Autismo: como lidar com o diagnóstico tardio

Descrição da imagem #pratodosverem: Quatro peças gigantes de um quebra-cabeças. As peças são azuis e estão na mão de quatro pessoas, que estão tentando juntar as partes. Fim da descrição.

Há algumas semanas, compartilhamos aqui no Portal Acesse a história de Eloise Stark, uma psicóloga inglesa. Em seu relato, ela contou que escondeu o diagnóstico de autismo por 27 anos para tentar se enquadrar nos ‘padrões da sociedade’.

Também publicamos uma matéria linda com a estudante de psicologia Monique Sandrielly, que contou com riqueza de detalhes sobre como é sua vida com o autismo.

Depois desses relatos, que chamaram muito a atenção dos nossos leitores, conversamos com a psicóloga cognitiva comportamental Helena Cubero, pós-graduanda em Neuropsicologia e Psiquiatria da Infância e Adolescência, para saber mais sobre o diagnóstico tardio de autismo.

Segundo Helena, o diagnóstico do autismo é clínico, ou seja, só pode ser identificado por meio de observação do comportamento, além de uma entrevista com os pais ou os responsáveis. “As informações coletadas através de relatos dos familiares também ajudam muito. Normalmente, são os pais que notam os primeiros sintomas que costumam estar presentes nos primeiros três anos de vida da criança”, explica a psicóloga.

Quanto ao diagnóstico tardio, Helena destaca que há uma incidência de casos em que o diagnóstico é feito na adolescência ou na vida adulta, o que ocorre em pessoas que têm autismo leve. “É muito comum o paciente perceber em si alguns dos sintomas e buscar ajuda de um psiquiatra ou neurologista ou psicólogo”, afirma.

Como lidar com o diagnóstico de autismo na vida adulta

Descrição da imagem #pratodosverem: Ana Cristina. Ela é morena e tem os cabelos cacheados. Fim da descrição.
Ana Cristina recebeu o diangóstico de autismo aos 38 anos (Foto: Arquivo pessoal)

A cabeleireira e maquiadora Ana Cristina Maciel recebeu o diagnóstico de autismo (Síndrome de Asperger) quando tinha 38 anos de idade. “Foi libertador receber o diagnóstico. Foi uma resposta para todas as perguntas e mudanças que vivenciei durante toda a minha vida”, relembra.

Ana explica que apesar de ter sido diagnosticada por sua psicóloga e por um neuropsicólogo, algumas pessoas não acreditaram. “Apesar de não terem acreditado, todos aceitaram bem e isso me motivou a continuar o tratamento e me conhecer mais”, explica.

A preocupação da mãe e a dificuldade de socialização foram fatores decisivos para Ana procurar uma resposta para suas dúvidas. “Sentia dores de cabeça, sensibilidade à luz, a sons, dificuldades de sair da rotina, de manter amizades e em relacionamentos”, conta.

Sobre a infância, Ana conta que por ser de uma família humilde, sua diversão era brincar na rua com outras crianças. “Eu gostava de brincar na rua, mas sempre tinha problemas de relacionamentos com os amiguinhos. Na adolescência fiz muitas amizades, mas não conseguia manter. Hoje cultivo praticamente uma amizade dessa época. Nunca tive dificuldades em inserir as pessoas na minha vida, e também retirá-las sem sofrimento algum.” 

Depois que recebeu o diagnóstico, Ana renasceu. “Ainda é tudo novo, mas já tive algumas mudanças consideráveis. Estou aprendendo até onde posso ir com o meu trabalho e outras atividades sem ter uma crise”, relata.

Casada e mãe de três filhos, Ana tenta conciliar sua vida pessoal e profissional da melhor forma possível para ter qualidade de vida. Para isso, ela faz terapia com uma psicóloga e utiliza medicamentos porque além do autismo descobriu que tem déficit de atenção, hiperatividade e Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), todos em grau leve. 

“Mesmo diante desse diagnóstico, sou muito grata a Deus, porque independente do que sinto e senti minha vida inteira, consigo viver minha vida como qualquer pessoa neurotípica e aproveitar todos os momentos proporcionados”, conclui Ana.

Opinião da psicóloga

Descrição da imagem #pratodosverem: A psicóloga Helena. Fim da descrição.
A psicóloga Helena Cubero (Foto: Arquivo pessoal)

Para a psicóloga Helena Cubero, o diagnóstico tardio de autismo é muito comum. “O autismo na fase adulta ainda é desconhecido por muitos enquanto o autismo infantil é mais conhecido. Os adultos com autismo leve ou Asperger são difíceis de serem reconhecidos porque geralmente não apresentam deficiência intelectual ou déficit na linguagem e levam uma vida praticamente normal”, explica Helena.

Para a psicóloga, os sinais demoram mais para serem diagnosticados porque costumam ser confundidos com outros comportamentos como a timidez, a excentricidade ou a falta de atenção. 

No entanto, o aumento na propagação de informações sobre o autismo tem ajudado diversos adultos a identificarem, por conta própria, algumas características. Talvez isso explique o aumento no número de diagnósticos tardios.

Outra questão envolve a ideia de que, quando o autismo é diagnosticado na infância, são maiores as possibilidade de desenvolvimento das pessoas com esse transtorno. “O autista adulto não diagnosticado passa a ter muitos problemas e não consegue resolvê-los da maneira que a maior parte das pessoas neurotípicas conseguem. Elas costumam ter dificuldades para fazer amigos, problemas no relacionamento, dificuldades de aceitar mudanças. Com isso, apresentam um quadro de ansiedade e de depressão extrema”, destaca a psicóloga.

Para ela, essas pessoas podem passar anos sentindo que não se encaixam na sociedade. “As características que apresentam usualmente referem-se à timidez, sensibilidade (ao toque, som, luz e textura), ingenuidade, dificuldade em lidar com muitos estímulos ao mesmo tempo, evitar determinados locais. São vistos como pessoas ríspidas, antissociais e antipáticas por terem dificuldades de conviver com os demais.” 

Também é comum chegar ao diagnóstico tardio quando o indivíduo tem um filho diagnosticado com autismo e percebe semelhanças de seus sintomas com características que eram presentes durante sua própria infância.

“Como o autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento, ou seja, é uma condição de ordem genética, os profissionais que acompanham a criança solicitam aos pais a procurar saber se existe algum caso de autismo na família. Com isso, um dos pais acaba sendo identificado como autista”, explica Helena. 

O diagnóstico tardio também pode ocorrer quando o indivíduo, na fase da adolescência ou adulta, percebe que tem algo diferente. Pode ser a percepção de sentir que não se encaixa na sociedade ou perceber alguns sintomas e dificuldades no dia a dia. “Por conta própria, essas pessoas buscam ajuda de médicos e psicólogos a fim de entender o que se passa com eles”, completa. 

Tratamento e orientações

Quando diagnosticado na vida adulta, o indivíduo deve contar com o suporte profissional, tanto emocional quanto para auxiliar no desenvolvimento de aspectos comportamentais e sensoriais.

Desse modo, pode-se entender melhor o que se passa com o paciente e trabalhar as questões mais específicas que lhe causam prejuízo e desconforto no seu dia a dia.

É importante sempre ressaltar que o autismo não tem cura, porém existem tratamentos eficazes para melhorar a vida do indivíduo. O plano de tratamento deve ser multidisciplinar, ou seja, profissionais da área de saúde como médicos (psiquiatras ou neurologistas), psicólogos, fonoaudiólogos e outros podem auxiliar na compreensão de suas características, no alívio de sintomas e no desenvolvimento de habilidades, assegurando uma melhor qualidade de vida.

“Os tratamentos são essenciais para melhorar a comunicação, a concentração, conter as estereotipias e as outras possíveis condições associadas e para dar mais qualidade de vida ao paciente”, orienta a psicóloga. 

Portal Acesse

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