Equoterapia – tratamento terapêutico no distúrbio de aprendizagem: discalculia

Confira o ponto de vista técnico sobre os praticantes discalcúlicos atendidos pelo Projeto Equoterapia Vai à Escola.

Descrição da imagem #PraCegoVer: Um menino está montado no cavalo. Uma equoterapeuta está ao lado do cavalo. Ela conversa e auxilia o menino. Fim da descrição.
Saiba quais são os benefícios da equoterapia em pessoas com discalculia (Foto: Divulgação)

Nesta semana, compartilho o ponto de vista técnico sobre os praticantes discalcúlicos atendidos pelo Projeto Equoterapia Vai à Escola apoiado pela Secretaria de Educação Ciência e Tecnologia do Município de Armação dos Búzios em termo de colaboração com o Búzios Country Club para realização da prática de equoterapia.
Boa leitura!

Eliane Baatsch

 

Equoterapia – tratamento terapêutico no distúrbio de aprendizagem: discalculia

Autoras: Jéssica Helena Baddini e Irene Maria Cintra Gontijo 

A equoterapia, atividade em que se utiliza o cavalo como ferramenta dentro de uma abordagem interdisciplinar, oferece suas contribuições no distúrbio de aprendizagem.

A discalculia é o transtorno que afeta a capacidade de aprender e entender os números e os conceitos matemáticos. O nível de afetação não é tão elevado como o da dislexia mais foi estudado que tem muito em comum com ela. A discalculia não está diretamente relacionada com um nível baixo de inteligência do sujeito, pelo contrário em alguns casos, seu coeficiente pode superar a média.

As dificuldades em pessoas com discalculia se encontram principalmente na incapacidade para entender a lógica nos processos matemáticos, confusão dos números, dificuldade para fazer cálculos mentais, identificar símbolos e resolver problemas matemáticos entre outros.

As causas da discalculia ainda não estão claras por um alto componente hereditário a nível cerebral foi estudado. Mais concretamente, o lóbulo parietal tem um surco chamado interparietal, especializado na representação interna das quantidades, o processamento abstrato e sua relação. Além disso, o giro angular faz parte dos processos verbais em tarefas aritméticas, e é ele quem permite às pessoas usar a razão na resolução de problemas matemáticos. Estas áreas do cérebro junto com o lóbulo temporal e o córtex cingulado serão os encargados de que a pessoa possa fazer corretamente os cálculos aritméticos e, finalmente, as matemáticas.

Todas as dificuldades vão unidas ao deterioro cognitivo da pessoa e, por consequência, ao déficit em muitas das habilidades cognitivas essenciais, como pode ser a memória operacional, o planejamento e a nomeação, entre outras. Devido ao desconhecimento da patologia, muitas pessoas que a sofrem simplesmente aceitam que o seu rendimento acadêmico ou laboral será afetado.

O aprendizado de um aluno não deve ser visto como algo pronto e genérico, pois cada criança tem o seu tempo de aprendizagem. Uns aprendem rapidamente, outros demoram um pouco mais. No entanto, pode haver casos de uma criança que leva muito mais tempo para aprender determinadas coisas. É importante lembrar sempre que existe uma diferença muito grande entre distúrbio de aprendizagem e dificuldade de aprendizagem.

O começo da vida escolar é um período de desafios para a criança, pois além de iniciar uma rotina que vise ao seu desenvolvimento pedagógico, ela também precisa passar por uma fase de adaptação com os coleguinhas, com os educadores e, também, com exercícios que a auxiliarão dali em diante como estudante.

Como é possível tratar a discalculia na equoterapia?

A ANDE – BRASIL A ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE EQUOTERAPIA, cuja sigla oficial é ANDE BRASIL, foi fundada em 10 de maio de 1989 e é uma entidade civil sem fins lucrativos, de caráter filantrópico, assistencial e terapêutico. Tendo sede em Brasília – DF, atua em todo o Território Nacional. A palavra EQUOTERAPIA® foi criada pela ANDE BRASIL, para caracterizar todas as práticas que utilizem o cavalo com técnicas de equitação e atividades equestres, objetivando a reabilitação e a educação de pessoas com deficiência ou com necessidades especiais. 

A palavra Equoterapia® é de propriedade da ANDE BRASIL, registrada no INPI do Ministério da Indústria e comércio sob o Nº 819392529, registros de marcas, patentes com os seguintes serviços:

  • De ensino e educação de qualquer natureza e grau;
  • De caráter desportivo, recreativo, social e cultural, sem finalidade lucrativa;
  • De caráter comunitário, filantrópico e beneficente;
  • Reabilitação a pessoas com deficiência física, tais como: equoterapia, fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional, pedagogia e fonoaudiologia.

Através de exercícios e atividades cerebrais simples, a equoterapia ajuda a estimular a rede de conexões neurais responsáveis pelo processamento da linguagem numérica.

Os exercícios dentro da equoterapia são adaptados às características cognitivas de cada praticante, ajudando a reduzir a quantidade de erros no pensamento pré-operacional e operacional, correspondência, reversibilidade, classificação e ordem.

O uso da equoterapia deverá acontecer através de jogos e exercícios em cima do cavalo são recomendados para crianças de 6 a 13 anos. Para o tratamento em Distúrbio de Aprendizagem Discalculia, e apenas são necessários 20 minutos, de 2 a 3 vezes por semana estimulando a plasticidade cerebral.

A plasticidade cerebral consiste em uma reorganização da estrutura neural do indivíduo ao viver uma experiência nova, ou seja, a capacidade das sinapses, dos neurônios ou de regiões do cérebro de alterar suas propriedades através do uso ou estimulação. A partir disso, é possível afirmar que o aprendizado não ocorre de maneira automática, pois a aquisição de informações depende de conhecimentos já existentes, ou seja, os ‘conhecimentos prévios’ e também de uma carga considerável de estímulos para que esse aprendizado permaneça em atividade constante, fortalecendo e desenvolvendo as redes neuronais do cérebro.

Segundo Schumacher (2006) os conhecimentos prévios assumem um papel fundamental na aquisição da aprendizagem, pois quanto mais organizados eles estiverem, mais fácil será o aprendizado. Por este motivo, é importante o equoterapeuta formado em Pedagogia saber quais são os conhecimentos prévios e conceitos cognitivos que seu Praticante com Discalculia possui para que a partir daí possam ser utilizados os métodos pedagógicos em equoterapia mais adequados de acordo com o nível retratado pelo praticante.

Nesta perspectiva, o equoterapeuta que assume o papel de mediador e estimulador na aprendizagem do praticante, poderá garantir a qualidade no ensino e resultado em sala de aula através do tratamento em equoterapia. Entretanto, se for precária a qualidade da mediação em equoterapia, as sinapses provocadas no cérebro deste praticante também serão ineficientes durante esse processo de aprender.

Para Gardner (1995) as pessoas possuem interesses, habilidades diferentes e por isso não aprendem da mesma maneira. A repetição de uma atividade, a retomada de um conceito sempre do mesmo modo ou práticas repetitivas do professor, ativam sempre as mesmas conexões sinápticas em nosso cérebro, o que não favorece a aprendizagem do ponto de vista da memória (não criam novos engramas) comprometendo a assimilação do conteúdo pelo aluno.

Estudos da Neurociência afirmam que ao apresentarmos um método novo para o praticante, uma atividade desafiadora que provoque suas emoções de maneira satisfatória, imediatamente será ativada a sua amígdala cerebral, enviando impulsos para o hipocampo, afirmando ser algo interessante e significativo. Essa informação será enviada automaticamente ao lobo frontal para ser arquivada na memória, tornando-se um conhecimento adquirido.

A partir do momento que o equoterapeuta Pedagogo passa a compreender o funcionamento do sistema nervoso e do processo de aprendizagem, ele percebe a necessidade de sempre inovar, instigar, propor atividades equoterápicas diferenciadas no redondel e que façam sentido para o praticante, desenvolvendo melhor seu trabalho, podendo intervir de modo efetivo em sua prática, para um desempenho progressivo do praticante.

Treinamento cerebral para a discalculia realizado na equoterapia, treina e fortalece as habilidades cognitivas essenciais de maneira otimizada e profissional. Na minha visão abrangente de resultados, progresso e evolução.

Características da criança com discalculia 

A criança apresenta dificuldade em:

  • Visualizar conjuntos de objetos dentro de um conjunto maior;
  • Conservar a quantidade: não compreendem que 1 quilo é igual a 4 pacotes de 250 gramas;
  • Sequenciar números: o que vem antes de 11 e depois de 15 – antecessor e sucessor; 
  • Classificar números; 
  • Compreender os sinais +, –, ÷, ×; 
  • Montar operações; 
  • Entender os princípios de medida; 
  • Lembrar as sequências dos passos para realizar as operações matemáticas; 
  • Estabelecer correspondência um a um: não relaciona o número de alunos de uma sala à quantidade de carteiras.

O que a discalculia afeta?

  • Foco (concentração)

Habilidade relacionada ao padrão de déficit cognitivo vinculado à dislexia. O déficit estrutural nessas conexões de redes neurais também está relacionado à inibição, que afeta a agudeza mental, dificultando para a criança a aprendizagem de matemáticas.

  • Atenção dividida

Esta habilidade é importante porque permite a multifunção. As crianças com transtornos na área das matemáticas apresentam problemas ao responder a um estímulo porque não são capazes de focar e se distraem com os estímulos irrelevantes, se cansando com facilidade.

  • Memória operacional

Esta habilidade cognitiva faz alusão ao armazenamento temporário e à capacidade para manipular as informações para completar tarefas complexas. Algumas dificuldades pode ser o problema para seguir direções, com o esquecimento das indicações e tarefas, pouca motivação, memórias incompletas, se distrair com facilidade, não lembrar dos números e demorar para fazer aritmética mental.

  • Memória de curto prazo

A capacidade para reter pequenas quantidades de informação durante um período curto de tempo. Este déficit mental explica a incapacidade para realizar tarefas mentais. Os problemas aparecem ao calcular ou tentar fazer problemas matemáticos. Isto também está relacionado à incapacidade para lembrar dos números ou das tabuadas de multiplicar.

  • Nomeação

Implica a incapacidade para lembrar de uma palavra ou número e usá-los posteriormente. As crianças com discalculia têm dificuldade para lembrar dos números porque sua capacidade para processar informações é deficiente.

  • Planejamento

Os baixos níveis nesta capacidade cognitiva implica ter dificuldades na área de planejamento e compreender os números e exercícios. Esta incapacidade para antecipar acontecimentos impossibilita os estudantes de completar um exercício corretamente.

  • Velocidade de processamento

Corresponde ao tempo que nosso cérebro leva para receber uma informação (um número, uma equação matemática, um problema…), entendê-la e respondê-la. As crianças que não têm dificuldade completam este processo de forma rápida e automática, enquanto as crianças com discalculia precisam de mais tempo e energia para processar a informação.

Habilidades treinadas na equoterapia em discalcúlicos  

  • Denominação

É a capacidade de recuperar uma palavra de nosso léxico semântico. É considerada uma habilidade básica.

  • Memória de trabalho

Se refere ao armazenamento temporal e a manipulação da informação necessária para as tarefas cognitivas complexas.

  • Planejamento

É a capacidade de “pensar com antecedência”, de antecipar mentalmente a maneira correta de executar uma tarefa.

  • Tempo de resposta

É a habilidade para perceber e processar um estímulo simples e responder a ele.

Considerações finais 

Por meio deste ponto de vista constatou-se que a dificuldade de aprendizagem está no cotidiano escolar, podendo afetar grande parte dos alunos quando se trata de conteúdos na disciplina de matemática. Este fator é de extrema preocupação, pois percebe-se que está acontecendo um aumento de forma significativa dentro da escola que apresenta uma grande preocupação em relação a estes alunos e atuação dos professores passando assim a verificar com mais atenção essa situação principalmente com os educandos que apresentam Discalculia. 

Em nosso ponto de vista, verificamos que o tratamento em equoterapia, principalmente na discalculia, deve ter mais atenção em relação ao desenvolvimento dos praticantes dentro e fora da sala de aula, é preciso realizar uma análise cuidadosa, flexibilizar métodos e metodologias de ensino para atender este tipo de praticante, bem como formar um elo entre escola e família.

Em relação ao trabalho dos equoterapeutas Pedagogos contribui de maneira que: Por conta disso, cada equoterapeuta Pedagogo tem a autonomia de desenvolver nos praticantes o pensamento independente, criando meios e condições pedagógicas para que praticantes discalcúlicos possam minimizar seus problemas com a matemática. 

O equoterapeuta com formação em Pedagogia deve estar auxiliando por meio de métodos adequados para que a criança possa compreender a atividade aplicada. A aplicabilidade da matemática é enorme porque não se limita em apenas repassar dados capazes de resolver problemas e sim de buscar formas de conhecimento, bem como a adaptação de atividades menos complexas do seu dia a dia. 

A relação equoterapeuta Pedagogo – aluno também deve ser ressaltada em função de combinar respeito e atenção, pois o processo de ensino consiste em orientar e incitar a autonomia dos praticantes levando-os a independência para aprendizagem, estabelecendo normas, buscar compreender cada dificuldade, mostrar amor e compreensão para fecundar a relação ensino e assimilação dos conteúdos trabalhados na disciplina de matemática. 

Libâneo (1994) classifica estes aspectos como autoridade profissional, destacando que: A autoridade profissional se manifesta no domínio da matéria que ensina e dos métodos e procedimentos de ensino, no tato de lidar com a classe e com as diferenças individuais, na capacidade de controlar e avaliar o trabalho dos alunos e o trabalho docente.(LIBÂNEO, 1994. p. 252) 

Contudo, observa-se que além das mediações do equoterapeuta Pedagogo é oportuno o ensino através dos jogos matemáticos que proporciona interesse e a vontade de aprender os quais possibilitam o desenvolvimento de diversas habilidades como: o raciocínio lógico, atenção, criatividade, concentração entre outras. 

Portanto, com as contribuições deste ponto de vista, por modesto que seja, possa auxiliar os praticantes com dificuldade no aprendizado em matemática, ao trabalho dos equoterapeutas com formação em pedagogia na mediação das atividades propostas para estes praticantes, mostrando que a matemática pode ser apresentada de forma clara e demonstrada através das experiências do dia a dia, onde a aprendizagem se torne mais leve, atrativa e prazerosa minimizando o estigma deste transtorno e, sim, valorizar o potencial de cada praticante.

Referências: 

ANTUNES, C. Jogos para a estimulação das múltiplas inteligências: os jogos e os parâmetros curriculares nacionais. Campinas:Papirus, 2005. 

AUSUBEL, at alii. Psicologia educativa: um ponto de vista cognoscitivo. México, Trillas, 1988. Disponível em: . Acessado em 05 de Nov. 2015. 

BARBOSA, Laura Monte Serrat. Psicopedagogia: um diálogo entre a psicopedagogia e a educação. 2ed.Curitiba: Bolsa nacional do livro, 2008. Disponível em: Acessado em 10 de Set. 2015. 

BASTOS, José Alexandre. Discalculia: transtorno específico da habilidade em matemática. In: ROTTA, Newra Tellechea. Transtornos de aprendizagem. Porto Alegre: Artmed, 2006. 

BOMBONATTO, Q. História da Psicopedagogia e da ABPp no Brasil. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2006. 

CHAMBERS, Paul; TIMLIN, Robert. Ensinando matemática para adolescentes. 2 ed. Porto Alegre: Penso, 2013. 

CIASCA, Sylvia Maria. Distúrbios de Aprendizagem: Proposta de Avaliação Interdisciplinar. São Paulo. Casa do Psicólogo, 2003 

COLL, César; MARCHESI, Álvaro; PALACIOS, Jesús. Desenvolvimento psicológico e educação: transtornos de desenvolvimento e necessidades educativas especiais. 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2004. Disponível em: Acessado em 30 de Nov. 2015. 

ANDE-BRASIL, Associação Nacional de Equoterapia.Programas básicos de equoterapia.Disponível em: http://www.equoterapia.org.br/programa_basico.php. Acessado em 03 de abril de 2020.

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