Disciplina Positiva para crianças com deficiência? Fale-me mais sobre isso

Descrição da imagem #pratodosverem: Em um ambiente escolar, uma aluna recebe auxílio de uma educadora. Elas estão à frente de um computador. Fim da descrição.

Existem muitos caminhos que nos levam ao conhecimento. Eu sempre preferi os livros pela riqueza de conteúdos e mergulhos que podemos dar ao entrar em contato com diferentes conceitos e perspectivas, já que cada um de nós tem uma história e será mobilizado a partir disso. Claro que o caminho acadêmico é sem dúvida uma ótima alternativa para qualquer pessoa se tornar especialista em algum assunto de ordem científica, mas o que lhe fortalecerá sobremaneira, certamente serão horas infindáveis de estudo, leitura e pesquisa sobre o seu centro de interesse.

Eu não sou especialista em Disciplina Positiva, mas sou mãe e educadora, e portanto, o desenvolvimento humano e suas infindáveis possibilidades é totalmente foco da minha atuação e interesse. E qualquer conceito ou ideia que me faça perceber quão poderoso e rico pode ser para uma criança ou adolescente acessá-lo, certamente buscarei compreender melhor e me apropriar daquilo que fizer sentido ao que acredito.

O meu primeiro contato com a abordagem dessa linha de educação positiva na formação da criança, que não posso deixar de citar aqui, foi a leitura de ‘Os filhos vêm do céu – Técnicas positivas de educar os filhos para que sejam participantes, confiantes e sensíveis’, do Ph.D. John Gray, que nos faz pensar o tempo todo na responsabilidade que temos enquanto pais na formação de crianças mais humanas e generosas para o mundo, e especialmente que saibam lidar de forma consciente e inteligente com suas emoções.

A base da Disciplina Positiva vem do trabalho de Jane Nelsen, uma renomada terapeuta de casais e famílias da California, autora e co-autora de mais de 20 livros, dentre os quais: Disciplina Positiva, Raising Self-Reliant Chindren in a Self-Indulgent World, Serenity, When YourbDog Is Like Family, e mais outros 12 livros da série Disciplina Positiva. Pós doutorada pela University of San Francisco, mas que teve seu treinamento acadêmico secundário à realidade vivenciada como mãe de sete filhos, avó de 22 netos e bisavó de 14 crianças. Imagina a riqueza e a propriedade real que alguém com essa história pode ter sobre formar alguém?

É a partir dessa consistente experiência, que essa terapeuta compartilha na atualidade seus ricos e indescritíveis conhecimentos através de livros, palestras e workshops pelo mundo afora. E fico aqui imaginando a maravilha deve ser conversar por horas com alguém com tamanha bagagem ‘real’ na formação humana?

Embora suas experiências não envolvam diretamente a relação com crianças deficientes, a terapeuta juntou-se a dois outros estudiosos  e profissionais com essa expertise, Steven Foster, assistente social clínico e Arlene Rafhael, mestre em educação especial e treinadora certificada em Disciplina Positiva, para juntos escreverem a obra Disciplina Positiva para crianças com deficiência – Como criar e ensinar todas as crianças a se tornarem resilientes, responsáveis e respeitosas, da Editora Manole, tradução da Fernanda Lee e da Adriana Silva Fernandes.

Confesso que fiquei extremamente curiosa para compreender as interrelações que seriam construídas pelo livro sobre o olhar para as necessidades tão peculiares de muitas crianças com deficiência. Mas o que mais me instigava a dar esse mergulho era justamente o fato de acreditar, verdadeiramente, que as limitações existem para todos. Então, acredito que o diferencia as evoluções de uma ou outra pessoa, tem muito mais a ver com o “sentir-se aceito e importante”, ou seja, pertencente, estimulado e motivado, do que qualquer outro sentimento. E mais que isso, sentir-se respeitado e validado, especialmente no que diz respeito às emoções. E aqui, falamos das crianças, adolescentes, adultos e idosos, qualquer pessoa e em qualquer fase da vida, que sinta-se de fato acolhida e respeitada em sua história pessoal. Todos temos potencialidades e aspectos que demandam maior atenção ou necessidades específicas de estímulos para serem desenvolvidos.

Ao entrar em contato com o livro, me vinculei imediatamente à consistência de conteúdo trazida pela obra tão logo percebi, já nas primeiras páginas, a sensibilidade em focar o olhar no outro, na plenitude e potência que todos carregamos em nossas entranhas, e sobretudo, na importância de aceitar e valorizar, incondicionalmente a condição do outro.  E isso vale, na minha leitura, para qualquer circunstância da vida!

Sim, quando um pai ou uma mãe percebem que além das suas expectativas e desejos, existe alguém, no caso a criança ou o adolescente, que também tem sentimentos, vontades e suas próprias percepções e interesses sobre a vida, e aqui não importa como, mas que são reais e profundos. Garantir que sinta-se importante, amada e ouvida, todos os dias, pode ser decisivo para que a criança perceba-se fortalecida e encorajada a buscar a sua melhor versão, continuamente.

Leia também: O isolamento social como oportunidade e potência afetiva na educação das crianças

É importante compreendermos que como pais e educadores, possuímos desejos, sonhos e expectativas em relação às nossas crianças e adolescentes. E isso é incrível, porque nosso amor é incondicional e queremos o melhor para elas! Mas, é fundamental que nos libertemos dos vitimismos e compreendamos que ao invés de excesso de mimos, desculpas, superproteção ou permissividade, se seguirmos encorajando-os a pedir ajuda, expandindo seus limites e ampliando suas possibilidades, as portas para um processo contínuo de maturação e evolução estarão sempre abertas e em transformação. E esse deve ser o objetivo primeiro de pais maduros e realmente voltados a tornarem-se preparadores emocionais de seus filhos, não por serem deficientes, mas simplesmente por serem seus filhos.

A validação do que pondero aqui está nos milhares de casos de pessoas com deficiência que têm uma vida fantástica e com muitas realizações, aprendizados e tornam-se inspiração para muitas outras pessoas. Basta que se dê um simples click e se faça uma busca na internet para conhecermos histórias extraordinárias por todo o planeta. Mas o olhar tem que estar voltado para o sucesso, não para as limitações!

A Disciplina Positiva

As pessoas que estudam e aplicam essa teoria, sabem que trata-se de um conjunto riquíssimo de ensinamentos e ferramentas práticas, baseadas em neurociência para fortalecer  e orientar os adultos a educarem as crianças com respeito e dignidade, firmeza e gentileza, liberdade e limite, pautando-se na consciência como chave de mudança, ou seja, o adulto sabe exatamente da relevância do seu papel de mediador e faz isso com propriedade.

Esse é um processo fantástico de construção e fortalecimento de vínculos afetivos entre pais e/ ou educadores e a criança, constituído em bases sólidas de confiança,  alegria, vontade, interesse, entrega, descobertas, conexões emocionais e valores respeitosos que permeiam a formação humana da criança e do adolescente. 

Aqui abrem-se portas para compreender e conhecer as necessidades expressas nos comportamentos da criança, desenvolver o autocontrole e o autoconhecimento, perceber como se dão os diferentes padrões comportamentais e atender às crianças de forma consistente e amorosa.

Assim, a criança desenvolve a sua autoestima, a autoconfiança e autoimagem, apropriando-se do sentimento de ‘que é capaz’ e portanto, concentrará seus esforços em ajustar, sempre que necessário, seus padrões comportamentais ao ambiente social em que se sinta parte, aceita e respeitada.

Algo que gosto de dizer é: “O problema não são as crianças, nem as suas doenças, dificuldades de aprendizagem, transtornos  ou relacionamentos, nem mesmo seu comportamento turbulento ou tampouco suas deficiências. O desafio está no olhar, na forma como acolhemos, compreendemos, interferimos e interagimos com o que é diferente de nós. Mas a diversidade está em todo lugar!”

Temos muito a aprender com as crianças e o modo natural, simples e tranquilo com os quais se conectam às pessoas e ao mundo. Essa condição é espetacular e abre portas fantásticas para condições realmente favoráveis e transformadoras para um mundo que consagre, no futuro, os desafios cotidianos em oportunidades de aprendizado e transcendência das adversidades, sejam de que esfera forem, pois é assim que se progride.

É certo que a Disciplina Positiva, tanto como outros modelos educacionais de formação da criança, não possui o tão esperado ‘pó de per-lim-pim-pim mágico’ para resolver as questões determinantes da deficiência. No entanto, traz uma abordagem inteligente, humana e significativa para formar e ensinar crianças a se apropriarem dos valores sociais e habilidades de vida fundamentais para a tomada de decisões, para a participação ativa nas rotinas e tarefas da casa ou dos núcleos sociais dos quais fazem parte. Tanto como na percepção de valores importantes para a boa convivência, como respeito mútuo, empatia, comunicação assertiva e cooperação.

Considerando isso, sonho com todo o meu coração que os pais e/ ou educadores que desejem transcender quaisquer barreiras que os impeça ou limite acessar o melhor potencial de seus filhos, que permitam-se estudar, conhecer, ler e trocar experiências engrandecedoras com milhares de pessoas que no mundo moderno dialogam sobre a relevância dessa e outras práticas para ensinar aos seus filhos e alunos habilidades sociais e de vida valiosíssimas para a formação humana. A família precisa ser o lugar mais seguro e fértil para o desenvolvimento pleno das nossas crianças. E nós pais e educadores, os seus maiores incentivadores e a força para que voem o mais alto que puderem.

Fontes:

GOTTMAN, John e DECLAIRE, Joan . A Inteligência Emocional e a arte de educar nossos filhos – Como aplicar os conceitos revolucionários da Inteligência Emocional para uma nova compreensão da relação entre pais e filhos . Editora Objetiva, RJ, 2001.

NELSEN, Jane . Disciplina Positiva para crianças com deficiência: como criar e ensinar todas as crianças a se tornarem resilientes, responsáveis e respeitosas/ Jane Nelsen, Stevem Foster, Arlene Raphael; Tradução: Fernanda Lee, Adriana Silva Fernandes – 1ª Edição, Barueri: SP, Manole, 2019. 

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