A pessoa com síndrome de Down no mercado de trabalho

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. O músico Dudu do Cavaco, que tem síndrome de Down, durante um show. Fim da descrição.
O músico Dudu do Cavaco, que tem síndrome de Down, durante seu show (Foto: Divulgação)

Por: Leonardo Gontijo*

As 10 perguntas mais cretinas que já recebi desde que fundei o Instituto Mano Down, de empresas que ligam ou mandam e-mail em busca de pessoas para vagas de empregos. Leia e jamais faça isso!

Obviamente as respostas dadas foram com muita ironia e indignação.

As fraudes à lei de cotas, que na próxima semana completa 26 anos, infelizmente acontecem em todos os cantos do país, mas essa prática ilegal tem sido combatida com rigor pelo Ministério Público do Trabalho.

Uma das situações que sempre são objeto de condenação de empresas na Justiça do Trabalho é a contratação de ‘fantasmas com deficiência’. Isso mesmo, empresas que contratam pessoas com deficiência de forma fraudulenta para cumprir as cotas Lei 8.213/1991.

Trata-se da famosa, manjada e repudiada prática de se contratar trabalhadores com deficiência para ficar em casa.

Você tem alguma passagem para inserirmos na lista?

  1. Tem um menor downzinho aí no instituto?

Resposta: Temos sim, passe aqui e vamos medir juntos as pessoas com Down para ver qual que cabe aí na sua empresa.

 

  1. Recebemos uma fiscalização do Ministério do Trabalho e temos que contratar pessoas com deficiência. Podemos pagar o salário e deixar eles aí no instituto?

Resposta: Claro que sim. Passe aqui no instituto que iremos fazer uma reunião juntamente com o pessoal do Ministério do Trabalho para formalizarmos isso.

 

  1. Queremos contratar uma pessoa com Down que não babe. Tem alguma que possa nos atender?

Resposta: Claro que temos, passe aqui para conhecer nosso trabalho e traga o lenço pois acho que você é que vai babar de ver as habilidades das pessoas com Down.

 

  1. Aí no instituto tem alguma pessoa com Down que fale pouco, pois assim atrapalhará menos o ambiente de trabalho?

Resposta: Claro, temos sim. Passe aqui para conversarmos e conhecer nosso trabalho, mas espero que não fale muito para não atrapalhar nosso ambiente de trabalho.

 

  1. Gostaria de contratar uma pessoa com Down que saiba ir ao banheiro sozinho, tem alguém aí no instituto que consegue?

Resposta: Venha aqui para conversarmos e conhecer nosso trabalho. Temos um banheiro a céu aberto aqui muito inovador e acho que vai gostar de conhecer.

 

  1. Por acaso aí no instituto tem alguma pessoa com Down que sabe usar celular?

Resposta: Falei que iria olhar e que iríamos retornar. Fiz questão de que três alunos do instituto ligassem para a contratante perguntando sobre a empresa e as vagas em aberto.

 

  1. Ficamos sabendo que possuem pessoas com Down no instituto aptas para trabalhar. Queremos contratar uma que saiba digitar, tem alguma aí?

Resposta: Pedi o WhatsApp da pessoa e falei que retornaria. Fizemos questão de que cinco alunos mandassem mensagens para ele.

 

  1. Meu chefe falou que precisamos contratar duas pessoas com Down para atendermos a lei de cotas, por acaso tem algum ai no instituto que não toma remédios?

Resposta: Olha, temos sim. Venha aqui nos visitar para conhecer nosso trabalho e conversar com os alunos, mas não se esqueça de tomar seu remédio contra o preconceito, se não tiver vendemos aqui.

 

  1. Precisamos contratar pessoas com deficiência pois temos um prazo para não tomar multa, será que pode nos dar uma declaração que tentamos e não conseguimos?

Resposta: Claro! Como nos conheceu? Para qual e-mail podemos enviar?

 E-mail enviado:

Declaro para os devidos fins que esta empresa é uma farsa e finge que contrata pessoas com deficiência.

 

  1. Tem alguma pessoa com Down aí no instituto que tenha ‘pegado’ a síndrome depois dos 18 anos?

Resposta: Veja bem! Temos sim. Venha cá conhecer e pegar seu certificado de desconhecimento sobre a pessoa que quer contratar.

 

Essa não foi a primeira e infelizmente não será a última fraude trabalhista envolvendo pessoas com deficiência a ser identificada e punida. O Ministério Público Federal, assim como dos estados, sempre devem ser acionados diante desse tipo de situação, pois têm o dever de agir para combater esses abusos.

Fica também o alerta para as pessoas com deficiência, não deixem a necessidade prevalecer sobre a moralidade, não hesitem em denunciar propostas dessa natureza. A inclusão no mercado de trabalho, que tanto lutamos, tem que ser defendida com ações éticas tanto por parte do empregador, quanto do empregado.

Somente com informação e profissionalismo conseguiremos reverter este quadro.

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na vertical. O colunista Leonardo Gontijo. Ele é moreno, tem a pele clara e cabelos castanhos claro. Leonardo usa uma camisa social azul. Ele sorri. Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Leonardo Gontijo é formado em Direito e Engenharia Civil, mas, é mais conhecido como irmão do Dudu do Cavaco. Professor e consultor em Sustentabilidade e Inclusão, é pai de duas filhas, a Duda e a Laura, e é marido da Carolina.

 

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