O mundo virtual para as crianças autistas

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Uma menina está sentada, vendo um tablet, que está na sua frente. A menina está com as mãos na cabeça. Ela é morena, tem cabelos castanhos, longos. Sobre eles ela usa uma tiara colorida. Fim da descrição.
Especialista aponta os prós e contras do mundo virtual para autistas (Foto: Patricia Prudente / Unsplash)

Por: Zilanda Souza*

Tenho me dedicado a estudar sobre a influência da tecnologia no desenvolvimento infantojuvenil. A literatura vem apontando vários riscos e dados importantes que fortalecem o controle do tempo de exposição das crianças às telas dos smartphones, videogames e tablets. Mas, e quando se trata de autistas? Qual a influência do mundo virtual no desenvolvimento das crianças autistas?

Bem, um pouco diferente do que temos visto para as crianças com desenvolvimento dentro dos padrões neurotípicos, as crianças autistas podem se beneficiar muito do mundo virtual. Estudos vêm apontando que a maneira como autistas processam informações, os vinculam aos padrões computacionais, que se estabelecem dentro de um padrão binário, objetivo e concreto. A linguagem virtual para os autistas é mais natural do que a linguagem social, como afirma a Dra. Elizabeth Kilbey em seu livro: Unplugged Parenting: A mindful approach to raising children in the digital age.

Sendo assim, propostas de ensinagem, treino de habilidades cognitivas, abordagens temáticas podem ser melhor aprimoradas nas crianças autistas utilizando ambientes virtuais. Habilidades visomotoras e de produção escrita têm mostrado um melhor desenvolvimento nos autistas em ambientes virtuais. Um teclado e uma tela colorida podem ser próteses necessárias para autistas que apresentam dificuldades em acionar o mapa auditivo, visual e gestual, necessários na produção gráfica da escrita.

Autistas precisam mais do mundo virtual para fortalecer e estimular habilidades? Sim!

 

O mundo virtual pode ser prejudicial para os autistas?

Sim! O mundo virtual pode também ser prejudicial para os autistas como tem sido constatado para as crianças neurotípicas. A grande maioria passa 60% do tempo em jogos de videogame e televisão. Dentro dessa programação, identificou-se um índice alto de obsessão pelo mesmo jogo ou mesmo filme ou série. Uma minoria acessa redes sociais, comunica-se ou faz amigos nas redes sociais.

Dentro dessa obsessão, foram identificados padrões de desregulação emocional. A criança neurotípica (que apresenta desenvolvimento dentro do esperado para a sua idade) tende a apresentar sintomas pelo excesso do uso de tecnologia, quando não está usando a tecnologia. Autistas apresentam sintomas enquanto estão em uso e fora dele. Vejam alguns exemplos:

  • Apresenta agitação, estresse, inquietação;
  • Grita, salta de um lado para o outro;
  • Agressividade, comportamento perturbado.

Esses sintomas sinalizam a perda do controle e a ausência de ferramentas para manejar o inesperado, a perda.

Médicos afirmam também que alguns autistas são atraídos pelas telas, por apresentar seu sistema de dopamina desregulado. Acontece que o excesso de tela pode fortalecer a desregulação, uma vez que o seu sistema nervoso está sempre transitando em extremos: ora seu sistema de dopamina trabalha com níveis baixos, então as crianças autistas apresentam dificuldade de concentração e atenção. Ora está trabalhando com níveis altos de dopamina, então vão apresentar funcionamento cerebral acelerado e sobrecarregado.

Outro fator prejudicial no mundo virtual é a estimulação do isolamento, fortalecendo os sintomas de rigidez nas habilidades psicossociais.

 

Como aproveitar o mundo virtual para o desenvolvimento dos autistas sem se tornar vítima dos riscos que o mesmo mundo virtual oferece?

É uma pergunta complexa que deve ser respondida baseada no perfil cognitivo e socioemocional de cada autista. Vou listar algumas orientações que julgo ser importantes:

  • Organize junto com sua criança a rotina diária. Contemple o tempo de tecnologia na rotina;
  • Planeje juntamente com um psicopedagogo uma sequência de atividades, jogos virtuais que atendam à estimulação das habilidades cognitivas que seu filho precisa;
  • Ofereça um tempo controlado de liberdade. Um momento em que a criança vai poder escolher a atividade ou jogo virtual. Esse momento pode ser uma ferramenta de recompensa, pelos esforços e cumprimento de outras atividades direcionadas;
  • Converse com a escola sobre o aproveitamento da tecnologia nas atividades escolares. Crianças autistas podem desenvolver melhor produção escrita digitando do que escrevendo. Conteúdos que apresentam experiências audiovisuais próximas da criança, podem contribuir para a compreensão. Avaliações virtuais podem ajudar o autista a mostrar o que aprendeu;
  • Solicite ao professor particular o ajuste do uso de tecnologia durante as tarefas de casa, fazendo com que a criança tenha novas experiências com a tecnologia que vão além do jogo;
  • Insira na rotina do seu filho tempo sem tecnologia. Investiguem sobre atividades importantes, divertidas que não necessitam do uso de tela. Incentive e recompense esse tempo;
  • Observe e registre sobre o comportamento do seu filho. Esteja atento a alterações ou agravamento de sintomas. Mantenha sempre o acompanhamento multiprofissional para a sua criança autista.

 

 

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