Minha história: a arte e a poesia de Monique Sandrielly

Descrição da imagem #pracegover: Uma das obras de arte da Monique. A tela é um auto-retrato e tem peças de quebra-cabeças e outras ilustrações em seu rosto. Fim da descrição.
Auto-retrato de Monique (Imagem: Reprodução)

Assim como outras jovens da sua idade, Monique Sandrielly, de 23 anos, gosta de aproveitar a vida. Ela, que cursa psicologia na Universidade Federal de Alagoas (UFAL), também tem interesse por astronomia e raposas. Além disso, ela tem um talento nato para a arte e a poesia, o que fica evidente ao conhecer seu perfil nas redes sociais. Isso porque parte de seu tempo é dedicado à pintura de telas incríveis e a escrever textos que retratam suas vivências. Mas, apesar de tudo isso, Monique acredita que o fato de ser autista a difere da maioria das outras pessoas.

Logo na primeira pergunta, sobre quem é essa Monique, que ela considera tão diferente, ela não hesitou em dizer se tratar de uma pergunta difícil de responder. “Na minha cabeça, pareceu simples de início: Monique sou eu, é meu nome, como me chamam. Mas, pensando melhor, com certeza existem muitas e muitas Monique’s por aí e nenhuma é igual a outra, então busquei por alguma coisa que me distinguisse das outras pessoas.” 

Para conseguir chegar a uma resposta, Monique pediu ajuda para Anielle, sua terapeuta ocupacional, que lhe orientou a falar coisas importantes sobre si, começando por contar porque ela se considera uma pessoa que pensa de forma diferente.

“Me chamo Monique e de fato penso de forma diferente da maioria das outras pessoas porque sou autista”, resume ela, que mora com a mãe, a irmã e um cachorro chamado Victor, em Arapiraca, cidade do interior de Alagoas. 

As limitações do autismo 

Descrição da imagem #pracegover: Uma foto de Monique. Ela é uma moça morena de cabelos cacheados, castanhos. Ela está sorrindo e tem um fone de ouvidos na cabeça. Fim da descrição.
Monique Sandrielly (Foto: Arquivo pessoal)

Dificuldade de interação social e comportamento estereotipado, entre outras coisas que Monique acredita integrar o que ela chama de “pacote autismo”, são reconhecidos por ela como algumas de suas limitações. 

Mas, apesar disso, ela garante que sua parte preferida sobre o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) é que apesar das limitações em alguns aspectos, é possível fazer coisas incríveis, como qualquer outra pessoa. “Temos talentos, habilidades e infinitas possibilidades. Acho que é importante que as pessoas saibam disso”, explica ela.

Ainda assim, Monique acredita que sua maior limitação seja rigidez cognitiva, o que significa que ela tende a fazer as coisas sempre do mesmo jeito, no mesmo horário, na mesma ordem, dentro de uma rotina. 

“Eu não quero que nada mude. Quando muda, eu acabo me desorganizando. Tenho trabalhado isso nas terapias, com formas de lidar com mudanças ou com o fazer as coisas de maneiras diferentes, sem me desestabilizar.”

Outra limitação, que ela considera relevante, envolve a questão sensorial. “Meu cérebro tem dificuldade em interpretar estímulos sensoriais, o que acaba fazendo com que as luzes e as cores se tornem mais brilhantes, os sons mais altos, os cheiros mais fortes… Essa questão eu trabalho na terapia de integração sensorial e já avancei bastante comparando com o começo. As terapias me ajudam com quase tudo, por isso que elas são umas das minhas coisas preferidas no mundo. Com elas eu fico esperta, e eu quero estar bastante esperta para viver”, revela Monique.

Para Monique, a quarentena tem sido um período muito difícil. “Tento não me cobrar muito e não fazer mais coisas do que eu deveria. No geral, tenho lido bastante e tenho trabalhado no meu TCC, tenho orientações por vídeo chamada com minha orientadora, a cada quinze dias, o que tem me ajudado muito. Fora isso, também tenho feito psicoterapia e terapia ocupacional toda semana. E assisto filmes à noite com minha mãe e minha irmã, essa é minha parte preferida do dia.”

Arte e poesia como instrumentos de comunicação

Descrição da imagem #pracegover: Uma das obras de arte da Monique. Uma árvore dividida em duas partes, uma branca e outra preta. Elas se unem pelo tronco, que na copa é formado por um coração. Fim da descrição.
Uma das obras de Monique (Imagem: Reprodução)

Entre seus talentos, Monique acredita que a arte seja o mais importante. Ela, que se diz fascinada pela arte desde que entende por gente, adora rabiscar e colorir, sempre que possível. “Seja em telas, em papel ou em ideias, sempre foi um encanto para mim, porque parecia comunicar coisas que eu não consigo dizer nem com mil palavras. É como magia. Então, desde criança, eu tenho o hábito de usar a arte como forma de expressão, e também como escape e fuga da realidade, que às vezes é meio impiedosa”, constata. 

Por isso, no ano passado, ela começou a se especializar mais no processo de pintura em tela. “Tudo começou em uma sessão de terapia onde estávamos trabalhando perspectivas e possibilidades. A Luana, minha psicoterapeuta, que me deu de presente essa ideia de pintar em tela. Foi a ideia mais bonita que eu já recebi”, relembra Monique, que logo foi convidada por (Dani) sua orientadora e professora a fazer uma exposição num colóquio em prol da inclusão social das pessoas com deficiência, na UFAL. 

Descrição da imagem #pracegover: Uma das obras de arte da Monique. Uma tela azul tem duas crianças nas extremidades que estão fazendo bolha de sabão. Dentro das bolhas existem ilustrações de pessoas em diversas situações. Fim da descrição.

“Foi um dia lindo, que vai ficar na minha mente para sempre, disso eu tenho certeza. Lá, senti que com a arte eu posso existir e ser real de verdade. Faz parte de mim agora, acho que sempre fez. Amo a arte e estou feliz por esse amor”, conta ela, quase em forma de poesia.

Todo o trabalho artístico de Monique tem como base elementos da natureza. E, segundo ela, as cores e os sentimentos são como fonte de inspiração. “Para mim, arte é sentimento ou os sentimentos que são arte. Quando estou pintando, me inspiro nas coisas que sinto e, muitas vezes, só depois da pintura pronta que venho entender o que ela significa para mim. É como se fosse algo vivo. Até mesmo quando a pintura é pedido de alguém, busco me conectar de alguma forma com o que me foi proposto, porque quando sinto, consigo fazer um trabalho melhor. Acho que a própria sensação de ser entendida já é uma inspiração e eu me sinto compreendida na arte, como se lá eu tivesse tempo para pensar, me expressar e fazer tudo em meu tempo. É um sentimento muito genuíno”, explica.

Como inspiração, ela destaca o pintor americano Bob Ross (1942-1995) como uma referência importante. “Ele era um pintor, que tinha um programa de televisão chamado The joy of painting (A alegria de pintar), onde ensinava técnicas para pinturas a óleo de paisagens. Durante os tutoriais, ele dizia coisas como ‘esse é o seu mundo, não há erros aqui, apenas felizes imprevistos’ ou ‘se você consegue fazer isso, você consegue fazer qualquer coisa’. E assim, ele demonstrava ter um amor enorme por tudo que fazia e aquele amor é uma referência enorme para mim”.

Descrição da imagem #pracegover: Uma das obras de arte da Monique. A tela tem como destaque uma raposa, uma das paixões de Monique. Fim da descrição.

Apesar de não gostar de planejar situações para um futuro distante, Monique vem trabalhando muito essa questão em sua psicoterapia. Em princípio, ela faz planos para quando terminar a faculdade. “Quero trabalhar com pessoas com deficiência, na área de psicologia ou artes. Sobre o meu futuro, desejo que as pessoas que eu ame estejam todas vivas e bem, meu cachorro também. E gostaria muito de não ver a raposa-do-campo ser extinta nos próximos anos. Ah, também gostaria de ver o céu através de um telescópio astronômico catadióptrico”, descreve ela.

Antes de terminar a entrevista, Monique pediu para falar sobre seu trabalho de conclusão de curso, afinal, foi assim que ela chegou até nós. “O tema do meu TCC é ‘a inserção de pessoas autistas no mercado de trabalho’. É um dos trabalhos mais significantes que já fiz. Durante o processo de pesquisa, uma questão que sempre vinha à tona era a falta e a necessidade de pesquisa nessa área. Descobri que pouco se sabe sobre o preconceito existente nesse meio; que muitos autistas, por não se encaixarem em um padrão, perdem oportunidades de emprego ou, quando conseguem um emprego, sofrem pelo despreparo e o preconceito dentro das empresas e entre os colegas”, conta ela.

E a partir de sua pesquisa, Monique encontrou um estudo da Universidade de Chapman, na Califórnia, que revela: na próxima década quase meio milhão de pessoas com autismo atingirá a idade adulta. “Apesar desse dado, mal se fala sobre a autonomia destes adultos, sobre seus direitos, como está a situação no mundo do trabalho para eles.. É evidente que pesquisas sobre diagnóstico e estimulação precoce, o desenvolvimento da criança, entre outras, são importantíssimas, mas essas crianças um dia crescem e continuam com suas necessidades, e tão fundamental quanto ter estímulo quando criança, é ter uma base sólida quando adulto. Por isso, acho urgente e necessário disseminar mais conhecimento e pesquisa sobre isso”, conclui.

Para conhecer mais sobre o trabalho de Monique, você pode acompanhar sua página no Instagram. Por lá, também é possível adquirir suas obras, ou ainda, fazer algum pedido.

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