A matemática que não chega nas salas de aula do Brasil

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Uma lousa verde com diversas imagens e fórmulas de matemática, feitas com giz branco. Fim da descrição.
Será que a matemática está realmente chegando às salas de aula do Brasil (Foto: Pixabay)

Por: Zilanda Souza*

A última semana foi especial no campo da ciência, tecnologia e especialmente da matemática. No Brasil inteiro, a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia promoveu uma série de eventos em torno do tema: a matemática está em tudo. Tive a honra de participar, em Brasília, levando contribuições da neurociência para o ensino da matemática, o que me levou a refletir sobre a matemática que não chega nas salas de aula do Brasil.

Entre os estandes que retratavam a matemática na nutrição, na robótica, nas intervenções espaciais e nos fenômenos naturais, uma dúvida cruel: a sala de aula promove essa lente de alcance entre os nossos alunos? Eles conseguem enxergar toda a funcionalidade da matemática?

Eu confesso que senti uma discrepância entre a megaestrutura do evento e os nossos resultados em matemática. A começar pelos ambientes; no evento cada stand era quase um laboratório de experiências, enquanto na sala de aula, a matemática e encontrada em livros, exercícios e simulados.

Mais de 40% dos jovens brasileiros que se submeteram a avaliação do PISA 2015, estão abaixo do nível 1 em proficiência em matemática. O SAEB 2015, aponta um mapa do Brasil catastrófico, indicando que a grande maioria dos estudantes brasileiros, estão abaixo da média em nível de proficiência em matemática.

Curiosamente, é possível observar que, até o 5º ano, a oportunidade de aprendizagem é maior, os índices caem gradativamente à medida que a dona matemática vai sendo isolada em um currículo fragmentado, descontextualizado e inchado.

Como é possível experimentar a matemática na avaliação de abalos sísmicos, em aulas de laboratório integrados com a geografia? Como vão construir maquetes desse sistema usando conhecimentos da geometria, registrando análises, elaborando situações problema, rastreando erros? Como isso é possível cotidianamente, se a grande maioria desses alunos e professores estão enquadrados em quatro aulas semanais, 16 aulas mensais, um livro gigante para consumir, avaliações, simulados e vários paradigmas que massacram a verdadeira ideia da contextualização? Impossível!!!!

Temos uma estrutura escolar para o ensino da matemática e também para os outros campos de conhecimento falida. Os resultados vão provando isso.

Enquanto isso, a neurociência ainda isolada da escola, vai mostrando outro caminho. Vai mostrando por exemplo, evidências de que o giro angular é um grande centro no cérebro para convergência e integração sensorial. E de uma forma muito interessante, a neurologia vem apontando o envolvimento do giro angular esquerdo na manipulação de quantidade, sequências e aritmética. Esses dados reforçam a hipótese de que aprender articulando todos os órgãos dos sentidos e o processamento integrado dessas informações, reforçam a compreensão e memória. Sendo assim, a ideia das experiências laboratoriais, da investigação, integração de campos do conhecimento e de materiais vão sendo validadas para o ensino da matemática.

Eu só vejo uma forma de transformação da estrutura da escola: aliança de pais e professores. Conscientização de pais, formação de professores e uma forte pitada de união. Pais e professores unidos representam a maior força de transformação da educação brasileira. A pressão que essas duas classes juntas podem fazer pode ser comparada a um ‘abalo sísmico’ necessário na educação. Enquanto isso não acontece, seguimos com baixos resultados, estrutura falida e eventos fantasiosos, retratando uma matemática que nunca chega nas salas de aula.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Nela, Zilanda Souza está sentada à frente de uma mesa, e segura alguns de seus livros: Brincando de Palavrear e o livro do programa de treino em funções executivas Super 6º Ano. Fim da descrição.
Foto: Vítor Beltrame

*Zilanda Souza é mãe, professora, especialista em psicopedagogia e neuropsicopedagogia. Autora do livro ‘Brincando de Palavrear’, coordenadora da pós-graduação em neurociência aplicada a avaliação e intervenção psicopedagógica e doutoranda em saúde coletiva. Diretora da Espaço Vida em Minas Gerais e no Distrito Federal. Atua em pesquisa voltada para a intervenção em funções executivas em crianças do ensino fundamental anos finais.

 

 

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