Autismo, diagnóstico e intervenção precoce

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Um menino está sentado, em frente à uma mesa de madeira. Na mesa estão peças coloridas de blocos de montar, formando a palavra autism, autismo em português. O menino está com a cabeça apoiada nos braços, que estão cruzados sobre a mesa. Fim da descrição.
Autismo: entenda a importância do diagnóstico precoce (Foto: Divulgação)

Por: Vanessa Madaschi* 

O Transtorno do Espectro Autista, também conhecido como TEA, tornou-se um problema de saúde pública no mundo inteiro. Sua importância se reflete em dois eventos: em 2007, a Organização das Nações Unidas (ONU) decretou o 2 de abril como o Dia Mundial de Conscientização do Autismo (UNITED NATIONS, 2008) e a entidade americana Autism Speaks convocou vários monumentos do mundo, através da campanha Light It Up Blue iniciada em 2010, a se iluminarem de azul nesse dia a fim de promover a conscientização do transtorno.

 

Autismo

Estima-se que afeta um em cada 370 crianças ou 0,3%da população, devendo existir aproximadamente 40 mil crianças e adolescentes com TEA apenas no Estado de São Paulo, segundo o único estudo de prevalência brasileiro realizado por uma equipe de pesquisadores liderado por PAULA, em 2011.

De acordo com o DSM V, que é o MANUAL DIAGNOSTICO E ESTATÍSTICO DE TRANSTORNOS MENTAIS, (2013), o TEA é um transtorno do desenvolvimento caracterizado por prejuízos precoces na socialização e na comunicação, bem como comportamentos e interesses restritos e estereotipados. Esses sinais e sintomas estarão presente em todos os casos. Podendo também apresentar vários outros sintomas adicionais como déficits cognitivos, hiperatividade, agressividade e ansiedade, entre outros.

Sabe-se que os procedimentos relativos ao diagnóstico e à assistência dos TEA são complexos, e o mesmo estudo de Paula e equipe, de 2011, aponta que os casos de não estão sendo identificados, nem estão recebendo tratamento especializado no Brasil.

Em 2014, o Ministério da Saúde elaborou um material oferecendo orientações relativas aos cuidados à saúde das pessoas com TEA no campo da habilitação/reabilitação com o objetivo de oferecer orientações às equipes multiprofissionais dos pontos de atenção da Rede SUS para o cuidado à saúde da pessoa com TEA e de sua família nos diferentes pontos de atenção da Rede de Cuidados à Pessoa com Deficiência.

Esse material, na sessão 4.2., apresenta indicadores do desenvolvimento e sinais de alerta já observados no bebê de 0 a 6 meses até seus 36 meses de idade. Está disponível no site do Ministério da Saúde.

Frequentemente a criança apresentará sinais e prejuízos já no primeiro e segundo anos de vida. Até onde sabemos, através dos estudos realizados, é que no Brasil, a idade média da obtenção do diagnóstico ainda é tardio, variando de acordo com a forma de acesso aos serviços de saúde e de acordo com a região onde moram.

Contudo, a orientação é que mesmo sem a confirmação diagnóstica, a intervenção precoce seja instituída tão logo tais sinais sejam observados, visto que quanto mais precoce a criança iniciar a estimulação, mais chances de ter sua trajetória de desenvolvimento otimizada, com a possibilidade de melhorar o que é de mais valioso, que são seus aspectos funcionais, ou seja, a criança melhorar principalmente no domínio sócio-adaptativo e de comunicação, ampliando sua participação social, ao longo de sua trajetória de vida. Sim, pensamos desenvolvimento como um aspecto contínuo e em como a pessoa estará aos 20 anos já na primeira infância. É assim que um programa de intervenção em habilitação\reabilitação devem planejar seus objetivos em parceria com a família.

Diagnóstico

Mas como fazer o diagnóstico? Que pode fazê-lo? A observação direta da criança é o melhor método para levantar a suspeita diagnóstica. Concomitantemente ao uso de escalas e instrumentos de triagem padronizados que ajudarão a identificar problemas específicos, é importante salientar que há instrumentos de rastreamento/ triagem que podem ser aplicados por profissionais de diversas áreas e não somente por médicos. E um que os próprios pais podem preencher.

Mas se estamos falando em saúde pública, essa avaliação demanda equipes de saúde treinadas e preparadas e de instrumentos construídos e validados no Brasil. No momento, a implementação em escala nacional, da diretriz apontada pelo SUS, que deve nortear a atuação profissional e informar os pais das crianças com diagnóstico de TEA apresenta insuficiente implementação, prejudicando seu potencial de apoio às famílias e de tratamento dessas pessoas.

Por outro lado, neste ano, a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) também lançou um documento para ampliar o acesso a informação e fornecer orientações para a triagem precoce do TEA pois é consenso a importância do diagnóstico para o desenvolvimento da criança. Está cartilha é de domínio público e pode ser encontrada no site da Sociedade Brasileira de Pediatria.

A Academia Americana de Pediatria recomenda que toda a criança seja submetida a uma triagem para o TEA entre 18 e 24 meses de idade. Motivo de comemoração a todos os nós, foi a Lei 13.438/2017, sancionada em abril de 2017, onde o Sistema Único de Saúde (SUS) será obrigado a adotar protocolo com padrões para a avaliação de riscos ao desenvolvimento psíquico de crianças de até 18 meses de idade. A norma deverá ser aplicada a partir de outubro deste ano.

A recomendação é que nessa triagem possa ser utilizado a escala M_CHAT. O M-CHAT é uma escala autoexplicativa, fácil de ser realizada no consultório pelo pediatra durante a consulta de rotina da criança. O questionário é online e possui 23 questões claras, com respostas sim ou não, e que deve ser respondido pelos pais e/ou cuidadores das crianças que estão sob suspeita diagnóstica de TEA ou outros transtornos, desvios e atrasos do desenvolvimento. O teste pode ser repetido em intervalos regulares de tempo ou quando houver dúvida. Foi feita a tradução e adaptação cultural desta escala para o português do Brasil por Losapio & Pondé, em 2008. A mesma está disponibilizada em diversos sites, como por exemplo, no site Autismo e Realidade.

Muitos são os avanços, considerando décadas passadas. Desde no campo legal, com leis garantindo direitos e acessos, principalmente ao ambiente escolar e ao tratamento, em diferentes modalidades, com cuidados integrais e longitudinais, com vistas para o objetivo maior que é ampliar a participação dessas pessoas na sociedade, como um sujeito.

Maiores ainda são os desafios visto que até o momento não temos uma sistematização do tratamento e da intervenção principalmente no âmbito escolar. Mas esse será o assunto para o próximo mês. Espero vocês!

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela está a colunista Vanessa Madaschi. Ela é uma mulher loira e está com uma camisa preta com detalhes brancos. A imagem tem um recorte de perfil. Fim da descrição.
Foto: Jansey Oliveira

Vanessa Madaschi é Terapeuta Ocupacional, mestre e doutoranda em Distúrbios do Desenvolvimento. Atua na Inclusão Eficiente em São Paulo.

 

 

 

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