A prática pedagógica na autodefensoria: Autonomia é governar a si mesmo

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Uma menina com síndrome de Down está com as mãos e o nariz pintados. Ela está em meio a muitas tintas, coloridas. Fim da descrição.
Especialista destaca a prática pedagógica na autodefensoria (Foto: Divulgação/APAE)

Por: Mônica Neves Rocha*

Conscientizar as pessoas com deficiência sobre seus direitos e deveres, bem como a representatividade da causa, deve ser o objetivo principal do trabalho de autodefensoria desenvolvido pelas APAES, enfatizando o exercício da cidadania.

Porém, para o pleno exercício da cidadania não basta apenas reconhecer seus direitos. São necessárias mudanças de atitude frente a si, ao mundo, além do desenvolvimento de habilidades que garantam este protagonismo.

 

O trabalho de autodefensoria

Considerando que a cidadania e a participação não se constroem de forma abstrata, mas que se aprende a participar participando (como diria Paulo Freire “na ação reflexão, ação”), para que isso ocorra são necessários alguns investimentos como condições e estratégias subjetivas que irão propiciar um desenvolvimento de forma gradual, mas não linear. Por meio das experiências com o Comitê de Autodefensores na APAE DE SÃO PAULO constatou-se o quão fundamental é a ótica educativa e pedagógica no processo deste trabalho.

A prática educativa contribui para o desenvolvimento das capacidades da pessoa com deficiência. Ela reforça ainda a compreensão sobre a concepção de ‘autonomia da pessoa com deficiência’, que não pode ser vista em um único aspecto, mas a partir de inter-relações que se estabelecem entre os indivíduos, a sociedade e a cultura em que se inserem, da qual devem ser coautores, isto é, elaborar e participar da construção de sua própria história.

O educador social deve ‘olhar além dos olhos’ quando está no papel de mediador deste grupo. Além de favorecer que este público tenha a liberdade de se expressar, tento em vista que este espaço de voz regularmente lhe foi negado. É ter a capacidade de perceber em sua fala os aspectos que estão muito além das palavras ditas, compreender que a comunicação é muito mais do que o simples falar.

Aqueles que estejam voltados à promoção de desenvolvimento humano, comprometidos ou não por uma deficiência, devem favorecer a mediação e investir na dimensão imaginária, atuando sobre as capacidades potenciais e funções psicológicas emergentes, mais elaboradas e criadoras, como aspectos do funcionamento psíquico complexo. (DE CARLO, 2001. P. 81)

Sendo assim, a discussão que estamos construindo na Federação das APAES do Estado de São Paulo, em conjunto com a Coordenadoria de Autodefensoria, é sobre a importância de todos da Organização entenderem e internalizarem o que realmente é o trabalho de autogestão/autodefesa da pessoa com deficiência. E reforçar que este não é exclusivamente trabalho da diretoria da Organização, do Serviço Social e da Psicologia.

Sem dúvida, o profissional que lida com as pessoas com deficiência em seu dia a dia, como os monitores, oficineiros, pedagogos, dentre outros, têm muito a contribuir com este trabalho. É inegável que esses profissionais estejam ligados e envolvidos diretamente ao Programa de Autodefensoria, pois o cotidiano das pessoas com deficiência é compreendido e analisado por esse educador de maneira singular, em que cotidianamente ocorre uma troca partilhada de conhecimentos e possibilidades.

E foi a partir de uma vivência com um funcionário da APAE DE SÃO PAULO com deficiência intelectual inserido no Programa de Autogestão/Autodefensoria, que tinha entre suas atribuições o papel de autodefensor, que foi necessário buscar uma parceria com a área de Educação para que o mesmo pudesse ter o entendimento de suas ações no serviço ao qual foi inserido.

Quando pensamos em estabelecer esta parceria de enfoque multiprofissional podemos dizer que os objetivos das áreas envolvidas nada mais eram que ‘mediar’ uma realidade trazida do contexto sociocultural do autodefensor, ante uma realidade de processos de trabalho (funções cotidianas do mundo do trabalho) e suas implicações. Portanto, “a possibilidade de se estabelecer na prática educativa uma relação entre aprender conhecimentos teoricamente sistematizados (aprender sobre a realidade) e as questões da vida real e sua transformação (aprender a realidade da realidade)” (BRASIL, 1998, p.30).

A proposta que a coordenadoria de Autodefensoria propõe privilegia um trabalho voltado ao protagonismo da pessoa com deficiência, na construção coletiva e participativa envolvendo todos os atores sociais. E mais: propicia à pessoa com deficiência um espaço no qual ela possa, sem perder a sua individualidade, desenvolver suas capacidades até então: escondidas, negadas e camufladas.

 

Referências Bibliográficas

BRASIL, Parâmetros Curriculares Nacionais: 3º e 4º ciclos, apresentação dos temas transversais. Secretaria de Educação Fundamental. Brasília, DF: MEC/SEF, 1998.

DE CARLO, Marysia; PRADO, Mara Rodrigues. Se essa casa fosse nossa: Instituições e processos de imaginação na educação especial. São Paulo: Plexus Editora, 1999. 154p

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

GUERRA, Antônia et al. Construindo Política com a Juventude. São Paulo. 2011

JESUS, Denise Meyrelles de (Org.) et al. Inclusão Práticas Pedagógicas e Trajetórias de Pesquisa. Porto Alegre: Mediação, 2007.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na vertical. A especialista da APAE DE SÃO PAULO, Mônica Rocha. Fim da descrição.
Foto: Divulgação/APAE

*Mônica Neves Rocha é assistente social da APAE DE SÃO PAULO, no núcleo de políticas do programa de autodefensoria. Especialista em gestão pública e gestão de políticas sociais. Coordenadora de autodefensoria da Federação Estadual das Apaes de São Paulo desde 2011. Tem experiência na infância e juventude SAICA VOVÓ ILZA – serviço de acolhimento institucional a criança e adolescente. Acolhimento de adolescentes gestantes e mães, 2016/ atual; na área de assistência social CRAS- Centro de referência de assistência social – Diadema 2004/2009; e na área da infância CEDECA – Centro de defesa e garantia de direitos – com crianças e adolescentes em situação de risco e rua, 2004/2009.

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