Problemas de alfabetização infantil: Transtorno ou ensino inadequado?

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Ilustração da sombra de uma cabeça, de perfil, na cor preta. De dentro dela saem peças de um quebra-cabeça, de desmontando. As peças são azuis e brancas. Ao fundo da imagem, temos a ilustração de diversas peças de um quebra-cabeça, na cor azul. Fim da descrição.
Especialista alerta sobre problemas na alfabetização infantil (Imagem: Pixabay)

Por: Zilanda Souza*

Durante um período entre a Educação Infantil e o final do 1º ano do Ensino Fundamental é comum uma certa tolerância para com os atrasos no processo de alfabetização infantil. Espera-se que a criança tenha um tempo para mostrar sua competência de leitura. Finalizado esse tempo, pais e professores começam a questionar o motivo pelo qual a criança não está alfabetizada. Então, trata-se de um transtorno, alterações neurobiológicas ou o método de alfabetização foi inadequado para o meu filho?

A dúvida é pertinente e não pode ser respondida através de achismos ou observando o filho da amiga que tem a mesma idade.

 

Como saber se o atraso no processo de alfabetização do meu filho é sinal de um transtorno?

Primeiro precisamos delinear o que constitui o atraso no processo de alfabetização. É preciso cuidar e acalmar o coração ansioso dos pais em ver os pequenos lerem sozinhos. Já vi mãe rotulando de ‘atraso de alfabetização’ o fato do filho de quatro anos não escrever na letra cursiva e não ter o domínio de leitura. A alfabetização é uma conquista pessoal para muitos pais e acaba gerando uma ansiedade problemática.

Por um lado, se temos a ansiedade de alguns pais, por outro lado temos a acomodação de outros que pensam que cada criança tem o seu tempo e não há problema algum em não estar alfabetizado aos oito anos de idade.

Ansiedade e acomodação são extremos perigosos. É preciso equilibro, prevenção e moderação.

 

Alfabetização na Educação Infantil

Na Educação Infantil, os pais devem agir com prevenção e moderação, solicitando uma avaliação para o seu filho das habilidades prévias para a alfabetização. O processo de alfabetização depende de habilidades anteriores que precisam estar bem desenvolvidas. Verificar essas habilidades no ano de alfabetizar, dentro da classe de alfabetização sistematizada, pode ser uma intervenção um tanto atrasada.

Ainda temos muito preconceito em relação a avaliação na Educação Infantil. Em meu espaço, percebo que muitos pais sentem-se inseguros e vêem seus filhos inferiorizados se tiverem que submetê-los s a uma avaliação. Esse pensamento não acompanha os avanços neurocientíficos, que têm colocado à nossa disposição protocolos de avaliação de habilidades prévias, para a alfabetização, normatizados e padronizados, que possibilitam intervenção e estímulo a tempo de resolver ou minimizar o risco de atraso no processo.

 

Que habilidades devem ser avaliadas na Educação Infantil?

É fundamental avaliar pelo menos o desenvolvimento motor, a memória de longo prazo, a memória fonológica, o vocabulário expressivo e auditivo, a velocidade de processamento, a atenção e a consciência fonológica.

Esses resultados podem contribuir para elaboração do perfil cognitivo para o processo futuro de alfabetização da criança, podem sinalizar risco para transtorno e ainda colaborar para investigações de transtornos, que podem ter seus diagnósticos concluídos ainda na educação infantil, sempre com apoio multidisciplinar.

No período da alfabetização sistematizada, as dificuldades das crianças tendem a aumentar e sintomas como lentidão, esquecimento, trocas de letras, cansaço, vocabulário restrito, surgem com maior frequência. Mesmo com a evidência do atraso na investigação, a avaliação é recomendada juntamente com acompanhamento multidisciplinar. As dificuldades envolvendo a alfabetização comumente requerem ação da fonoaudiologia, otorrinolaringologia, psicopedagogia, pediatria e neuropediatria.

 

Quando o problema na alfabetização é consequência do ensino inadequado?

Uma pesquisa no Brasil investigou se os 20,9% das crianças que fracassam em leitura teriam dislexia do desenvolvimento. Para obter uma resposta fidedigna, os pesquisadores avaliaram as habilidades prévias dessas crianças. Veja que o estudo aponta a avaliação com uma ferramenta importante para trazer a luz a resposta que tanto almejamos.

O resultado da pesquisa mostrou que não existia indicativo de patologia nos resultados encontrados, o perfil daquelas crianças não apresentava sintomas para dislexia. Porém apresentava um dado importante que trazia a resposta: A habilidade consciência fonológica, especialmente fonêmica daquelas crianças apresentavam resultado catastrófico. Aquelas crianças não recebiam estímulo e treino explícito nas 10 habilidades da consciência fonológica e por isso fracassavam em leitura e escrita.

Ficou descortinado um problema metodológico na alfabetização brasileira. Tomando como base que o sistema nervoso juntamente com suas habilidades aguardam por estímulo externo adequado, também partindo da evidência de que é possível fabricar rigidez e atraso no desenvolvimento do processo de alfabetização por ausência desse estímulo adequado, sugiro que as famílias pesquisem o processo metodológico de alfabetização utilizado nas instituições escolares:

  1. A escola privilegia o brincar, o movimento corporal, a experiência sensorial?
  2. A escola usa, regularmente, no projeto curricular, estimulação de linguagem oral que vai além da contação de histórias e relatos?
  3. Trabalham com ampliação de vocabulário, jogos orais, consciência e frequência do som das palavras?
  4. A escola tem um método de alfabetização coerente com o neurodesenvolvimento infantil? Atualmente os métodos fônico e multissensorial vêm sendo apontados pelos neurocientistas e pesquisadores da alfabetização como os métodos mais eficazes para o processo de alfabetização.

 

Bem, o que proponho nesse artigo é que na dúvida sobre a existência de um atraso ou não no processo de alfabetização do seu filho, busque por uma investigação séria e apoiada na ciência.

Entenda a alfabetização como processo que demanda de habilidades prévias, avaliar seu filho ainda na Educação Infantil não é procurar ‘pelo em ovo’, é ser prevenido. A avaliação ainda na educação infantil fornece informações seguras para pais e professores intervirem. Por fim, também considerem o método, o tipo de trabalho que a escola desenvolve. O manejo externo baseado em evidência, também é fator que define a qualidade de leitura que nossas crianças vão apresentar.

 

 

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