham nos olhos das suas crianças e adolescentes? Quantos pais sequer aceitam a condição real de seus filhos? Quantas famílias perdem preciosas oportunidades de trocas e aprendizados gloriosos, porque não respeitam as limitações e o fato de que todos somos frágeis e em constante processo de evolução? Faz sentido?

“Será a timidez um comportamento legítimo da pessoa ou um rótulo imposto pela sociedade ou mesmo alguém, de algum lugar por onde passamos?

Bem, eu não gosto dos rótulos. Portanto, desejo que as crianças e adolescentes sejam livres para serem quem realmente são. E pais que amem seus filhos e optem por modelos educacionais baseados numa relação respeitosa, leal, gentil, firme e afetiva.  

E sobretudo, pessoas que respeitem seus interesses, sentimentos e propósitos. Pois sim, todos temos momentos limitantes em que sentimos vergonha, inseguranças, medos, receios e até incapacidade para realizar algumas coisas. E tudo bem, pois isso faz parte da própria existência!

E quando somos motivados e orientados a seguir adiante com dignidade e aceitação incondicional de quem somos, não importa se falamos mais ou menos, mostramos a cara ou não. O que importa no final das contas é a história que escrevemos, as marcas que deixamos, as pessoas que inspiramos, as coisas indescritíveis que vivemos, descobrimos e aprendemos, e claro, o quanto de nós deixamos nas pessoas que amamos.

Vamos juntos?

É PRECISO CUIDAR DAS PESSOAS PARA TRANSFORMAR O MUNDO!

Com amor,

Roberta Borges

Portal Acesse

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