Por um ENEM mais democrático

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Algumas provas do Enem estão sobrepostas. Fim da descrição.
Neste ano, provas do Enem terão acessibilidade para surdos (Foto: Divulgação)

Por: Rafael Dias Silva*

Algumas novidades estão reservadas para quem vai prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) em 2017, que será aplicado em dois domingos seguidos. Tal resultado é fruto da votação com mais de 600 mil participantes, sendo que 63,70% optaram pelo exame realizado nesses dois dias, de acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). No primeiro dia, com cinco horas e meia de duração, os alunos terão provas sobre linguagens, ciências humanas e redação. O segundo dia, com quatro horas e meia de duração, será a vez das provas de matemática e ciências da natureza.

Embora o número de alunos surdos no Ensino Médio aumentou 80,2% entre 2008 e 2012, e o de inscritos no ENEM subiu 88,8% entre 2010 e 2014, os estudantes matriculados no Ensino Superior ainda não surpreendeu. Entre 2008 e 2012, cresceu apenas 4,3%. Esses dados sinalizam que esses meninos e meninas ainda não estão conseguindo continuar a sua formação, muito menos chegar aos cursos de Pós-Graduação Lato Sensu e Stricto Sensu.

Ainda faltam pesquisas que ajudem a explicar essa realidade, mas sob o meu ponto de vista acredito que a educação dos surdos e dos alunos com outras deficiências ainda não foi levada a sério. Desde a chegada da lei n° 10.436/2002, que reconheceu a LIBRAS como língua, procuro entender porque os exames em todo país ainda não realizam um vestibular em LIBRAS, adaptado às reais necessidades dos alunos surdos.

Este ano os alunos surdos poderão contar com a aplicação experimental da prova onde as questões serão disponibilizadas em LIBRAS, fruto de uma parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Sou otimista com relação a essa iniciativa e as possíveis inconsistências em virtude das diferenças linguísticas, no que se trata aos regionalismos existentes na língua e também sobre a alfabetização dos sinais científicos podem contribuir e potencializar os estudos nas áreas da tradução e linguística.

Hoje um aluno surdo da região norte do país pode aprender sobre os conteúdos da proposta curricular como, por exemplo, ‘carboidratos’, ‘fotossíntese’, ‘eletromagnetismo’, ‘revolução francesa’, diferentemente dos alunos surdos da região sul, porque não existem sinais específicos para muitos dos conceitos nas áreas das ciências humanas, exatas e biológicas e, os sinais que existem são aplicados de forma local e pouco disseminado. Mas acredito que ao longo das próximas edições todos estes aspectos serão equacionados.

A presença dos tradutores-intérpretes e dos profissionais que fazem a leitura labial continua sendo oferecidas pelo INEP e, a capacitação e formação destes profissionais precisam ser revistos porque encontramos muitos destes, com uma baixa qualidade e despreparados para a prestação de serviços no exame.

Infelizmente, muitos fazem cursos de qualificação de 20 horas e se consideram aptos para esse atendimento especializado. Muitos alunos surdos que prestaram o exame, relataram para mim que os tradutores-intérpretes não conseguiram dar as informações básicas durante a prova. Uma sugestão para as organizações dos exames é criar um padrão para as contratações ou até mesmo acionar sindicados e instituições credenciadas pelo Brasil, como, por exemplo, a Federação Brasileira das Associações dos Profissionais Tradutores e Intérpretes e Guia-intérpretes de Língua de Sinais (FEBRAPILS) ou a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS) que realizam um trabalho sério e impecável, a fim de ajudar nessa seleção profissional.

Os cursos de licenciatura e pedagogia nos ensinam que devemos estimular a construção de cidadãos críticos. Por isso, valorizar o aluno que passou por toda sua escolaridade sendo considerado ‘invisível’ em muitos centros educativos é um passo importante. As diferenças culturais e linguísticas devem ser discutidas e trabalhadas, abolindo definitivamente a ideia de que qualquer limitação implique em inferioridade.

Há instituições, diretores, coordenadores e professores empenhados em garantir a acessibilidade ao conhecimento através de uma prática escolar responsável, considerando as limitações ou características dos alunos surdos e criando estratégias inovadoras que garantem que os aspectos cognitivos destes sejam preservados. Mas ainda precisamos ampliar essa discussão a fim de garantir que cada exame, como o do ENEM, seja mais democrático e plural.

Saudações!

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela está o educador Rafael Silva. Ele está próximo a uma parede branca. Acima de sua cabeça existe uma placa azul em que está escrito em letras na cor cinza Avenue Des Champs Elyées. Ao fundo, do lado direito, é possível ver algumas árvores e folhagens, como uma praça. Rafael usa um terno cinza escuro, uma camisa azul royal e está com os braços cruzados. Ele está sorrindo. Fim da descrição.
Foto: Gustavo Grandal

*Rafael Dias Silva é professor, mestrando e pesquisador em educação especial. Criou o projeto Libras na Ciência, no Habits – USP|Leste, dá palestras sobre inclusão no setor público, cursos de formação inicial e continuada para professores sobre educação bilíngue (LIBRAS/PORTUGUÊS), além de tratar sobre metodologia e estratégias educacionais.

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