Kombis, trailers, studios: a nova moda dos imóveis reduzidos

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Imagem de uma planta baixa de um imóvel com tamanho reduzido. Na imagem, temos algumas especificações para um morador cadeirante. Fim da descrição.
A arquiteta Helena Degreas destaca a nova moda dos imóveis com tamanho reduzido (Foto: Divulgação)

Por: Helena Degreas*

Você já pensou como deve ser morar numa habitação de 10 m²? E se, além do tamanho dos imóveis reduzidos, você dependesse de uma cadeira de rodas para se locomover?

Nos últimos meses, um debate acalorado sobre o surgimento de apartamentos studio vêm tomando conta das redes sociais. Com tamanhos que chegam a 10m², essas unidades já colocaram a cidade de São Paulo como a campeã nacional na oferta de mini-moradias . Possível desde a promulgação do Novo Código de Obras do município de São Paulo (COE/2017) que revisou as dimensões mínimas dos ambientes residenciais, qualquer um pode ser proprietário de um miniapartamento com excelente localização urbana. Maior do que uma kombi (7.30 m²) e menor do que um trailer (10,26 m²), os apartamentos Studio são a novidade que cabe no bolso, mas não comportam as funcionalidades de um lar – minha opinião.

A revisão das dimensões mínimas dos ambientes residenciais constantes do COE 2017 e da NBR 15575 associadas ao financiamento de imóveis novos no valor de até 240 mil reais pelo programa Minha Casa Minha Vida da Caixa Econômica Federal, vem facilitando a aquisição de habitações para aqueles que têm renda de até 3 mil e 600 reais.

Dados do IBGE (2010) mostram que 74,9% da população que declarou ter alguma dificuldade para caminhar ou andar (não consegue de modo algum, grande dificuldade, alguma dificuldade) recebe entre 0.5% e 3 salários mínimos estando aptos, portanto, a pleitear o financiamento. Ou seja: cerca de 7% dos brasileiros ou ainda, 13.2 milhões de brasileiros. Deste grupo, um pouco mais de 4 milhões declararam possuir dificuldade de locomoção severa. Desconsiderar essas estatísticas e, com elas as adaptações necessárias para atender a esse público ainda no ato do projeto, na construção ou no planejamento do negócio pelas construtoras é incompreensível em época de crise econômica e com financiamento disponível.

O que ocorre com a unidade propriamente dita: dá para morar em 10m² e, ainda assim, atender a NBR9050 com qualidade? De acordo com o Arquiteto Marcelo Sbarra, não. E eu complementaria: não dá para ninguém morar em 10 m² com um mínimo de dignidade.

As unidades de moradia mínima já existiam no pós-guerra. Com o objetivo de atender a uma camada da população de baixo poder aquisitivo, o movimento modernista previa que a noção de mínimo não se resumia à restrição da área útil e sim à versatilidade de uso do espaço doméstico com áreas claramente definidas que viabilizavam as dinâmicas familiares. Os projetos da época apresentavam uma planta livre integrando ambientes sociais que, pela distribuição de móveis, criaram espaços de usos diversos; banheiros, cozinhas e dormitórios, independentemente do número de moradores, eram compactados e individualizados em cômodos separados.

Ainda, de acordo com Sbarra (2017) “… Embora o Código de Obras estabeleça as dimensões mínimas para quartos, salas, banheiros e cozinhas em NENHUM lugar em NENHUMA lei ou Norma há a definição do que seja um apartamento”. Pois é. Aprova-se a unidade como banheiro + sala. Cozinha transforma-se em área de preparo de alimentos. Um cooktop elétrico de duas bocas resolve o problema. Lavar roupas? Só se for do lado de fora da unidade. Na moda mesmo, é agendar e, em alguns casos, pagar para utilizar uma máquina lava e seca da lavanderia coletiva do condomínio. Soube por um conhecido que o filho dele havia adquirido essa unidade. Por considerar desnecessário lavar as meias e a camiseta numa ciclo completo lava e seca decidiu fazer isso no chuveiro enquanto tomava banho. Para secar? Comprou um mini varal e pendurou na varandinha gourmet. Resultado: levou uma multa do condomínio por utilizar de forma incorreta as áreas de uso comum. Sim, a varanda é dele, mas… Tem regras de comportamento: de acordo com o síndico profissional: “É para evitar que o prédio se transforme numa Veneza brasileira com varais e roupas penduradas na fachada do edifício”…

Se já é ruim para quem anda com as duas pernas, fica ainda pior para quem tem dificuldade de locomoção e necessita de cadeira de rodas, tem órtese, prótese, bengalas ou andadores. O problema maior para esses casos é que a unidade habitacional necessita de obras de construção civil para que possa ser utilizada por esses usuários. A adaptação de um apartamento já construído eleva o seu valor dependendo, por exemplo, do número de portas que serão substituídas, pois não tem um vão livre de pelo menos 0.80 m como banheiros, lavabos, lavanderias e outros. As alturas de bancadas, interruptores, tomadas armários entre outros itens precisarão de alterações, elevando o custo final da unidade para o morador. Todas essas alterações precisam de arquitetos, engenheiros, pedreiros, eletricistas, encanadores, pintores, marceneiros, azulejistas… Se as alterações forem pensadas ainda na planta, os custos são insignificantes no total do investimento para a construção, pois nesse caso, as adaptações ocorrem ainda na fase do projeto.

Para quem tem curiosidade em ver uma planta de uma unidade do tipo studio feita pelo Marcelo Sbarra para uma pessoa com dificuldade permanente de caminhar ou subir degraus, veja a ilustração abaixo.

A dimensão mínima necessária para que a locomoção em cadeira de rodas possa ocorrer é de no mínimo 24m². É possível desenvolver outros layouts para distribuição de mobiliário viabilizando a inclusão de estações de trabalho, ponto de água e esgoto para uma máquina de roupas do tipo lava e seca pequena além de um lavatório com tampo e cuba de sobrepor no banheiro.

Estou preferindo morar num trailer e até numa kombi. Espécie de casa móvel, podem me levar para onde eu quero ir… Longe, para bem longe desses studios…

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato retangular, na vertical. Nela, está a arquiteta Helena Degreas em um retrato preto e branco. Helena tem cabelos loiros, ondulados, um pouco abaixo dos ombros. Ela está com o corpo de lado e com os braços cruzados. Helena usa uma blusa branca, com botões.Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Helena Degreas é arquiteta e atua como professora do Programa de Mestrado Profissional em Projeto, Produção e Gestão do Espaço Urbano do FIAM-FAAM Centro Universitário. Leciona nas áreas de Design Universal e Planejamento Urbano.

 

 

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