A bocha paralímpica como instrumento de inclusão

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Descrição da imagem #PraCegoVer: Imagem no formato retangular, na horizontal. A foto foi feita durante uma disputa de bocha, no momento em que é feita a medição da distância entre a bola branca e as demais. Na imagem vemos, do lado esquerdo, um atleta brasileiro, que usa o uniforme da seleção de bocha, em tons de verde. Ele está sentado em uma cadeira de rodas alta, com aaptações para a prática da modalidade. O atleta brasileiro usa uma espécie de capacete na cor preta. Ao seu lado, na área central da imagem, vemos um atleta da Coreia do Sul. Ele também está em sua cadeira de rodas e usa uma calça azul e uma camiseta vermelha, com a bandeira de seu país. Ambos estão com o tronco inclinado para frente, para acompanhar mais de perto a medição, que é feita por uma pessoa, que está no lado direito da imagem. A pessoa usa uma calça bege e uma camiseta azul com detlahes em verde. Ela está ajoelhada no chão. Fim da descrição.
Disputa entre Brasil e Coreia do Sul nos Jogos Paralímpicos Rio 2016 (Foto: ©Marcelo Regua /MPIX / CPB)

Por: Adriana Dutra*

A origem da bocha é incerta, mas há indícios de que tenha começado na Grécia e no Egito Antigos, como um passatempo, quando havia a prática de lançar grandes pedras em uma pedra alvo menor, tornando-se um esporte apenas mais tarde, na Itália. Somente na década de 1970, este esporte foi resgatado pelos países nórdicos com o fim de adaptá-lo para pessoas com deficiência. No Brasil, a bocha desembarcou junto com imigrantes italianos.

O jogo de bocha tornou-se um esporte paralímpico em 1984, e já está sendo praticado em mais de 50 países. No Brasil, a modalidade é organizada pela Associação Nacional de Desporto para Deficientes (ANDE) e, internacionalmente, pela BISFed.

No início, a bocha adaptada era voltada apenas para pessoas com paralisia cerebral, com um severo grau de comprometimento motor (os quatro membros afetados e o uso de cadeira de rodas). Atualmente, pessoas com outras deficiências também podem competir, desde que inseridas em classe específica, e que apresentem também o mesmo grau de deficiência exigida e comprovada, como por exemplo, distrofia muscular progressiva, acidente vascular cerebral, ou dano cerebral com função motora progressiva.

São utilizadas 13 bolas, sendo seis azuis, seis vermelhas e uma branca, confeccionadas com fibra sintética expandida e superfície externa de couro. Seu tamanho é menor que o de bocha convencional e o peso é de, aproximadamente, 280 gramas. O árbitro utiliza para sinalizar ao jogador, no início de um lançamento ou jogada, um indicador de cor vermelho/azul, similar a uma raquete de tênis de mesa, autorizando o arremesso. Para medir a distância das bolas coloridas da bola alvo, é utilizada uma trena ou um compasso.

O jogo pode ser praticado por pessoas de todas as idades, individualmente, em duplas ou em equipes, e todos os eventos podem ser mistos, ou seja, podem ter homens e mulheres competindo juntos e igualmente. A sua finalidade principal é a mesma da bocha convencional, que é aproximar o maior número de bolas coloridas da bola branca, que é a bola alvo, também denominada Jack ou Bolim.

A pontuação obedecerá a seguinte norma: um ponto para cada bola da mesma equipe mais próxima da bola alvo, em comparação às bolas da equipe adversária.

 

Classificação
Os atletas são classificados como CP1 (deficiência mais severa) ou CP2, e divididos em quatro classes:

BC1 – atletas CP1 ou CP2 com paralisia cerebral que podem competir com auxílio de ajudantes;

BC2 – atletas CP2 com paralisia cerebral que não podem receber assistência;

BC3 – atletas com deficiências muito severas e que usam um instrumento auxiliar, podendo ser ajudados por outra pessoa;

BC4 – atletas com outras deficiências severas, mas que não recebem assistência.

A classificação funcional é realizada por uma equipe multidisciplinar. Normalmente um médico, um fisioterapeuta e um professor de educação física. É realizada antes das competições, em um local reservado e sem plateia, mas pode ser prolongada durante os jogos em caráter de observação, para acompanhamento da performance e das condições dos atletas nas partidas.
Isto permite que a competição seja mais justa possível, nivelando ao máximo os graus de deficiência dos participantes de uma mesma classe. É imprescindível o técnico reconhecer a capacidade funcional de seus atletas, para que não se confunda a incapacidade de realizar um movimento com a falta de treinamento para a realização do mesmo.

Antes da paralimpíada do Rio de Janeiro, a bocha era tida por algumas pessoas não familiarizadas com a modalidade adaptada, como um esporte para idosos, mas o carisma da equipe brasileira enfim derrubou esse estigma, assistindo de perto uma partida, foi possível verificar que a habilidade e a inteligência tornam-se fundamentais no desenvolvimento das jogadas, assistindo-se muitas vezes a um verdadeiro espetáculo de alternância da vantagem, pela aplicação de técnicas e táticas adequadas e desenvolvidas a cada arremesso.

Hoje, a bocha paralímpica é querida e admirada pelos fãs de esporte, que puderam conhecer melhor a modalidade e os nossos grandes atletas, com vários títulos, medalhas e referencia mundial da modalidade, como o Dirceu Pinto e Eliseu dos Santos.

“Eu comecei a treinar bocha do nada. Nossa eu lembro até hoje os meus primeiros jogos de bocha (14×0 pra ele,14×0 pra ele, 6×4 pra ele, 4×3 pra ele e a minha primeira vitória 9×1 pra mim) depois nessa competição ninguém acredito que eu ia voltar no ano seguinte, mas eu voltei e ganhei todos os meus jogos com isso eu passei para os Jogos Paralímpicos Escolar de 2015, em Natal (RN), e a minha primeira competição nacional de bocha, eu cheguei até às semifinais, e fiquei com o quarto lugar do Brasil na escolar. Um ano depois eu fiz minha segunda participação na paralimpíada escolar, tendo conquistado o segundo lugar no torneio, em 2016. Neste ano, vou para a minha quarta seletiva de bocha pra tentar a minha terceira paralimpíada escolar, e vou lutar por mais uma medalha Em 4 anos tenho 2 medalhas de ouro das seletivas das escolares”, conta o atleta Eric Oliveira Gomes, de 15 anos.

Ele, que tem paralisia cerebral, pratica também natação, e garante que no futuro pretende atuar como treinador.

“A modalidade proporciona prazer e felicidade, autonomia e qualidade de vida para os praticantes como benefícios. Além de estimular  a capacidade motora, coordenação, equilíbrio, força, capacidade de raciocínio. E por ser um esporte de fácil instalação, torna-se totalmente inclusivo onde todos podem jogar juntos”, destaca a fisioterapeuta Maristela Costa, que atua como técnica de bocha.

A AACD e a ADD são duas associações que promovem o esporte.

 

Termos usados

Jack, Bolim, bola-mestra ou bola-alvo: refere-se à bola branca;

Cancha: quadra de superfície plana e lisa onde ocorrem os jogos;

Box: local onde o atleta se posiciona para arremessar as bolas;

Dispositivos auxiliares: ajuda de algum material para que o jogador possa executar a jogada (Ex.: rampa ou calha);

Calheiro: pessoa que auxilia o jogador mais comprometido durante o jogo;

Kit: conjunto de bolas de bocha;

Elegibilidade: condição motora para que o atleta possa jogar a modalidade;

Bola morta: bola arremessada para fora das linhas do campo ou que tenha sido retirada pelo árbitro no seguimento de uma violação;

Dispositivo de medida: material para medição da distância entre as bolas (Ex.: trena e compasso);

Cronômetro: é usado para medir o tempo que o jogo de bolas devem ser jogadas, dentro de uma parcial;

Parcial ou set: quando os jogadores terminam de lançar todas as bolas vermelhas e azuis;

Partida: soma de quatro parciais ou sets, desde que não haja TieBreak.

 

Fonte: Associação Nacional de Desporto para Deficientes

 

 

Descrição da imagem #PraCegoVer: A imagem está no formato quadrado. A imagem está em preto e branco. Nela está a colunista Adriana Dutra. Adriana é morena, tem cabelos castanhos longos e lisos. Ela usa uma blusa preta e sorri. Fim da descrição.
Foto: Divulgação

*Adriana Dutra é advogada, presidente da Atitude Paradesportiva, ONG que ajudou a criar em 2010. Atua com esporte adaptado há 10 anos, incentivando a prática de atividade física, dando oportunidade de treinamento e organizando eventos para a divulgação e fomentação das modalidades adaptadas.

 

 

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