Preparando as cidades para o envelhecimento da população

Descrição da imagem #pratodosverem: Um casal de idosos está andando em uma rua, de mãos dadas. Eles estão com mochilas nas costas. Fim da descrição.
Permitir mais tempo para atravessar a rua incentiva as pessoas mais velhas a sair (Foto: Pixabay)

“Os filhos vão crescendo
E o tempo vai dizendo que agora é pra valer
Os outros vão morrendo
E a gente aprendendo a esquecer”

Em sua canção Envelheço na cidade, Arnaldo Antunes descreve com bom humor, situações do cotidiano de várias pessoas – incluindo, em alguns casos, os próprios leitores deste post. A partir do momento que paramos de crescer, começamos a envelhecer. Ou seja, a partir dos vinte e poucos anos o processo se inicia, mas só fica visível, por volta dos 30… 

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), idoso é todo indivíduo com 60 anos ou mais. Ainda estranho esse número… 60…  num outro post pretendo falar sobre a geração ageless ou ainda, aquela geração que não tem a idade cronológica apresentada em seu RG. 

O Brasil tem mais de 28 milhões de pessoas nessa faixa etária, número que representa 13% da população do país (IBGE). Em 2060, o percentual da população com 65 anos ou mais de idade chegará a 25,5%. Serão 58,2 milhões de pessoas consideradas idosas pela OMS. E aí vai um recado bem sério aos projetistas, designers, arquitetos, engenheiros, planejadores urbanos e formuladores de políticas públicas: ou todos trabalham para preparar os ambientes construídos, ou teremos a imensa maioria da população muito em breve dependente do sistema de saúde público e da previdência social por exemplo.  

Estamos envelhecendo e a necessidade de planejar nossas cidades para que as pessoas continuem ativas e independentes deve ser a prioridade.

O envelhecimento é um processo dinâmico e progressivo que leva a alterações bioquímicas, morfológicas, funcionais e psicológicas do ser humano. De certa forma, determina a capacidade de percepção, compreensão e adaptação ao ambiente que nos cerca. Mas para que me preocupar se sou jovem ainda?

“Nem percebi o tempo passar…
não consigo entender as mudanças no espelho”
Autor: Qualquer pessoa daqui a alguns anos

A hora é agora

O nível de civilidade de um país pode ser medido pela qualidade de acolhimento da população oferecida pelos nossos espaços públicos por exemplo. Calçadas lisinhas, amplas, adequadamente iluminadas para passeios noturnos bem como sombreadas para os dias quentes são alguns dos exemplos de boas práticas de projeto urbano que devemos cobrar de nossos políticos.

Cidades agradáveis e aprazíveis são compostas por espaços públicos que acolhem nossos movimentos, comportamentos e expectativas de tal forma que as mudanças que progressivamente vão ocorrendo com as pessoas passem imperceptíveis. São essas pequenas coisas do dia a dia que colaboram com a independência. Será que preciso ter dificuldade para subir no ônibus? Tenho mesmo que reclamar que não consigo enxergar a calçada por que a luz da rua está posicionada para iluminar a via destinada aos carros e não para as pessoas que andam nas calçadas? Quero sentar-me à sombra para descansar um minutinho e só tem banquinho no parque lá longe?

Onde está o problema? Em nós, cidadãos ou nos ambientes e espaços que vivemos e que foram pensados para automóveis? A resposta é clara. Os ambientes são disfuncionais. Simples assim. Nós mudamos nossas cidades e nossos comportamentos diariamente e nossos espaços públicos não acompanham nossas mudanças. Vejam agora com a questão da pandemia da COVID-19. As pessoas precisam estar a cerca de quatro passos de distâncias umas das outras por exemplo> E tem calçada suficiente para isso? Não, não tem. Por que não renunciar às vagas de estacionamento públicas pagas e administradas pela prefeitura e colocar as pessoas para circular também nesses locais? Pessoas contraem Covid-19, adoecem e morrem. Carros não.

As pessoas estão vivendo mais e, como consequência, haverá mais pessoas idosas vivendo nas cidades. Prefeitos, vereadores e secretários deveriam preparar-se para as questões que em breve irão se impor sobre os serviços públicos entendendo que, para além dos problemas, novas oportunidades podem e devem surgir. 

Segundo dados do IBGE, em 2043, um quarto da população deverá ter mais de 60 anos, enquanto a proporção de jovens até 14 anos será de apenas 16,3%. Dados do Plano Nacional de Saúde apontam que cerca de 17,3% dos idosos apresentavam limitações funcionais para realizar as atividades instrumentais da vida mais complexas e que envolvem a participação social e que abrange várias ações como a de locomover-se até locais mais distantes dirigindo ou utilizando os meios de transporte público, fazer compras entre outros.

Quais são as decisões que nossos governantes devem tomar diante do envelhecimento populacional? O que podemos cobrar de todos eles já ou nas próximas eleições? Se não buscarmos uma cidadania ativa desde já com lideranças políticas fortes que de fato representem a população que está em processo de envelhecimento, ficaremos reféns de políticas públicas medíocres preocupadas apenas em oferecer festinhas, encontros e saraus para a terceira idade (seja lá o que essa expressão signifique hoje). 

Algumas dicas de boas práticas de planejamento urbano que acolhem as mudanças que ocorrem com o processo de envelhecimento:

. As políticas públicas deverão incluir em suas agendas ações que garantam um transporte público mais eficiente e resiliente às necessidades das pessoas. Resiliente é tudo aquilo que se adapta às mudanças.

. Ampliação dos tempos semafóricos: já não se trata mais de discutir buracos na calçada ou a manutenção medíocre dos passeios públicos a que nos acostumamos infelizmente. Quem já não passou pela ridícula situação de sair correndo para atravessar o semáforo da rua onde mora? Precisamos lembrar que daqui a pouquíssimos anos a velocidade do caminhar urbano será reduzida a 3 km/hora; Estudo recente da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo constatou que 97,8% da população idosa não consegue caminhar 4,3 km/h, velocidade exigida pelo padrão apresentado pela Companhia de Engenharia de Tráfego CET-SP para os semáforos da cidade. Na média, a velocidade alcançada pelos voluntários com idade superior a 60 anos foi de 2,7 km/h. Aos 80, essa velocidade diminui para 2 km / h. 

. Espaços e lugares para relaxar e observar outras pessoas: já perceberam quanto espaço é destinado ao “descanso” dos carros bem ao lado das calçadas? Por que não ampliar as calçadas e criar pracinhas? Não são parklets (estruturas temporárias criadas e mantidas por donos de comércios em frente aos seus estabelecimentos. São ampliações das calçadas com banquinhos, sombras, iluminação e sinalização vertical com caixa de texto legível e na altura do pedestre, lixeiras e cheios de flores coloridas – por que não? Quantas e quantas vagas de estacionamento poderiam ser substituídas para dar espaços a uma cidade projetada para o benefício do bem-estar humano?

.Cidade de 15 minutos‘: trata-se de um movimento que faz parte das discussões da agenda urbana internacional e que pretende reduzir a distância entre pontos de transporte, lojas, bancos, árvores à sombra, banheiros públicos e melhorar as calçadas. É atualmente uma das principais mudanças implantadas nos planos diretores das cidades como Paris, Londres e inúmeras outras no mundo. Você pode realizar compras, passeios, atividades de educação, transações bancárias em até 15 minutos a pé de sua casa.

As cidades precisam mudar para garantir que com o passar dos anos as pessoas continuem a desempenhar um papel ativo na comunidade, não fiquem isoladas e permaneçam independentes e felizes. Afinal, as cidades são feitas pelas pessoas e, para as pessoas.

Termino com a canção Envelheço na cidade, de Arnaldo Antunes, citada na abertura da coluna!

Portal Acesse

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