A perda de um cavalo na equoterapia

Será que o cavalo de equoterapia é um animal comum, que não proporciona vínculos e relações?

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na vertical. Uma integrante da equipe de equiterapia está beijando um cavalo marrom. Eles estão em uma área gramada. Fim da descrição.
A importância do cavalo para a equoterapia (Foto: Divulgação)

Por: Eliane Baatsch*

Um cavalo é apenas um animal que dá custo e serve para ser montado, utilizado conforme a vontade dos seres humanos. Historicamente e culturalmente sim! O cavalo é utilizado como meio de transporte, esporte, entre outros. Mas, será que o cavalo de equoterapia é um animal comum, que não proporciona vínculos e relações? Nesta semana, vou falar sobre a perda de um cavalo na equoterapia.

Eles chegam no centro de equoterapia como uma novidade, equipe de profissionais na expectativa, famílias querendo conhecê-los e praticantes ansiosos para montá-los.

Início de treinamento do cavalo, começa a construção de uma relação com todo o setting terapêutico. Observação do comportamento, compreensão do temperamento e análise da biomecância e saúde do animal.

Parece tudo muito simples, mas não é! Uma sucessão de acontecimentos e expectativa. A equipe construindo uma relação de confiança com o animal e ele na reciprocidade e nos seus anseios, vícios e alterações comportamentais.

E assim começa uma relação, ao qual o amor pelo animal proporciona a paciência de treiná-lo, de seus desvios de comportamento, temperamento e a compreensão desses.

Alimentação adequada para melhorar o seu desempenho, tratamento veterinário, vermifugação e ferrageamento adequado.

Continua sendo um animal, sim! Mas mesmo que não pareça, a relação e o vínculo se construiu!

Após todo o procedimento com o cavalo, inicia-se uma nova fase: o cavalo no atendimento da equoterapia e os benefícios proporcionados na intervenção terapêutica. Neste momento o cavalo que era amigo da equipe no setting terapêutico, começa a estabelecer relação com o praticante e a família deste também.

Eliane com a artista plástica Marina Greco, que eternizou a égua Babi (Foto: Divulgação)

A família em sua vez é grata pelo animal, o praticante confia no cavalo e o cavalo confia no praticante! O cavalo compreende os movimentos do praticante em seu dorso e o praticante começa a compreender os movimentos que o cavalo executa, como tirar uma mosca, um espirro, um relincho, uma respiração mais profunda, um movimento mais rápido ou brusco, até mesmo o motivo do movimento. E assim por diante…

Quando o cavalo está interagindo menos, está com dor, apresentando comportamentos diferentes e assim que funciona essa relação, uma convivência recíproca de amizade, confiança e construções.

Um cavalo para ficar bom na equoterapia, demora aproximadamente dois anos para que possamos avaliar seu desempenho e suas alterações de comportamento, temperamento e saúde.

Mas ao mesmo tempo que o cavalo é um animal forte e imponente, é um animal frágil que precisa de cuidados constantes e nos deixa muito facilmente e rapidamente.

E a perda de um animal na equoterapia dimensiona a intensidade de um luto, como emoções e sentimentos dolorosos devido  a essa perda.

E de repente, esse nosso amigo nos deixa…

Segundo a psicóloga Renata Souza especialista em equoterapia atuante na equipe da Hípica Santa Terezinha, o vínculo criado com cavalo durante os atendimentos é algo que ganha grandes proporções  na vida do praticante. A possível perda do mesmo, gera o luto e consequentemente a necessidade de trabalhar com os sentimentos por ele gerado.

O cavalo passa a ser parte da realidade diária de quem com ele convive, sendo assim, com sua possível perda, há a necessidade de trabalhar com essa nova realidade, daquele que agora não mais estará presente.

Muitas vezes essa é uma perda repentina, o que impossibilita que os praticantes se despeçam dos mesmos, aonde procuramos promover dentro das limitações de cada um este momento para elaboração do luto. Desmistificar o tabu da morte, falando sobre a perda é muito importante, é imprescindível trabalhar a angústia de finitude que a perda possa vir a despertar.

Perder um cavalo, dá aos praticantes e famílias as dimensões reais de que nós, enquanto seres vivos temos uma vida finita, entender que esse nosso amigo se foi, é uma questão difícil de ser elaborada, o sofrimento deve ser sentido sim, jamais bloqueado, mas com a certeza de que os laços que foram construídos, confortam os corações.

Engana-se quem acha que o luto pela perda do animal fique só com o praticante ou a família, mas em todos os profissionais e funcionários do setting terapêutico.

Alguns centros de equoterapia fazem placas, estátuas e até pinturas para eternizarem o amor e a gratidão como homenagem aos seus animais.

E por fim, a perda de um animal ao qual estabelecemos uma relação, construímos laços de confiança e respeito mútuo, impacta profundamente nas nossas rotinas da equoterapia, com uma sensação de perda imensurável de um amigo único.

“O sentimento da perda de um cavalo de equoterapia deixa uma profunda saudade ressaltando uma dimensão sentimentos, pelo convívio, gratidão e amizade estabelecida”

 

 

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Eliane Cristina Baatsch é pedagoga e psicopedagoga, especializada em deficiência múltipla. Atua como equoterapeuta, coordenadora da Hípica Santa Terezinha, instrutora de equitação clássica, equitação para equoterapia e de volteio terapêutico, e também como presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência de Carapicuíba (CMPD).

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