O isolamento social como oportunidade e potência afetiva na educação das crianças

Descrição da imagem #pratodosverem: Um menino está fazedo um trabalho de colagem. Ele é moreno e tem cabelos pretos. Fim da descrição.
Criança autista sendo desenvolvida e estimulada pela mãe durante a quarentena Foto: Arquivo pessoal)

O ano de 2020 ficará registrado na história da humanidade como um marco que nos tirou abruptamente de uma realidade dinâmica, volátil, incerta, complexa e ambígua, recheada de constantes transformações. Tempo de informações desenfreadas e conhecimentos que a cada instante se modificam, refinam os saberes, tecendo indiscriminadamente essa teia de conexões tecnológicas tão presentes na rotina dos seres humanos no século 21, ainda que pouco explorado, valorizado ou compreendido no que diz respeito à formação humana.

O mundo moderno é extremamente dinâmico, então as pessoas vivem seus dias absorvidas pelas extensas agendas de afazeres e contribuições que precisam dar à sociedade para garantir o ter. Afinal, vivemos num mundo material que nos exige total empenho para que nos mantenhamos vivos e vistos nessa cadeia enlouquecida pelo pódio do sucesso.

Pelo menos imagino que esta seja a motivação especial para corrermos tanto atrás de algo que está no mundo lá fora! A maioria das pessoas baliza seus cotidianos  em rotinas absurdas que muitas vezes as distanciam da família, do contato direto e qualitativo com os filhos, pais, parentes e amigos. E pior, muitas vezes se perdem delas mesmas. Todos correndo contra o tempo para realizar algo que muitas vezes nem está claro o que é. Mas seguimos desenfreados, mesmo assim!

Educação no isolamento social

Penso diária e incansavelmente nas mensagens que de fato o isolamento social queira deixar para as pessoas… Busco compreender o que  pode estar por trás dessa parada tão repentina, que fez com que as pessoas obrigatoriamente se voltassem para dentro das suas casas, percebessem suas vulnerabilidades, limitações quanto aceitação de quem são, e o que precisam aprender, voltando-se para o seio das suas famílias, para o colo tão necessário, transformador e em milhares de casos, esperado, na relação com seus filhos. 

E que coisa fantástica observar a força das relações humanas, do amor, da entrega, do interesse, do colo, da compreensão, da motivação e estímulo, do acolhimento de necessidades que talvez estivessem ali o tempo todo, mas as tais agendas sobrecarregadas impedissem de ver. Ver, com os olhos da alma que precisa do outro para evoluir!

Reflita sobre as vezes em que você conseguiu parar de verdade, nos últimos anos, para conectar-se a sua criança e simplesmente brincar, trocar experiências, perceber suas evoluções, conhecer seus interesses, ouvir, cantar, dançar, pular, rir, sentir suas vibrações…

Quantas vezes se permitiu ir além da rotina escolar, das atividades extras ou das intervenções terapêuticas intermináveis e simplesmente parar por alguns dias, dar colo e acolher as emoções e interesses da sua criança? Observar as sutilezas do seu desenvolvimento e valorizar as pequenas e indescritíveis conquistas que ela fez, como pessoa, em constante processo de mutação. 

Ora, quando percebo o desespero das famílias em como lidar com as suas crianças em tempos de isolamento social, me perdoem, mas não há como não questionar e perceber que talvez nunca souberam o que e como fazer isso! E aqui, não é uma questão de culpa, apenas hábitos que são incorporados mecanicamente pelas pessoas.

Talvez estejamos tão acostumados a delegar as responsabilidades que são nossas, que quando nos deparamos com a sua complexidade e o quão desafiadoras são, parece mesmo assustador. Então, entregar ao outro a formação humana ou acadêmica dos filhos possa até parecer mais confortável, seja qual for o argumento utilizado para isso. E sim, existem muitos! 

Mas dentro de mim, vejo o isolamento social como oportunidade extraordinária de fortalecimento de vínculos e potência afetiva na família, especialmente àquelas que têm uma criança deficiente, cheia de peculiaridades a serem acolhidas, compreendidas, estimuladas e desenvolvidas continuamente e, particularmente, quando tem a sua rotina desestabilizada, precisam desse olhar voltado para elas, pois é certo que a escola, infelizmente nos casos inclusivos, não cumpre, via de regra, esse papel.

Descrição da imagem #pratodosverem: Uma menina está preparando um suco verde. Ela coloca os ingredientes no liquidificador. Fim da descrição.
Atividades de vida prática: produção de suco verde aliando autonomia e hábitos alimentares Foto: Arquivo pessoal)

Ao longo desses meses da pandemia, vi muitas mães e pais superarem seus medos e conflitos internos, oferecendo às suas crianças momentos mágicos de construção do conhecimento, formatados a partir da necessidade de ‘fazer alguma coisa’ para estimulá-las e desenvolvê-las. Então, movimentaram-se, estudaram, buscaram recursos, ferramentas e estratégias que pudessem fortalecê-los, de alguma forma, enquanto mediadores do conhecimento. Vi mães construindo materiais adaptados para alfabetizar os filhos. Vi pais incorporarem a condução de atividades de vida prática nas suas rotinas, para contextualizarem e incluírem seus filhos na rotina doméstica e nas tarefas simples da casa. Vi irmãos interagirem com alegria e afeto nas trocas lúdicas e repletas de estímulos sensoriais e cognitivos que o brincar dispõe. Vi avós, tios e tias desenvolverem novos hábitos alimentares acolhendo as demandas das suas crianças e percebendo que a diversidade por si só, favorece muitos aprendizados e riquezas. Vi primos que antes sequer conversavam, estabelecerem vínculos e escreverem lindas histórias em família.

Mas de tudo o que tenho visto, o que mais me agrada é a evolução, o brilho nos olhos, a alegria contagiante, a motivação e o empoderamento que observei em muitas crianças que não falavam e agora falam, não liam e agora leem, não conseguiam participar de tarefas simples da casa, e agora, sentem-se parte e realizam muitas coisas. Me alegro ao ver que algumas crianças que encontravam dificuldades quanto aos cuidados de higiene pessoal no dia a dia, tornaram-se mais autônomas, participativas e confiantes. Me emociono ao ver e sentir quão potente é o amor a ponto de transcender quaisquer barreiras impostas pela mente limitada do homem. O tempo é o melhor presente que podemos dedicar aos nossos filhos!

O que devemos ensinar afinal para as nossas crianças? 

Bem, como educadora e mãe, eu priorizo os valores, as emoções que são a base para o desenvolvimento integral e que no futuro serão decisivos, para que as crianças e adolescentes saibam quem são, o que querem e como querem, façam escolhas e escrevam suas próprias histórias. 

E na mesma medida, desejo que as crianças, e todos nós, carreguemos em nossas mochilas as trocas incríveis que tivemos em família. Levemos conosco a memória afetiva desses tempos que lá na frente, terão formado pessoas para o mundo. 

Cheiro de bolo feito em família, aroma de capim cidreira ou camomila dos chazinhos no meio da tarde com a vovó, ou do cheirinho de frutas vermelhas das massinhas de modelar caseiras que fizemos juntos, ou ainda, as sensações e cores fortes dos corantes que mancharam nossas mãos brincando de Slime.  

Algumas, talvez, possam ou não ter limitações ou ‘buracos’ pedagógicos que ficarão pelo caminho, afinal, todos estamos sujeitos a isso.  Mas é certo que teremos muito mais pessoas sensíveis e preparadas emocionalmente para interagirem com o mundo porque serão plenas em seus potenciais.  E isso, já é muito mais do que temos hoje.

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