Sala de aula invertida: ferramenta eficaz ou a bola da vez?

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Sobre a mesa estão um tablet, um giz branco, uma maçã verde e um porta lápis verde, com lápis e canetas coloridas dentro. Fim da descrição.
Especialista destaca os prós e contras da sala de aula invertida (Foto: Divulgação)

Por: Zilanda Souza* 

A sala de aula invertida vem sendo adotada em projetos pedagógicos de turmas do Ensino Fundamental do 6º ao 9º ano, além do Ensino Médio e do Ensino Superior.

O que é a sala de aula invertida?

Uma ferramenta testada nos Estados Unidos para alunos atletas do Ensino Médio, que precisavam faltar em algumas aulas, a flipped classroom vem sendo divulgada no Brasil, como um recurso potencial para melhorar o processo de ensino e aprendizagem.

Caracterizada pela inversão dos processos, a ferramenta modifica o lugar do aluno, enquanto receptor do saber, para investigador inicial, pesquisador e buscador de respostas para problemas reais.

O professor, por sua vez, também modifica o seu lugar. Abdica do papel de transmissor de conhecimentos, para mediador e organizador de sequências a serem investigadas e construídas e passa a ser um mediador e um âncora para a resolução de problemas complexos.

Outro ponto importante é o uso das tecnologias da informação e plataformas tecnológicas, o que parece evidenciar um processo de ensino avançado, onde a tecnologia parece mesmo ganhar mais importância do que o quadro negro e o giz.

 

Prós e contras

Até aqui, a sala de aula invertida me parece mesmo uma ferramenta forte para promover ensino e aprendizagem e talvez não se trata de mais um modismo no Brasil. Estou quase convencida disso, até ser incomodada com a citação de Vilayanur Subramanian Ramachadran: “nunca aceite o óbvio como ponto pacífico”.

Foi então que encontrei um estudo em fase de iniciação no Brasil, abordando os desafios da sala de aula invertida no ensino superior. A máxima entre os professores que estão participando do estudo é que, os alunos parecem não exercitar com facilidade esse papel de buscador, pesquisador inicial comprometendo também o novo exercício do papel do professor que quer instigar e provocar a busca, evitando a função de transmissor do conhecimento. Ou seja, parece que algum mecanismo ou sistema impede a inversão da sala de aula brasileira de forma eficaz cumprindo seu objetivo.

O estudo aborda aspectos culturais e sociais para essa resistência dentro da sala de aula invertida. Eu, porém, enquanto estudiosa do desenvolvimento humano e especificamente do neurodesenvolvimento relacionado à aprendizagem, ouso me perguntar e questionar os pesquisadores:

. Quais são as habilidades do desenvolvimento humano preditoras para exercer eficazmente o papel de aluno na sala de aula invertida?

. Os alunos são treinados nessas habilidades para então serem inseridos nesse ambiente?

. São utilizados instrumentos confiáveis para medir essas habilidades e monitorar o desempenho dos alunos?

Bem, os desafios foram encontrados no Ensino Superior, que recebe alunos adultos, que já passaram pelos marcos do desenvolvimento dessas habilidades e que, provavelmente, não tiveram uma educação que promovesse esse treino.

A ferramenta da sala de aula invertida parece ser eficiente, desde que encontre alunos bem desenvolvidos para exercê-la. A sala de aula invertida busca por construir conhecimentos entre os alunos e a construção de conhecimentos demanda habilidades bem desenvolvidas nos seres humanos. Parece-me medíocre estabelecê-la, em pleno século XXI, sem estímulo/treino e monitoramento de habilidades prévias relacionadas ao desenvolvimento humano dos alunos.

Mudar o aluno de lugar e exigir dele novas posturas, sem se aprofundar nesses conhecimentos, pode ser irresponsável. É inútil buscar resultados em seres humanos sem considerar seu funcionamento, sua potencialidade de transformação – o resultado acadêmico é consequência de desenvolvimento humano saudável –, que por sua vez, abrange habilidades específicas para a busca do saber.

Finalizo essa reflexão parabenizando a professora Inge Renate Frose Suhr, que corajosamente investiga essa ferramenta, dentro de um estudo científico, demonstrando zelo e responsabilidade para com a educação.

Os interessados em conhecer a fase inicial do estudo podem solicitar auxílio pelo e-mail: espacovidagv@hotmail.com.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Nela, Zilanda Souza está sentada à frente de uma mesa, e segura alguns de seus livros: Brincando de Palavrear e o livro do programa de treino em funções executivas Super 6º Ano. Fim da descrição.
Foto: Vítor Beltrame

*Zilanda Souza é mãe, professora, especialista em psicopedagogia e neuropsicopedagogia. Autora do livro ‘Brincando de Palavrear’, escritora da coluna ‘Desenvolvimento e Aprendizagem’, coordenadora da pós-graduação em neurociência aplicada a avaliação e intervenção psicopedagógica. Diretora da Espaço Vida em Minas Gerais e no Distrito Federal. Atua em pesquisa voltada para a intervenção em funções executivas em crianças do ensino fundamental anos finais.

 

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