Conheça o 1º instrutor de FitDance surdo do mundo

Descrição da imagem #pracegover: O coreógrafo surdo Jhonny. Ele é um homem negro e tem cabelos longos, trançados. Jhonny usa uma regata preta e tem tatuagens nos braços. Fim da descrição.
O coreógrafo surdo Jhonny (Foto: Su Florentino Photography)

O 1º instrutor de FitDance surdo do mundo é brasileiro. O coreógrafo e instrutor de dança Almir de Souza Junior, mais conhecido como Jhonny ‘Surdinho’ Souza, tem 39 anos e perdeu a audição na infância.

“Perdi a audição aos dez anos de idade, por sequela de caxumba. Fui dormir normalmente em um dia e acordei sem escutar absolutamente nada. Se realmente foi a caxumba, nunca irei saber, mas é a única coisa que é possível ligar a uma surdez súbita como essa, já que estava em recuperação de uma caxumba na época”, lembra ele, que tem surdez neurossensorial bilateral profunda.

Descrição da imagem #pracegover: O coreógrafo surdo Jhonny durante uma aula de dança. Fim da descrição.
Jhonny durante uma aula de dança (Foto: Arquivo pessoal)

A paixão pela dança se tornou profissão aos 19 anos, após substituir o professor de dança do estúdio que Jhonny frequentava, na época. “O professor de Lambaeróbica faltou e o dono da academia perguntou se eu poderia substituir. Eu respondi: como eu vou dar aula se eu sou surdo? Ele rebateu: como você dança se você é Surdo?”, conta ele. Desde então, Jhonny percebeu que sua missão na vida seria levar alegria para as pessoas, dançando. 

1º instrutor de FitDance surdo

Descrição da imagem #pracegover: Jhonny entre suas alunas. Fim da descrição.
Jhonny com suas alunas (Foto: Arquivo pessoal)

Jhonny conta que até se tornar uma referência na dança e ser reconhecido como o 1º instrutor de FitDance surdo do mundo, foram muitas as dificuldades. “No início eu me sentia em desvantagem por demorar mais que outros profissionais para atualizar as aulas. Meu processo de captação de coreografias é um pouco mais demorado que o dos ouvintes. Eles escutam a música exatamente como ela é, então isso agiliza o aprendizado”, explica. 

Para ele, o processo de preparação de uma coreografia envolve a análise da letra da música escrita. Na primeira vez que ‘ouve’ a música, o coreógrafo precisa localizar as batidas, o tempo e a velocidade da música. “Só nesse processo preciso ‘ouvir’ a música umas 50 vezes. Às vezes, o processo leva até quatro dias, enquanto um ouvinte profissional da área consegue fazer em horas. Mas, o importante é que eu faço.”

Depois disso, Jhonny precisa entender a letra e, segundo ele, aí já se vão mais umas 50 ‘audições’ da música (risos). Só então, ele inicia o processo para criar a coreografia. 

Dança para surdos

Descrição da imagem #pracegover: Jhonny entre suas alunas. Fim da descrição.
Jhonny com as alunas surdas, entre elas, a atriz Tatá Cordazzo (Foto: Arquivo pessoal)

Para Jhonny, poder dançar sendo surdo é mágico. “Às vezes eu danço sem ligar o aparelho auditivo, apenas mentalizo a música e, às vezes, danço sem música mesmo. Apenas danço, porque isso me afasta dos problemas, do estresse, de tudo…”

Sobre ‘ouvir’ a música, Jhonny explica que mesmo tendo ouvido e por dançar desde a infância, ele ainda precisa exercitar e adaptar sua memória auditiva. “Apesar disso, com a música tocando, não consigo entender a letra. É como se as informações da música chegassem até mim embaralhadas, sem filtro. Se eu não tiver a letra da música, eu simplesmente não vou entender nada”, completa ele que explica ainda: “o nome disso é discriminação auditiva.”

Apesar de usar aparelho auditivo para dançar (ele tem implante coclear), ele conta que já aconteceu de o aparelho falhar. “Como eu estudo muito a música, sei a marcação de tempo. Só preciso do ‘start’ da música. A primeira vibração da música. Aí o resto vai, com a música tocando mentalmente na minha cabeça. É mentalmente cansativo. Mas, o sorriso dos meus alunos não tem preço.”  

Confira a entrevista exclusiva que fizemos com Jhonny

Descrição da imagem #pracegover: Foto de perfil do coreógrafo surdo Jhonny. Ele é um homem negro e tem cabelos longos, trançados. Jhonny usa uma regata preta e tem os braços tatuados. Fim da descrição.

Quando você se deu conta de que havia se transformado em uma referência na dança para surdos? 
Jhonny: Nunca, na vida, pensei em me tornar referência na dança para surdos. Os surdos que são referência para mim, são o Léo Castilho, a Catharine Moreira, o Maycon Calasancio, a Maria Luiza Aquino… Cada um com sua particularidade. Aprendo muito com esses artistas.

Quem é seu público na dança?  
Jhonny: Todas as pessoas de todas as idades. Todo mundo pode dançar. Costumo dizer o seguinte: você respira? Então você dança!

Você se comunica em Libras?
Jhonny: Dos 12 até 18 anos, eu estudei com surdos, então eu me comunicava diariamente em Libras. Em 2018, voltei a praticar a Língua de Sinais. Ainda falta muito, mas a cada dia, costumo dizer, que falta menos que ontem.

A quarentena tem prejudicado seu trabalho?
Jhonny: Bastante. Minhas aulas eram baseadas na troca de energia presencial. Aí veio a quarentena e me pediram aulas de dança em lives. Mas, às vezes, tem alguns empecilhos, principalmente na comunicação. Ainda tenho algumas turmas on-line, mas não chega perto no número de turmas presenciais que eu tinha antes da Quarentena. 

O que mudou na sua rotina?
Jhonny: A quarentena teve seu lado positivo. Iniciei um projeto de Estúdio de Dança virtual direcionado totalmente à Comunidade Surda: o 5incronia. Aguardem novidades, em breve! 

Qual sua missão como coreógrafo e instrutor de FitDance? 
Jhonny: Minha intenção, na verdade, foi sempre transmitir aos alunos o que realmente acontece em uma aula de dança. Eu explico para eles o contexto da letra da música, o porquê de determinado movimento, a melhor forma de fazer isso ou aquilo, faço a pessoa colocar a mão na caixa de som, sentir a vibração da música junto comigo. Eu quero que eles participem de TODO o processo. A pessoa, pra mim, sempre vem antes da deficiência. Então eu só quero que ela sinta comigo e compartilhe alegria com o próximo. 

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Conheça um pouco mais da história do Jhonny!

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