Será que só andar para frente, nos leva mais longe?

Descrição da imagem #pracegover: A bailarina Aída durante ensaio. Ela está em sua cadeira de rodas e segura a ponta de seu vestido branco. Aída é uma mulher morena, de cabelos castanhos, que estão presos em um rabo de cavalo. Fim da descrição.
A bailarina Aída Nunes Monteiro (Foto: Arquivo pessoal)

Um dia desses trabalhei com as crianças que atendo nas intervenções de desenvolvimento socioemocional, algumas passagens de um livro muito conhecido por quase todas as pessoas: O Pequeno Príncipe.

Fiquei intrigada e inspirada pelas respostas espontâneas, críticas e divertidas que elas deram para situações que apresentamos numa prespectiva de contextualizar comportamentos, emoções e interesses, especialmente da relação adulto-criança.

Descrição da imagem #pracegover: A bailarina Aída durante ensaio. Ela está em sua cadeira de rodas. Aída é uma mulher morena, de cabelos castanhos, que estão presos em um rabo de cavalo. Fim da descrição.

No final do capítulo III, o principezinho diz assim:

“_ Quando a gente anda sempre para frente, não pode mesmo ir longe…” 

Qual não foi a minha surpresa ao ouvir de uma das crianças, algo mais ou menos assim:

“_ É inacreditável que ainda existam pessoas que não conseguem enxergar isso! Claro que só andar para a frente nem sempre nos leva mais longe. Às vezes é necessário andar para trás e pegar impulso para ir com mais força para frente.” 

“_Tem gente que nem anda, outras não falam direito, algumas talvez nunca falem! Tem gente que é cega, surda, e outras que na sala de aula parecem viajar nas coisas que os professores falam, sem entender nadinha… Mas elas continuam.”

Óbvio que da minha parte fiquei curiosa com a profundidade daquilo que ela havia ponderado. E preocupada em endender exatamente o que quis dizer. Então indaguei:

_O que exatamente você quer dizer com isso?

“_ Eu vejo muitas pessoas deficientes fazendo coisas bem interessantes no mundo! Algumas, são bem melhores do que outras pessoas. Vejo crianças do meu tamanho (ela tem 10 anos), que são atletas, modelos, músicos e até bailarinas!”

“_Esses dias conheci uma prima da minha mãe, que teve paralisia infantil, uma doença muito comum antigamente. Ela nunca andou, mas participa de muitos campeonatos de basquete para cadeirantes e até ganhou um concurso internacional de dança artística para deficientes. Ahhhh, e ela é mãe também. Você acredita?”, disse a menina.

Fiquei quase sem fala, mas claro que não poderia deixar aquela oportunidade ímpar se dissipar, sem extrair cada aprendizado nela contido. Então fui logo indagando:

_ Por que lhe surpreende uma adulta deficente ser mãe?

Então, ela silenciou por alguns instantes, pensou, pensou e ponderou:

“_ Ahhh, todos nós sabemos que não é nada fácil ser mãe! Dar conta de tudo numa casa, trabalhar, cuidar dos filhos, do marido e aguentar todas as coisas malucas que fazemos. Imagina para uma mãe deficiente? Como será que ela deu conta de tudo o que a minha mãe faz, sem poder andar?”

_É interessante pensarmos sobre essas questões, considerarmos os desafios de mobilidade e autonomia que alguém com algumas limitações enfrenta para dar conta de tantas responsabilidades, não é mesmo? Argumentei.

“_ Hummmm, a minha mãe sempre diz que para ficarmos bons em alguma coisa, é preciso treinar e repetir várias vezes, mesmo que não dê certo, até atingirmos o nosso objetivo. Pensando bem, acho que essa tia queria muito ser mãe e bailarina… Deve ter treinado bastante! E fico pensando como será divertido ensinar alguma coisa para o filho, que você mesmo não sabe como é, né?”

_ Existem muitas coisas que não sabemos! E isso é interessante porque é uma boa oportunidade para investigarmos e tentarmos aprender algo novo. Na verdade, cada pessoa possui um talento e um jeito próprio de fazer as coisas. Você concorda? Acrescentei.  

“_Olha, eu sou criança e sei que tem muita coisa que preciso aprender ainda! E espero que os adultos me ensinem do jeito certo!”

“_E sinceramente, gostaria muito de visitar essa minha tia e aprender com ela aqueles passos divertidos que ela fez para ganhar o campeonato. Porque eu quero muito virar estrela e plantar bananeira, como alguns amigos meus da aula de judô, mas não consigo de jeito nenhum, embora tenha duas pernas e dois braços que funcionam muito bem!”, disse a menina decepcionada!

“_ Acho que se as pessoas vissem mais gente deficiente fazendo tanta coisa legal e divertida assim, o mundo seria bem melhor!”

_Como assim? Perguntei:

“_ Ahh, fala sério, né? A gente nasce com tudo no lugar e vive reclamando porque não consegue fazer um montão de coisas. Eles nascem com algumas coisas sem funcionar direito e se divertem do jeito que dá. Pensando bem, acho que isso é ir bem longe, mesmo que não se tenha pernas!”

Então, para resumir, entre risadas, lágrimas, reflexões e alegria por ter tido a oportunidade de ver o mundo pelos olhos de uma criança, fiquei algumas horas pensando nas belezas que a vida nos traz diariamente. E que muitas vezes, perdidos em nossos compromissos, rotinas e responsabilidades, deixamos de perceber e partilhar dessas vivências profundas e ricas para a formação humana.

Imaginei a alegria e satisfação daquela bailarina cadeirante e do legado que ela, sem saber, deixou naquela criança. Agradeci a oportunidade de saber ouvir o que as crianças dizem e de treinar meus ouvidos e olhos para captar os detalhes das suas indagações e interesses. E segui feliz sabendo que o mundo é muito melhor e belo pela ótica pura, espontânea e sincera da criança. Lembrei de uma outra fala encontrada no livro O Pequeno Príncipe, de Antoine de Saint-Exupéry:

“As pessoas grandes aconselharam-me deixar de lado os desenhos de jibóias abertas ou fechadas, e dedicar-me de preferência à Geografia, História, Cálculo ou Gramática. Foi assim que abandonei, aos seis anos, uma esplêndida carreira de pintor. Eu fora desencorajado pelo insucesso do meu desenho… As pessoas grandes não compreendem nada sozinhas, e é cansativo, para as crianças, estar toda hora explicando.”

Faz sentido para você? Quais estímulos você têm dado para os tatentos e interesses da sua criança ou adolescente?

Ouça o que a sua criança tem a dizer. Pode ser surpreendente!

É preciso cuidar das pessoas para transformar o mundo!

Com amor, Roberta Borges

Portal Acesse

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