Normal ou comum? Eu sou especial

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. Vários barquinhos de papel estão sobre uma mesa branca. Todos os barquinhos são brancos, exceto um, que está na frente de todos, que é vermelho. Fim da descrição.
Normal ou anormal, o que caracteriza o ser diferente? (Foto: Divulgação)

Por: Gigante Leo*

Recentemente li o significado da palavra ‘normal’ em um dicionário online que eu não sei se me deixou chateado e/ou perplexo. Dentre algumas definições, este dizia que ‘normal’ era: “sem defeitos ou problemas físicos ou mentais”.

Primeiramente, a palavra normal vem etimologicamente do latim e significa “feito, tirado a esquadria (instrumento para traçar ângulos), p.ext., normal, conforme a regra; comum”.

Outra questão: o que seria exatamente ‘sem defeitos’ ou ‘sem problemas físicos’? Por exemplo, hoje é mais comum que as pessoas tenham uma média de nariz de 35mm. Logo, uma pessoa que tenha um nariz com 70mm é considerada defeituosa. Mas se a média fosse 70mm, quem antes era considerado ‘sem defeitos’ passaria a ser ‘defeituoso’.

Então quando você toma como norma o que é mais comum, ou seja, o que é mais comum passa a ser automaticamente mais perfeito, enveredamos por um

caminho extremamente perigoso: o caminho da exclusão. Pois o que não é maioria, mais comum, não é pensado, gerando os grandes problemas de acessibilidade que enfrentamos nos dias atuais.

Já ouvi diversos relatos de pessoas com mais dificuldades (cadeirantes ou anões) que se mudaram para prédios antigos, logo, com pouca ou nenhuma acessibilidade, onde os moradores acharam ruim o condomínio arcar com obras de acessibilidade (embora isso seja um direito garantido por lei). É o cúmulo de egoísmo e do egocentrismo.

Será que pessoas que têm esse tipo de pensamento nunca pararam para pensar que amanhã elas poderão deixar de ‘serem normais’ e passarem a necessitar de adaptações ‘especiais’?

Esse é o grande problema quando buscamos soluções e normas pensando apenas no que é comum, ‘normal’, pois este pensamento acaba ditando os padrões de tudo na sociedade. Isso não se limita apenas a questões arquitetônicas de acessibilidade, mas se estende também para outras áreas, como por exemplo padrões da indústria têxtil.

Além dessas padronizações baseadas no ‘normal’ serem excludentes, elas acabam perdendo uma excelente parcela de mercado. Buscar soluções que atendam a todos não é tão mais custoso como se pensa, sobretudo com a tecnologia que temos hoje em dia. Por exemplo, o acesso à ônibus: além da implantação de plataformas de elevação no próprio ônibus, uma solução talvez mais econômica seria criar plataformas elevadas nos pontos de ônibus, acessadas via rampas, que deixassem o acesso no mesmo nível do ônibus (em alguns lugares já temos essa solução).

Em outras palavras, quando a humanidade passar a ter um pensamento mais altruísta, buscando soluções criativas e acessíveis a todas as realidades, tendo essa premissa primordial em tudo o que ela produzir, certamente começaremos a encontrar um caminho de baixo custo e que atenda a todos.

Por isso, se alguém me perguntar se eu sou ‘normal’, direi com maior orgulho: não sou comum, sou especial. Não que essa condição me faça melhor ou pior que ninguém, apenas me torna uma ‘figurinha mais rara’, logo, mais valorizada.

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato quadrado. Leonardo Reis está em um parque ecológico. Ele está sentado em um tronco de árvore. Ele está fazendo graça e está com a boca aberta, como se estivesse gritando. Leonardo usa uma camiseta vermelha, calça jeans azul e um tênis azul com listras brancas. Fim da descrição.
Foto: Bianca Ponte

*Gigante Leo ou Leonardo Reis, é ator, humorista e escritor.

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