Musicista fala da sua experiência em dar aula para pessoas cegas

Descrição da imagem #pracegover: Teresa Criscuolo está em pé, ao lado de um teclado. Teresa é uma mulher morena e tem cabelos castanhos, castanhos e cacheados. Ela usa uma blusa e um colar marrom. Seu braço esquedo tem um bracelete. Fim da descrição.
A musicista Teresa Criscuolo (Foto: Arquivo pessoal)

A falta de professores que trabalhassem com musicografia (escrita musical em Braille) em Aracaju (SE) levou a musicista Teresa Criscuolo a querer fazer diferente. Em 2011, ela decidiu se dedicar ao ensino de música para pessoas cegas e desde então, as ensina a tocar dois instrumentos que são da sua especialidade: flauta doce e teclado.

Durante a pandemia, as aulas mudaram um pouco e um editor de partitura em Braille passou a fazer parte da rotina. Uma de suas alunas, Mariana dos Santos Alves, diz gostar muito desse novo recurso. “Eu estou achando excelente o editor. Até o momento, está sendo super tranquilo de mexer. Claro que é importante continuar usando o Braille para escrever as notas musicais e não perder o costume, mas é muito bom ter essa outra ferramenta, que é bem rápida.”

Descrição da imagem #pracegover: Teresa Criscuolo durante o trabalho. Ela está sentada, tocando teclado e olhando a tela do computador. Teresa está de costas. Ela é morena e tem cabelos compridos castanhos, que estão presos em um coque. Fim da descrição.
Teresa durante o trabalho (Foto: Arquivo pessoal)

Perguntamos também a Teresa Criscuolo como está sendo para ela essa experiência e conversamos ainda sobre seus aprendizados e desafios ao trabalhar com esse público. Confira agora esse bate-papo!

Como estão sendo as aulas na quarentena?
Teresa: As aulas na quarentena têm sido produtivas, eficientes e em sua maioria, tranquilas. Temos questões de adaptação aos novos aplicativos, mas as aulas presenciais também têm seus contratempos. Eu acredito que é uma questão de se adaptar. O que sinto que difere das aulas presenciais é que muitos alunos cegos são reclusos e a saída para ir à escola, muitas vezes, era um programa social que fazia muito bem a todos. Esse calor humano faz falta.

Como está sendo usar esse editor de partituras em Braille?
Teresa: O Musibraille é um programa de fácil acesso, tanto para videntes como para cegos. Você só precisa saber música ou Braille. Dominando essas linguagens, fica tranquilo. 

Existem outros editores similares?
Teresa: Sim! Tem o BME2 e o Goodfeel. Eu optei pelo Musibraille porque ele foi desenvolvido no Brasil, é gratuito e é fruto do trabalho de professores universitários. O responsável pela criação foi o educador Antônio Borges da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Além desse editor, quais outros recursos você usa em suas aulas?
Teresa:
Usamos a reglete (instrumento para escrita em Braille), porque acredito ser imprescindível que os alunos também saibam escrever a mão, o Perfect Ear, um aplicativo que tem exercícios de percepção, e o livro ‘Introdução à musicografia Braille’, de Dolores Tomé.

Para você, qual a importância da educação musical de cegos?
Teresa: Na minha opinião, educação musical é essencial pra vida! Mas no que se refere ao ensino formal de música, através da Musicografia Braille, ela possibilita o acesso a mesma linguagem que os videntes têm acesso. Essa é uma forma de diminuir os abismos de desigualdade entre os videntes e os cegos. É dar ferramentas para que escolham o caminho a trilhar: tocar de ouvido ou conhecer uma partitura.

Quais os principais desafios da musicalização das pessoas com deficiência?
Teresa: O primeiro desafio, que acredito ser comum entre todos os alunos, é a vontade. Temos alunos que vão aprender um instrumento por desejo dos pais e se a pessoa não amar o que se propõe, não supera as dificuldades, mesmo com ‘talento’. Já no âmbito específico de pessoas com deficiência e da escola pública, o principal desafio é a falta de material que, às vezes, nos faz ‘rebolar’, tirar grana do bolso, improvisar, coisas assim. Acessibilidade também é complicado. Tem uma escola que trabalho que está há dois anos com elevador quebrado e como dou aula no terceiro andar, eu tenho que buscar os alunos que não têm costume de subir escadas sozinhos. No mais são os desafios normais da aprendizagem: motivar, incentivar e encontrar meios do aluno aprender efetivamente.

O que você aprendeu na convivência com alunos com deficiência?
Teresa: Aprendi que todos são muito capazes, que podemos explorar seus potenciais e que não devemos tratá-los como incapazes para que não criem uma dependência negativa. Devemos dar muita atenção, ter vontade de explorar diversas maneiras de ensinar, buscar sempre conhecer o modo de um aluno compreender os conteúdos, com ferramentas convencionais ou não. Enfim, somos diversos e o que dá certo com um aluno nunca será “receita de bolo”, pois pode não dar certo com o outro. É importante sempre ter o olhar para o aluno individualmente. 

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