Como organizar o dormitório para um idoso: menos, é mais

Descrição da imagem #pracegover: Uma cama confortável. Sobre ela estão travesseiros e almofadas, além de um óculos e um livro. Fim da descrição.
Dormitório do idoso deve ser seguro (Foto: Pexels)

Se eu chegar aos 100 anos (não acho que estou exagerando… a expectativa de vida das pessoas está aumentando), terei passado cerca de 33 anos literalmente dormindo. São mais de 200 mil horas… É muito tempo para dormir mal ou num lugar que não é adequado para mim. Vale para todas as pessoas. Não importa a idade.

Pode soar estranho para alguns. Afinal, dormitório é dormitório: uma boa cama, uma mesinha de cabeceira, um armário… 

Não é bem assim.

Fui visitar minha tia. Mora sozinha. Considero uma temeridade, mas, fazer o quê? Tem noventa e poucos anos.  Reclama muito. Em especial do quarto onde dorme. Fui averiguar. Me senti muito mal. Tive vontade de começar a mexer em tudo na mesma hora. Me deu crise de pânico. Como num filme de terror, vi todas as imagens de tudo o que não se deve fazer e todas as consequências horrendas passando pela minha cabeça: as mais variadas quedas e possíveis fraturas – algumas expostas e outras não… e ela ali: estatelada no chão com aqueles malditos tapetinhos que ela A-DO-RA.

Pensei em incinerá-los. Talvez fosse um pouco agressivo. Tentei conversar. Tentei argumentar. Sugerir. Nada. Ficou de pensar. Enquanto isso, assisto tudo sem poder fazer nada. Logo eu que, como arquiteta, estudo, ensino e projeto para idosos. O que observei nas falas da minha tia.

Ela ainda gosta de ler: não consegue. A luz mais parece uma vela acesa. Não vai conseguir mesmo. Nem eu conseguiria. Reclama que não consegue levantar-se da cama. Colchão macio, mole, cama baixa e sem apoio para segurar-se. Sei que vai ficar pior. É fato. Tem pesquisas sobre isso.

Olhei os armários altos. Ela sobe numa banqueta para pegar coisas lá no alto. Aquele monte de tapetinhos soltos… tive vontade de gritar. Fiquei firme.

Pensei melhor e decidi postar algumas sugestões que eventualmente possam ser úteis na organização do layout de um dormitório para uma pessoa idosa. Enquanto isso, ficarei aguardando ansiosamente uma ligação da minha tia teimosa aceitando minhas intervenções…

Atender as necessidades específicas de idosos vai muito além das questões estéticas e de conforto. Pensar na segurança é fundamental.

A disposição dos móveis de um dormitório é assunto sério. Não basta inspirar-se nas reformas apresentadas em programas de TV (eu mesma assisto muitas) e sair comprando camas, luminárias estilosas ou mesas de cabeceira que estão na moda para que a decoração funcione bem. O assunto fica ainda mais sério quando você tem que organizar o quarto perfeito para a sua avó ou alguém mais idoso de sua família. Como fazer para que o lugar não fique ‘sem graça’ ou com a aparência de quarto de hospital?

Aqui vão algumas dicas que podem ajudar você a organizar esse espaço:

1. Se para acessar o dormitório é preciso subir ou descer um lance de escadas, pense na possibilidade de, eventualmente, mudá-lo para um local em que o acesso não se dê por degraus. Com o passar dos anos ocorre o enfraquecimento muscular e o equilíbrio muda drasticamente. A possibilidade de queda e fratura tende a ser maior.

2. Tapetes são bonitos e deixam o ambiente mais acolhedor. Neste caso, substitua os tapetes que estão dispersos pelo aposento e avalie a possibilidade de colocar carpetes de canto a canto de parede. Os cantos, bordas e arestas de tapetes costumam ficar ‘soltos’ quando não, ficam curvos. Com o passar dos anos, algumas pessoas não se movimentam mais como quando eram jovens. A chance de tropeçar com os pés e machucar-se gravemente com a queda, é grande. 

3. A altura da cama deve ter no mínimo 0,46 m e oferecer apoio para que a pessoa levante e se deite de forma independente ou ainda, sem pedir para alguém ajudá-la a levantar-se. Se for comprar uma cabeceira, escolha uma estofada. Ler e assistir televisão ficam bem mais confortáveis quando encostamos em uma superfície macia. Escolha um colchão com a densidade correta para a altura e peso de quem irá dormir nele. Solicite a orientação de um vendedor. Se ele não souber calcular, não compre.

4. Quando for escolher as luminárias, certifique-se de que o quarto tenha luz suficiente para que as tarefas diárias ocorram de forma tranquila: pense em colocar ponto para acender a luz principal não apenas na entrada do quarto, mas também ao lado da cabeceira da cama, por exemplo. Na cabeceira, considere a colocação de uma luminária para leitura. A parte interna dos armários também pode prever iluminação extra, se for possível. Essa simples ação facilita a visibilidade das roupas e demais pertences.

5. Ao distribuir o mobiliário do quarto, certifique-se de deixar bastante espaço para que a pessoa se mova livremente sem esbarrar em tudo. Cerca de 0,90 m entre a cama e a parede, entre a poltrona e a cama ou entre a cama e o armário por exemplo, são suficientes para que um adulto idoso independente circule sem problemas. Se eventualmente precisar de uma cadeira de rodas, ela passará livremente.

6. Escolha mesinhas de cabeceira e demais móveis com cantos arredondados. Ângulos agudos podem ferir qualquer pessoa.

7. E o armazenamento de roupas e demais pertences? Evite armários altos. Sempre. Disponha objetos de uso cotidiano em locais de fácil acesso evitando colocar objetos pesados ou coisas que você usa regularmente em prateleiras mais altas e cujo acesso só possa ser feito com o uso de escadas ou banquetas. Essa situação fica sempre linda em editoriais de revistas de decoração e em programas de TV. Na vida real, só causam problemas e enchem de pó… Pendure quadros, coloque objetos coloridos e divirta-se.

8. Ao decidir sobre o layout do seu quarto e escolher os móveis para preenchê-lo, certifique-se de deixar bastante espaço para se mover livremente. Cuidado com a tentação consumista. Evite ‘entulhar’ o dormitório com muitos objetos transformando-a num circuito de obstáculos. 

Não custa lembrar: no mundo do design direcionado para os idosos, ‘menos é mais’.

Leia também: Uma casa segura para meus avós

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