Limiaridade e deficiência intelectual: no umbral da inclusão

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Fachada da sede da APAE DE SÃO PAULO. Fim da descrição.
Fachada da sede da APAE DE SÃO PAULO (Foto: Divulgação)

Por: Flávio Gonzalez*

Importantes pesquisadores, como o professor Carlos Veloso da Veiga, do Departamento de Sociologia da Universidade do Minho, em Portugal, têm realizado estudos acerca do conceito de ‘limiaridade‘.

Este termo foi cunhado pelo eminente antropólogo norte americano, professor da Universidade de Colúmbia, Robert Murphy, que inclusive realizou muitas pesquisas em tribos indígenas no Brasil. Em 1976, Murphy tornou-se tetraplégico e passou a direcionar seus estudos para sua própria situação e de outros em condição semelhante.

Limiaridade e deficiência intelectual

Segundo Robert, as pessoas com deficiência ocupam muitas vezes uma posição limiar, um lugar intermediário entre a segregação e a inclusão. Ele compara este estágio aos ritos de iniciação nas sociedades primitivas, nos quais há um período de transição em que a pessoa deixa uma condição para assumir outra, mas ainda não assumiu, o que só se efetivará após fazer a ‘passagem’.

No caso da inclusão e, mais especificamente, da inclusão profissional, da qual falaremos aqui, isto deveria significar simplesmente a transição de um momento de inatividade profissional, que poderíamos chamar de exclusão, para outro de inclusão, como forma de participação plena da vida social comum. Existem leis que garantem ou deveriam garantir estas oportunidades para as pessoas com deficiência, como a chamada Lei de Cotas, hoje integrada à Lei Brasileira de Inclusão.

No entanto, mesmo que o número de empregos para pessoas com deficiência, embora insuficiente, venha aumentando, o que se percebe na prática é quem nem sempre estar ‘empregada’, significa que a pessoa esteja ‘incluída’. Corre-se o risco, e daí o conceito de limiaridade, da exclusão continuar ocorrendo, ainda que de modo mais sutil, mesmo dentro do ‘contexto’ do trabalho, que pode englobar tanto aspectos da própria empresa como também familiares e sociais.

Carlos Veiga nos aponta os seguintes exemplos de ‘como se concretiza’ esta limiaridade na prática das pessoas com deficiência intelectual:

Na vida familiar

  • Não ter acesso autônomo ao próprio dinheiro, por ele ser gerido pelos familiares de forma coerciva;
  • Continuar a ser controlado nos seus desejos e vontade como se fosse uma criança (infantilização/superproteção).

Na vida organizacional

  • Ganhar o salário mínimo sem possibilidade de crescimento, independentemente das capacidades demonstradas;
  • Sujeitar-se a não receber compensação por trabalho extra, assumindo-se que é sua obrigação ajudar quem o ajudou;
  • Ter um estatuto formal semelhante a outros trabalhadores, mas sempre ser relegado para o último lugar do sistema social da empresa;
  • Ser tratado nos grupos de trabalho como ‘mascote’.

Na vida social:

  • Perder os ‘amigos’ do trabalho à porta da empresa;
  • Continuar a mobilizar-se no espaço público de forma muito restritiva;
  • Continuar a manter uma vida desprovida de acesso a atividades ou momentos de lazer, diversão e vida social;
  • Ter aspirações à vida íntima e não conseguir concretizá-las (namoro, sexo, casamento).

 

Programa de Emprego Apoiado

A APAE DE SÃO PAULO, por meio do seu Programa de Emprego Apoiado, vem realizando a inclusão de pessoas com deficiência intelectual no mundo do trabalho. Para isto, efetua a análise de postos de trabalho, sugere a customização de funções, faz palestras e acompanha cada pessoa incluída durante pelo menos um ano, visitando-a no seu local de trabalho, orientando lideranças e também familiares. O objetivo é ‘amarrar as pontas’ para que o processo seja bem-sucedido.

Apesar do êxito que tem obtido por meio destas ações, é notório que exemplos como os citados acima, no modo como se concretiza a limiaridade na prática, realmente acontecem e fazem parte do desafio mais amplo da inclusão, que vai muito além da ‘carteira assinada’. Muitas vezes, percebe-se que este estágio de limiaridade, que deveria ser transitório, na verdade se cronifica, torna-se permanente, o que no longo prazo pode, inclusive, desmotivar este trabalhador, gerando seu desligamento e criando com isto um círculo vicioso.

Isto é perigoso porque, visto de modo superficial, pode-se simplesmente tributar à pessoa toda a responsabilidade de sua exclusão, quando na verdade ela está sob a ação de forças que nem ela mesma nem sua família conseguem nomear. A limiaridade, por sua própria característica, é dotada de certa ‘invisibilidade’, podendo levar as pessoas a algum julgamento como: “ele não soube aproveitar a oportunidade”.

Robert Murphy, após tornar-se uma pessoa com deficiência, desistiu de estudar o que chamava de ‘povos longínquos‘, e passou a estudar esta ‘enorme distância’ que, às vezes, existe entre nós e as pessoas que estão mais próximas.

Entender o conceito de limiaridade é lançar luz sobre a dinâmica que se processa no próprio ato de incluir e aprimorá-la para que, além de derrubar barreiras físicas e atitudinais, consiga mudar o modelo mental com o qual encaramos a diversidade humana. O estigma e o estereótipo são, na maior parte das vezes, como uma cortina opaca que nos impede de enxergarmos claramente a nós mesmos e também uns aos outros.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na vertical. Foto do psicólogo da APAE DE SÃO PAULO, Flávio Gonzalez. Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Flávio Gonzalez é psicólogo e supervisor de Qualificação e Inclusão Profissional da APAE DE SÃO PAULO. Atua há 21 anos em Programas de Diversidade com foco na inclusão profissional de pessoas com deficiência, assessorando grandes empresas e organizações. É um dos responsáveis pela implantação da metodologia do Emprego Apoiado na APAE DE SÃO PAULO, que triplicou em dois anos o número de pessoas com deficiência incluídas. 

 

 

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