Como ensino e aprendo com meu irmão Dudu do Cavaco

Descrição da imagem: Foto em preto e branco do músico Dudu do Cavaco. Ele tem síndrome de Down. Dudu sorri e segura seu cavaquinho. Fim da descrição.
Dudu do Cavaco durante a gravação de seu DVD (Foto: Divulgação)

Quando meu irmão Dudu do Cavaco nasceu, e desde da primeira troca de olhares, parece que ele me dizia com um brilho nos olhos: “acredite em mim, não veja a síndrome, me veja como um ser humano.” Acreditar foi fundamental!

Aquela troca de olhares mudou a minha vida. Tirou-me a invisibilidade social e me mostrou o quanto eu era limitado, seletivo e preconceituoso. A partir dali, mergulhei a fundo no coração do meu irmão e,  entendi o que é amar.

Falo sempre que foi nas curvas da vida que aprendi a amar e principalmente com o olhar do meu irmão, que mudou minha vida. Desde então, passei a aprender e acreditar nas diferenças. Percebi que estimular e acreditar no meu irmão era a maior arma contra olhares discriminatórios e crenças de que as pessoas com Down são incapazes.

O primeiro passo dentro desse ‘processo de coaching’ que faço com meu irmão foi olhar a potencialidade dele, sua eficiência, suas habilidades e não a deficiência. Descobri que ele aprendia muito por imitação e  desde de novo nossa família buscou sempre inserí-lo em todos os ambientes, levá-lo para todas as esferas sociais possíveis.

Jamais tratei meu irmão como ‘café com leite’ ou como ‘carta branca’. Percebi que todo ser humano precisa ter sonhos e com meu irmão não seria diferente. Prova maior foi o recente reconhecimento como o primeiro músico com síndrome de Down da América Latina a gravar um DVD (saiba mais no site do Dudu do Cavaco).

Hoje, me considero uma referência para o meu irmão. Muitas vezes, ele me olha (lembra do olhar de quando ele nasceu) buscando caminhos e confirmações. Como é bacana este processo. Cada dia mais, Dudu do Cavaco, ganha em qualidade de vida, em autonomia (anda de taxi sozinho, usa cartão e viaja para todo país para tocar e palestrar).

Não quero, com este artigo, afirmar que temos alguma fórmula, porém, quero afirmar que sem amor e estímulo, nenhum ser humano atinge seus objetivos.

Se acreditamos que a pessoa  com síndrome de Down vai crescer e aprender, em todos os sentidos, se o prepararmos para uma vida social plena, para uma sexualidade adequada e para uma autonomia global, estaremos formando um verdadeiro ser humano, caminhando com ele em direção a um objetivo real e não enjaulados na pequenez de um diagnóstico.

Penso que devemos refletir  sobre a diferença entre amar e superproteger. A superproteção coloca a pessoas numa bolha,sem riscos e sem ganhos. Viver é desenvolver e para desenvolver precisamos correr alguns riscos (meu irmão já foi assaltado e eu também, hoje ele utiliza cartão apenas de débito).

Os fatores que impulsionam pessoas com síndrome de Down a adquirir habilidades para o trabalho são, principalmente, a aceitação e o incentivo no meio familiar, educacional e social. Entretanto, algumas famílias resistem a incluir seus filhos profissionalmente, pois ainda alimentam sentimentos ambivalentes com relação às possibilidades de conquista no trabalho, superprotegendo-os.

Acredito que a inclusão só vai acontecer se acontecer, também, em nossos corações, com real vontade de inserir as pessoas com Down em nossas vidas, na família e na sociedade. E essa inclusão significa ajudá-los a conquistar a sua cidadania, ensinando-os a cumprir deveres como qualquer cidadão. Somente os governos, a escola, as leis e os profissionais não fazem o milagre da inclusão. Ela só vai acontecer quando aceitarmos a pessoa com Down como ela é, e não como queríamos que fosse, sem cobranças, sem críticas, sem fugir da realidade. Não podemos exigir direitos sem cumprir deveres.

Compreender é muito mais que aceitar. É acreditar que todo ser humano é limitado, independentemente de ter uma deficiência ou não, e que todos temos um potencial a ser descoberto. Para isso, precisamos antes de tudo, de amor e acreditar no potencial de todos os seres humanos.

A verdadeira inclusão acontece no momento em que deixamos a teoria de lado e partimos para a prática, deixando os ‘ele não é capaz’ de lado e dando oportunidade para que a pessoa com Down mostre sua eficiência e potencialidade.

Eu acredito e faço isso com meu irmão. Os resultados? Basta conversar com ele para entender melhor. Eu fico com a frase do filósofo Jean Cocteau: “E sem saber que era impossível, ele foi lá e fez.”

Para saber mais sobre os projetos e campanhas, acesse o site do Instituto Mano Down.

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