A maldição do coitadinho

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Um casulo de borboletas. Eles estão presos em um tronco fino de madeira. Os casulos são coloridos em tons de amarelo, marrom e preto. Fim da descrição.
A maldição do coitadinho: superproteção pode gerar indivíduos fracos e inseguros (Foto: Pixabay)

Por: Gigante Leo*

Quando amamos alguém é natural que façamos o possível e o impossível para que a pessoa não sofra. Se fosse possível, tiraríamos todas as pedras do seu caminho, todas as tristezas e possíveis decepções que a vida pudesse lhe dar. Transformaríamos sua vida num belo clipe onde tudo é lindo. E aí está o perigo de causar ao indivíduo a maldição do coitadinho.

Além de transformar a vida dessa pessoa numa chatice, você estaria transformando-a numa das criaturas mais vulneráveis e frágeis do mundo. A limitação é algo inerente a todos nós seres humanos, como a superamos é o que nos torna fortes e sobreviventes.

 

Amor x superproteção 

Muitas vezes confundimos amor com superproteção. Temos a tendência de querer fazer as coisas no lugar de quem amamos ou apenas projetamos nossos medos e fracassos não superados no outro. Achamos que isso é amor.

Minha filha, Luísa, que está quase com seis meses, está começando a tentar engatinhar. Quase todos os dias colocamos ela de bruços no tapete de EVA e a estimulamos a se locomover colocando seus brinquedos favoritos à sua frente. Várias vezes já tive vontade de colocar sua perninha na posição certa de engatinhar para mostra-la como se faz. Mas esse não é o caminho.

É lógico que a dor e o sofrimento de quem amamos nos afeta muito. Eu sinto com a dor da minha filha quando ela tem que tomar vacina, quando toma remédios ruins ou tem que fazer nebulização (que ela odeia). Mas sei que é necessário para sua saúde e qualidade de vida.

Uma das maiores provas de amor que minha mãe e minha vó me deram foi nunca ter me tratado como coitadinho ou diferente. Cresci numa casa que não tinha praticamente nenhuma adaptação. Usava uma escadinha para alcançar a pia, uma ‘vareta’ para ligar os interruptores, e assim por diante. Era cobrado igualmente à minha irmã mais velha, Tatiana, a ter uma boa grafia, não importando como seguraria o lápis ou quão mais difícil era essa tarefa para mim. Cobravam, mas sempre estavam ao meu lado me incentivando, dando apoio e sugestões e, sobretudo, dizendo sempre que eu ia conseguir.

 

Lição da borboleta

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Uma borboleta está em um jardim. Ela está em uma folha verde. A borboleta é amarela com detalhes em preto. Fim da descrição.
Sair do casulo sozinha é fundamental para a sobrevivência da borboleta (Foto: Igor Suassuna/Pixabay)

Um dia, uma pequena abertura apareceu num casulo. Um homem sentou e observou a borboleta por várias horas, conforme ela se esforçava para fazer com que seu corpo passasse através daquele pequeno buraco.

Então pareceu que ela havia parado de fazer qualquer progresso. Parecia que ela tinha ido o mais longe que podia, e não conseguia ir mais.

O homem então decidiu ajudar a borboleta: ele pegou uma tesoura e cortou o restante do casulo. A borboleta então saiu facilmente. Mas seu corpo estava murcho, era pequeno e tinha as asas amassadas.

O homem continuou a observá-la, porque ele esperava que, a qualquer momento, as asas dela se abrissem e esticassem para serem capazes de suportar o corpo que iria se afirmar a tempo. Nada aconteceu!

Na verdade, a borboleta passou o resto de sua vida rastejando com um corpo murcho e asas encolhidas. Ela nunca foi capaz de voar.

O que o homem, em sua gentileza e vontade de ajudar não compreendia, era que o casulo apertado e o esforço necessário à borboleta para passar através da pequena abertura era o modo pelo qual Deus fazia com que o fluido do corpo da borboleta fosse para as suas asas, de forma que ela estaria pronta para voar uma vez que estivesse livre do casulo – Autor desconhecido.

 

Como se tornar um coitadinho

Então, se você quiser destruir para sempre a vida de uma pessoa, trate-a como coitadinha. Arrume desculpas para tudo. Tenha certeza, isso é possível. Coitada, ela perdeu o pai e ainda não se recuperou. Coitada, ela tem dificuldade de locomoção. Coitada, ela trabalha demais. Coitada, ela é muito agitada. Coitada, ela nunca foi boa nessa matéria. Coitada, ela tem dificuldade de raciocínio. Coitada, ela tem os pais separados. Coitada… Coitada… Coitada… Isso quando a própria pessoa não se coloca na posição de vítima e transforma a si mesma ‘na coitadinha’.

Por isso é necessário fazermos diariamente um exercício para nos livrarmos das armadilhas do coitadinho. Quando estiver passando por uma situação difícil ou vir alguém nessa situação, não se vitimize nem vitimize a outra pessoa, pois essa atitude só contribui para potencializar gradativamente a letargia, sua ou de alguém.

Compadecer-se daquela pessoa ou situação, não é ter pena. É fazer com que você tome coragem e fique junto da pessoa para incentivá-la e ajudar a mostrar os possíveis caminhos para transpor aquela situação ou momento. É fazê-la entender que ela não é pior e nem mais azarada que ninguém, que todos nós passamos por momentos mais difíceis ou temos nossas limitações. Enfim, amar é estar junto e mostrar que só ela pode e é capaz de passar pela fenda estreita do casulo para se transformar numa linda borboleta.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Leonardo Reis está em um parque ecológico. Ele está sentado em um tronco de árvore. Ele está fazendo graça e está com a boca aberta, como se estivesse gritando. Leonardo usa uma camiseta vermelha, calça jeans azul e um tênis azul com listras brancas. Fim da descrição.
Foto: Bianca Ponte

*Gigante Leo ou Leonardo Reis, é ator, humorista e escritor.

 

 

 

 

 

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