Como e quando ensinar o Sistema Braille para a criança com cegueira?

2
6157
Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Dedos fazem a leitura em braile em um documento impresso. Fim da descrição.
A construção da alfabetização e o acesso ao Sistema Braille (Foto: Divulgação)

Por: Maria da Graça Corsi*

A resposta a esta pergunta parece resumir uma questão central: a alfabetização.

Existe uma diferença crucial entre a construção da alfabetização e o acesso ao Sistema Braille. Embora estes processos caminhem lado a lado, há uma diferenciação em relação à criança vidente, exposta diariamente a um mundo colorido e repleto de informações visuais, amplamente captadas pela visão, que associadas ao interesse e a curiosidade natural das crianças, colabora com a ampliação de seu vocabulário e formação de imagens mentais que conectadas à função dos objetos, figuras e à relação com o meio favorecem à construção do conhecimento neste mundo letrado. A profusão de palavras, frases, slogans, propicia à vivência, à compreensão e à pseudoleitura, fatores indispensáveis à alfabetização de qualquer criança.

A preocupação dos país e dos professores quanto ao melhor momento para iniciar a alfabetização da criança com cegueira é fator preponderante na questão escolar. Parece que toda experiência pré-escolar perde sua riqueza e significado, frente a estes importantes instrumentos de comunicação: a leitura e a escrita.

A criança com deficiência visual necessita ter experiências variadas e concretizadas por meio de objetos, brincadeiras, jogos, situações do cotidiano e da relação com o outro. Tornando cada uma delas, percebida, sentida e vivenciada na situação real.

É por meio do corpo que se aprende e se conhece o mundo, reconhecido a si mesmo, o outro, os objetos, os ambientes. Portanto, a constituição de corpo e sujeito ocorrerá mediante uma gama de oportunidades favorecidas pela interação com a família, as pessoas ao redor e contextualizadas nas experiências do cotidiano.

A construção de conceitos e sua internalização se dará também pela conceituação e estruturação do esquema corporal, relações temporais e espaciais, coordenação dinâmica global e manual, desenvolvimento das habilidades táteis e cinestésicas, atenção, concentração, memória e raciocínio. A troca entre a família, a professora e as crianças fortalecerá a convivência, a socialização, a ampliação do vocabulário, o respeito, o contato com as regras sociais, a oportunidade de falar; esperar sua vez, de intermediar e agir de maneira positiva e participativa.

Para que as ações se concretizem, é preciso que haja comunicação- maneira encontrada pelo ser humano para transmitir ideias, conceitos, dialogar, discutir. Deste modo, inicia-se muito cedo.

A mãe começa a se comunicar com seu bebê ainda na gestação. Ela acredita que ele a compreende e estimula a ‘conversa’ modulando a voz, aumentando e diminuindo a entonação, cantarola cantigas de ninar e bem querer e acaricia sua barriga. Embora o bebê não possa compreender, a mãe se faz reconhecer insistindo nesta comunicação que se efetivará após o nascimento. Aos poucos, a criança evolui e inicia os balbucios, motivando a família a repeti-los e valorizá-los, o que a estimula a continuar. A presença da mãe constitui um elemento importante, pois se torna um modelo para sua aprendizagem e construção da linguagem. A presença da cegueira poderá provocar dificuldades na formação de vínculo com a mãe, comprometendo a comunicação, devido à falta do contato visual.

As brincadeiras e as trocas vocais são canais abertos para que a criança se comunique com seus país. Cabe ressaltar que a criança com cegueira possui condições para a aquisição da linguagem e poderá surpreender a sua família tanto para se comunicar, quanto para compreender o que lhe é dito e apresentado.

A criança vidente recebe grande quantidade de estímulos, além de perceber os gestos, expressões e imagens carregadas de significados, que por si só expressam a ação sem serem verbalizadas. Para que a criança com cegueira se aproprie deste conhecimento e incorpore esta outra forma de se comunicar, precisará do toque e contato pele a pele para perceber as diferentes expressões: sorriso, espanto, aborrecimento, piscar dos olhos, o movimento dos lábios; acrescentando palavras e outros gestos que significam sim e não, positivo, alô, até logo. Compete aos país e aos professores apresentar os objetos e incentivar a exploração tátil, explicar sobre sua função e uso.

O gesto e expressões faciais podem parecer comprometidos, mas a cegueira não constitui um obstáculo para o desenvolvimento e aquisição da linguagem, que precisa ser mediada de forma significativa para que a criança compreenda o que está acontecendo ao seu redor. Daí a importância da antecipação dos eventos. Imagine-se adormecido em sua cama e ser despertado com o som da furadeira acima de sua cabeça. A primeira reação será de susto! É fundamental proporcionar experiências e possibilitar a interação entre a criança e o objeto ou acontecimento. Valorize cada som e aproxime dela o objeto, permitindo que o localize, já que não o fará visualmente. O interesse despertado pela visão, faz com que as crianças videntes olhem na direção das pessoas e objetos. A falta de visão poderá despertar maior interesse pela audição e ao invés de “olhar”, a criança poderá a virar a cabeça na direção do som ou do interlocutor. Aspecto que pode não ser compreendido pela família.

A interação com os objetos, permitindo a exploração e reconhecimento, favorecerá a ampliação do repertório e vocabulário. A criança irá entender o significado das palavras e não apenas repeti-las. As palavras são encantadoras para as crianças e repeti-las pode ser um jogo interessante. Muitas vezes, a família incentiva esse jogo, levando-as a uma repetição inconsistente e sem significado. Estes estímulos devem estar associados a um contexto para que sirvam de orientação à criança.

A construção da aprendizagem e a formação de conceitos se dará de modo particular nas pessoas com cegueira, pois sua maneira de conhecer e interpretar o mundo é diferente daquelas que enxergam. Os objetos precisam ser tocados e as oportunidades muito variadas!

Este contato com objetos de diferentes formas, tamanhos, consistência, peso, textura, temperatura, devem incluir o desenho e as representações em relevo, como figuras, tabelas, gráficos, mapas e diagramas. A criança precisará de grande refinamento tátil para reconhecer, discriminar e ler os caracteres que formarão as letras, por isso não basta oferecer somente objetos do cotidiano.

A exposição aos estímulos táteis é cansativa para a criança, uma vez que utiliza outro canal sensorial, as mãos. Estudos tem apontado que a leitura tátil é três vezes mais fatigante do que a visual, por ser mais vagarosa, exigir adequado posicionamento dos braços e mãos, sendo necessária força e destreza manual para deslizar levemente os dedos sobre o texto. As variações de temperatura, podem provocar a diminuição da sensibilidade tátil.

Ao nos depararmos com um texto, leremos o título de relance, mas a pessoa com cegueira o fará de modo muito diferente. Em contato com o mesmo texto escrito em Braille, precisará apoiar as mãos e dedos sobre ele e reconhecerá com a polpa do dedo indicador, apenas uma letra, isto é, um conjunto de caracteres em relevo que formam a primeira letra do título. Sendo necessário deslizar os dedos para que a leitura da palavra seja concluída ponto a ponto.

O posicionamento adequado das mãos sobre o texto também é relevante para que a criança seja um bom leitor no futuro.

A escrita e a leitura devem ser igualmente valorizadas, por meio de atividades interessantes para evitar exercícios repetitivos e sem significado. Devemos possibilitar o contato com as palavras, frases, textos e livros de história infantil, substituindo a representação em tinta pelo desenho em relevo e objetos concretos, permitindo a interação com os personagens.

Outro aspecto importante a ser definido, diz respeito ao material utilizado para escrever. Atualmente, muitas crianças possuem a máquina de datilografia Braille e devem fazer uso dela diariamente, em casa e na escola. Outras crianças, pela dificuldade de acesso, utilizam a reglete e punção, que exige maior esforço. É importante que a criança aprenda a manejar adequadamente seu material e desenvolver habilidade suficiente para evitar o desperdício de tempo durante a execução da atividade.

A leitura constitui o veículo de cultura que a pessoa com cegueira não pode prescindir e, por isso, deve estar acessível a todas as crianças, possibilitando sua autonomia e independência na expressão de seus sentimentos, desejos e na comunicação.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na vertical. Maria da Graça Corsi é uma mulher morena, com cabelos castanhos, ondulados, na altura dos ombros. Ela usa uma blusa branca e um lenço azul com detalhes coloridos. Ela sorri. Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Maria da Graça Corsi é pedagoga especializada em deficiência visual, da Laramara – Associação Brasileira de Assistência à Pessoa com Deficiência Visual.

 

 

 

Portal Acesse

2 COMENTÁRIOS

  1. Olá boa noite.
    Eu sou Luciana psicopedagoga de uma entidade para deficientes visuais e gostaria de saber com que idade posso apresentar o braile para as crianças, os pontos propriamente ditos?

  2. BOM DIA LUCIANA! EU TRABALHEI DE MANEIRA PRÁTICA E OBTIVE ÓTIMOS RESULTADOS, JÁ NA EDUCAÇÃO INFANTIL QUANDO EU MOSTRAVA AS LETRAS EM BASTÃO PARA AS CRIANÇAS QUE ENXERGAM, EU AS MOSTRAVA TAMBÉM PARA MINHA ALUNA CEGA, SÓ QUE AS LETRAS DELA ERAM ADAPTADAS COM OS PONTOS EM BRAILLE DO LADO ESQUERDO.
    QUANDO APRESENTEI O BRAILLE PARA CONTEI DE MANEIRA BEM RESUMIDA A HISTÓRIA DE LOUIS BRAILLE, CONTEI QUE ELE ERA UM MENINO MUITO ATIVO, E QUE ACOMPANHAVA SEUS IRMÃOS NA ESCOLA, MAS EM CERTA IDADE ELE FOI ESTUDAR EM UMA ESCOLA COM RECURSOS PARA PESSOAS CEGAS. MOSTREI PRA ELA UM CORAÇÃO EM EVA QUE MUITAS PESSOAS USAM PARA SIMBOLIZAR QUE AMAM, COLOQUEI A MÃOZINHA DELA EM SEU PRÓPRIO PEITO PARA QUE SENTISSE OS SEUS BATIMENTOS, E MOSTREI PRA ELA QUE AQUELE CORAÇÃO EM EVA SIMBOLIZAVA O CORAÇÃO QUE BATIA EM SEU PEITO, MAS ELE ERA DIFERENTE, POIS O DO PEITO É REGADO COM NOSSO SANGUE E NÃO PODEMOS TIRAR E PEGAR NAS MÃOS QUANDO QUEREMOS, MAS O DE EVA EU POSSO USAR PARA MOSTRAR MUITAS COISAS, QUANDO ESTOU COM SAUDADES, QUANDO ESTOU FELIZ, TRISTE, EM FIM TODAS ESSAS COISAS. E ASSIM ENTREI NA ESCRITA, MOSTRANDO AS LETRAS E A CELA BRAILLE TAMBÉM EM EVA.
    INICIALMENTE MOSTREI A CELA VAZIA, DEPOIS OS PONTOS E ELA FOI ENCAIXANDO OS PONTOS NOS LOCAIS QUE EU EXPLICAVA.
    FOI UM TRABALHO LENTO, FIQUEI ALGUNS MOMENTOS SOZINHA COM ELA, MAS NADA QUE INTERFERIU NA AULA, POIS NUNCA A TIREI DA SALA PARA ISSO, SEMPRE JUNTO COM OS DEMAIS.
    FIZ UM ALFABETO BRAILLE, JUNTO COM O DE ESCRITA CURSIVA E TAMBÉM COLOQUEI O MESMO EM LIBRAS E EXPLIQUEI PARA A SALA A IMPORTÂNCIA DE CADA UM. MAS NUNCA COBREI DELES O APRENDIZADO, MAS SEMPRE QUE SURGIA A OPORTUNIDADE EU MENCIONAVA.
    TANTO FOI BOM, QUE OS COLEGAS DE CLASSE SABIAM DIZER CLARO QUE OLHANDO, OS PONTOS DE CADA LETRA.
    ESPERO TER AJUDADO. E NÃO ESQUEÇA DE FAZER VÁRIOS EXERCÍCIOS QUE DESENVOLVAM A COORDENAÇÃO MOTORA FINA.
    UM ÓTIMO É VOCÊ FAZER ALGUMAS FIGURAS GEOMÉTRICAS COM BARBANTE E PEDIR PARA ELA PINTAR.
    SE PRECISAR DE MAIS IDEIAS ESTOU A DISPOSIÇÃO, SOU PEDAGOGA, ESPECIALISTA EM EDUCAÇÃO ESPECIAL NA ÁREA DA DEFICIÊNCIA VISUAL.
    ATT.
    APARECIDA

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.