O autismo e a consciência da inclusão escolar

0
1763
Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Um menino está montando uma coluna com peças de madeira. Fim da descrição.
Especialista aborda o autismo e a inclusão escolar (Foto: Michael Parzuchowski/Unsplash)

Por: Zilanda Souza

Para abordar o autismo e a consciência da inclusão escolar, vou contar a história do Davi, que é autista. Ele está matriculado na rede pública e regular de ensino e apresenta nível moderado dentro do espectro. Consegue falar, mas não elabora uma conversa, uma expressão oral espontânea. Brinca sozinho com suas figuras de dinossauros, movimenta o rosto e as mãos continuamente.

Davi não executa todas as atividades da escola, tem preferência por algumas, a ponto de não deixá-las caso não tenha terminado. Todos podem mudar de atividade, a professora pode até solicitar, mas Davi permanece até concluir. Davi é diferente, num ambiente coletivo, compartilhado com mais 25 crianças.

 

Inclusão escolar da criança autista

Temos aí um contexto complexo: essa é uma situação típica que necessita de inclusão escolar por se tratar de um transtorno que apresenta comprometimento na base do desenvolvimento; o tripé cognitivo: desenvolvimento sensorial, motor e linguagem oral.

Precisamos estudar sobre o autismo, mas também precisamos construir a consciência do que vem a ser um processo de inclusão escolar da criança autista:

– É proporcionar recursos para que Davi realize todas as atividades propostas para a turma?

– É promover um tratamento para Davi dentro do espaço escolar?

– É manter Davi o tempo todo no mesmo ambiente que os seus colegas?

– É fazer com que os colegas façam as mesmas atividades que Davi?

 

Inclusão escolar não é tratamento. É uma prática pedagógica que considera e respeita o indivíduo na sua singularidade. Não corresponde simplesmente a elaborar atividades diferentes para os autistas e nunca passa pelo ato de normatizar grupos.

Dentro do processo de inclusão escolar estudamos o autismo para compreendermos como poderemos promover ações de respeito e garantir a aprendizagem acadêmica possível: mínima, média ou máxima; curvando o currículo sempre para o talento da criança autista.

Quando Davi é respeitado no seu tempo maior para conclusão de uma atividade e as outras crianças são respeitadas podendo prosseguir em outras propostas, então temos um ambiente inclusivo.

Quando as dificuldades dos autistas e as dificuldades dos outros colegas podem ser expressadas livremente, quando uma rede de apoio se estabelece dentro da sala de aula e uns ajudam os outros em seus desafios, então temos um ambiente inclusivo.

Quando o talento individual é valorizado tanto quanto a produção coletiva, então temos um ambiente inclusivo. Por que todos tem que participar da feira de ciência? Por que todos tem que pintar a tela para a exposição de artes? Por que todos precisam cantar na apresentação de Natal? Por que todos precisam jogar no campeonato da escola? Por que todos tem que se submeter ao mesmo simulado? Todas as vezes que tentamos padronizar pessoas e uniformizando o ensino, estaremos excluindo.

A escola inclusiva estimula todas as possibilidades, respeita limites e os ultrapassa quando for necessário. Uma escola inclusiva, tem um grupo matriculado no trabalho de artes, um outro grupo na olimpíada dos simulados, um grupo de atletas de tirar o fôlego, um grupo que compõem a banda da escola, um outro grupo de iniciação científica. Diferenças pelos ares, talentos multiplicados, respeito enraizado e pessoas sendo felizes. Esta é a consciência de inclusão que deveria permear os ambientes escolares.

Hoje é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo e eu me pergunto quantas salas de aula vão parar para pesquisar sobre pessoas autistas. Quantas classes de educação infantil vão debater sobre crianças diferentes e a prática do amor e respeito. Não espere seu filho ter um amigo autista para fazer isso. Não espere sua sala de aula ter um aluno autista para implementar práticas de investigação e reflexão sobre as diferenças. A inclusão que não acontece naturalmente dentro de ambientes de funcionamento padrão, tidos como ‘normais’, jamais vai acontecer dentro do ambiente das diferenças.

Inclusão não é projeto escolar. Inclusão é conduta escolar diária e permanente não somente para os autistas, mas também para a promoção da saúde mental de todos que participam do contexto escolar.

 

Acompanhe meu conteúdo também pelo canal do Youtube!

 

 

NOTÍCIAS RELACIONADAS

. Dicas para livrar os adolescentes das Fake News

. Armamento contra o bullying nas escolas

. Confira as dicas de ouro para o sucesso no ensino

 

 

Portal Acesse
SHARE
Previous articleConheça as novidades e perspectivas sobre o autismo
Próximo artigoÉ preciso renovar a esperança diariamente
Mãe e educadora, especialista em psicopedagogia e neuropsicopedagogia, doutoranda em Saúde Coletiva. Autora do livro ‘Brincando de Palavrear’, coordenadora da pós-graduação em neurociência aplicada a avaliação e intervenção psicopedagógica e doutoranda em saúde coletiva. Diretora da Espaço Vida em Minas Gerais e no Distrito Federal. Atua em pesquisa voltada para a intervenção em funções executivas em crianças do ensino fundamental anos finais.

LEAVE A REPLY

Please enter your comment!
Please enter your name here

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.